"Resíduos não constituem qualquer risco e podem ser reciclados"

Rui Berkemeier, engenheiro do ambiente e especialista em resíduos da associação Zero viu os resíduos - "uma espécie de terra" - e garante que não há problema nem para o ambiente nem para as pessoas.

Que impactos têm estes resíduos vindos de Itália para o ambiente?

São resíduos que já estão tratados e que podem ser reciclados e, se for esse o seu destino, não há impactos para o ambiente. Isto porque as matérias-primas, como o plástico, a matéria orgânica ou composto, e os metais poderão ser aproveitados. O composto, por exemplo, pode ser usado para fertilização natural. Os metais e plásticos, uma vez separados, vão para a reciclagem, e isso contribui para poupar energia e na extração de recursos naturais.

Mas originalmente não era suposto que estes resíduos fossem reciclados. Iam para aterro.

A operação original era de envio para aterro, mas depois de uma avaliação do tipo de resíduos verificou-se que há potencial de reciclagem. Nós próprios [associação ambientalista Zero] verificámos isso, quando fomos lá ver os resíduos, na primeira semana de novembro. E a empresa já disse que há potencial de reciclagem para eles.

O facto de estar mesmo junto do Parque Natural não pode constituir um problema, por exemplo, para as atividades de turismo?

Estes resíduos não têm qualquer cheiro porque a matéria orgânica já está tratada na origem. Os resíduos estiveram armazenados durante muito tempo e a matéria orgânica degradou-se e deu origem a composto. É essa a forma em que está agora. Estive a vê-los, e é uma espécie de terra. Não constitui qualquer risco.

Então como se explica esta polémica, tendo em conta que Portugal importa anualmente mais de 80 mil toneladas de resíduos urbanos tratados para os queimar em cimenteiras?

Não compreendemos esta polémica porque este é um tipo de operação que ocorre há muitos anos. O único motivo que pode estar na origem da polémica é o facto de o Ministério do Ambiente ter levantado dúvidas sobre as análises dos resíduos, quando a situação é perfeitamente legal e é uma operação amiga do ambiente, porque vai permitir reciclar resíduos que a Itália não estava conseguir tratar.

E se não compensar economicamente a reciclá-los, irão para aterro?

Poderão ir, mas estamos na expectativa de que uma parte importante possa ser reciclada. Seria uma atitude inteligente da empresa porque poupava espaço no aterro e ainda poderia ter receita da venda desses materiais, nomeadamente o plástico e os metais.

O que acontece em geral aos resíduos importados?

Na maior parte dos casos são metais que vão para siderurgia para o metal ser fundido e reaproveitado. Também há resíduos que vão para queima nas cimenteiras. São parecidos com estes de Itália e são encaminhados para queima nas cimenteiras sem haver recuperação de materiais para reciclagem. Esta recuperação que se espera que seja feita no CIPRI é a primeira de que temos conhecimento para aproveitamento de reciclagem.

Qual é a vantagem para Portugal de importar resíduos?

Temos de olhar para as questões ambientais em termos globais. Não sendo possível ser tratado em Itália, e podendo ser em Portugal, há uma vantagem ambiental clara. Para Portugal, é uma forma de desenvolver a economia através das empresas que tratam resíduos e simultaneamente obter matérias-primas para a indústria.

Qual é o valor da economia de resíduos em Portugal?

Toda a atividade gerada pela gestão dos resíduos urbanos terá um valor superior a 500 milhões de euros anuais, e que envolve empresas de gestão de resíduos, fábricas de reciclagem e autarquias.

Isso engloba os resíduos importados?

Não, isto é só os resíduos urbanos produzidos em Portugal.

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