Minas da Panasqueira ganham nova vida

Há quatro meses, o fecho era dado como certo. Em janeiro, a exploração passou para os canadianos Almonty, que evitaram um flagelo social na região de Castelo Branco. São 240 mineiros e novos donos estão a criar mais 70 postos de trabalho

A cidade do Fundão já ficou 35 quilómetros para trás e a mais de uma hora de viagem. O que separa as Minas da Panasqueira das cidades e vilas mais próximas são curvas e contracurvas de uma estrada recentemente requalificada que serpenteia entre a serra da Gardunha. Antes de chegar à frente de exploração da mina de volfrâmio, atravessa-se as Minas de Panasqueira, um museu a céu aberto de estruturas metálicas, onde a atividade industrial se iniciou em 1898. E hoje mantém-se viva.

Atualmente, a frente de exploração mineira está na Barroca Grande, uma aldeia com perto de 400 habitantes. Não fosse a atividade subterrânea e já só restavam naquela região os mais idosos.
No final de 2015, nuvens negras pairaram sobre as minas. A crise naquela exploração mineira foi confirmada em março desse ano pelo então presidente do Conselho de Administração da empresa proprietária das Minas, a Sojitz Beralt Tin and Wolfram Portugal.

Na altura, a empresa referia que estava a ter "perdas incomportáveis" devido às constantes quedas do preço do volfrâmio e avisou que iria deixar de renovar os contratos de trabalho temporário para proceder à redução gradual de pessoal com origens nos concelhos do Fundão e da Covilhã, distrito de Castelo Branco, e da Pampilhosa da Serra, distrito de Coimbra.

A redução de postos de trabalho afetou quase uma centena de pessoas: em março de 2015, as Minas da Panasqueira empregavam 339 funcionários e no final desse ano só já empregam 244. O fecho era dado como iminente.

Por turnos, os mineiros dedicam-se a um trabalho “duro, muito duro” no interior do túneis

Em janeiro deste ano, o grupo canadiano Almonty adquiriu a exploração das Minas da Panasqueira. A operação evita o encerramento da empresa e garante a criação de mais postos de trabalho. As primeiras 20 pessoas, de um total de 70 que a empresa prevê recrutar neste ano, já estão a trabalhar na mina. A esperança renasceu para um sem-número de homens que já só viam forma de subsistência na emigração.

No final do ano passado, David Gonçalves, de 32 anos, equacionava emigrar com a companheira. Dispensado da mina em abril de 2015, passou à condição de desempregado. Junto de amigos e família a residir no estrangeiro, fez saber que na zona do Fundão ou Covilhã não encontrava trabalho. "Fartei--me de procurar, mas está difícil, mais ainda para quem não tem grande formação", frisa o jovem.

De malas praticamente aviadas, David Gonçalves é informado de que tem uma vaga à sua espera na mina. E aceita. "Para quem quer fazer vida aqui na zona, esta é a empresa que oferece as condições necessárias para permanecermos." Tal como o pai, José Gonçalves, mais conhecido como Zé da Moca pela boa disposição constante, também ele mineiro, David gosta do que faz, mesmo que o trabalho seja "duro, muito duro".

A conversa com os mineiros decorre à boca da mina. São três da tarde, os trabalhadores do turno que entraram às sete da manhã estão a ser transportados para o exterior. Antes de verem a luz do dia, picam o ponto e são revistados pelos guardas para evitar furtos de pedras de volfrâmio.

Regresso à terra

Saem uns, entram outros, para o turno que terminará às 23.00. Entre eles está Joaquim Silva, de 53 anos, que há pouco tempo regressou à mina. Desde 1983 trabalhou em diversas obras públicas, metros, pontes e viadutos. "Longe de casa", frisa a olhar para o chão. Manteve sempre o objetivo de uma dia regressar à terra. "Nunca pus a hipótese de não regressar, mas via que quanto mais o tempo passava seria mais difícil. Quando a anterior empresa pôs a hipótese de fechar, pensei não só em mim mas nos colegas que cá tinha deixado... Foi bom terem pegado nisto, é importante para a região, se a mina um dia fechar isto será um drama."

Na maior parte dos casos, é-se mineiro não por gosto mas por necessidade. "Ou se trabalha nas minas ou se vai embora", diz Luís Paulo Mendes, delegado do Sindicato Mineiro. Já trabalhou nas obras, cumpriu serviço militar, emigrou para Suíça até entrar nas minas onde está há 21 anos. Na Barroca Grande, onde reside, criou família, tem quatro filhos. "O meu pai, também mineiro, dizia-me muitas vezes que a vida de mineiro era um bocado puxada. Nas obras vê-se o sol, vai-se comer a casa, e na mina é a escuridão, temos de comer no ambiente da mina, na poeira, na humidade. Fui trabalhar para as minas como último recurso. O ordenado que levo para casa é de 775 euros brutos, não é uma fortuna face ao esforço", confessa.

As Minas da Panasqueira pouco têm que ver com o que eram há 30 anos, quando empregavam mais de mil pessoas. Chegou a existir uma equipa de hóquei em patins e outra de futebol a disputar a 3ª Divisão Nacional. A atualidade das minas preenchia as páginas do jornal O Mineiro, já extinto.
Naquela aldeia que tem mais habitantes do que todas povoações da freguesia, incluindo a sede, São Francisco de Assis, em praticamente todas as casas existe um mineiro. A presidente de junta tem o pai, o marido e um cunhado a trabalhar nas minas, trata-se, portanto de três agregados familiares. "Este é único meio de sustento nesta região", sustenta Joana Campos. No período em que a mina esteve para fechar não se falava noutra coisa na Barroca Grande. "Vivemos um período de grande apreensão, até porque na altura eram 240 postos de trabalho que estavam em causa, seria um flagelo social. Não se falava noutra coisa, os familiares que aqui vinham à junta estavam preocupados. Levámos o assunto à Assembleia Municipal do Fundão. A câmara intercedeu junto do governo para tentar salvar as minas", o ganha-pão de centenas de famílias.

A entrada de novos administradores evitou uma vaga de emigração da Pampilhosa da Serra, da Covilhã e do Fundão. E salvou a Barroca, que tem na mina o seu manual de sobrevivência. Mesmo com os "altos e baixos" da exploração mineira, com períodos de greve e fechos temporários, a Barroca Grande soube adaptar-se aos novos tempos. A aldeia perdeu o hospital, o cinema com duas sessões por semana, as equipas desportivas, mas mantém alguma atividade económica graças aos mineiros. "Isto não é nada como era antes, mas manterem os postos de trabalho e empregarem mais alguns é muito bom. De resto, o movimento é o do dia-a-dia, vende-se o pão, umas cervejas. Os mineiros convivem aqui algum tempo. Para nós comerciantes, aguenta-se a atividade enquanto existir a mina", refere José Maçãs, ao balcão do seu Café Central.

Falar em atividade económica em torno da mina é referir os quatro cafés, um supermercado, um restaurante e uma farmácia. E há ainda a escola, construída de raiz há dez anos, com dez crianças no jardim de infância e 18 no 1.º ciclo.

A Junta de Freguesia de São Francisco de Assis assegura na Barroca Grande o serviço dos correios e a gestão do Museu Mineiro, por onde passaram nos últimos três anos 40 mil visitantes. "Sabemos que a duração de vida da mina não é para sempre... O futuro desta freguesia vai ter de passar pelo turismo devido às minas, de outra forma não vejo atividade económica que possa aqui sobreviver", considera Joana Campos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Pedro Lains

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita

Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.