"Nunca esperei que pudesse atingir uma depressão com esta dimensão”. Quem o diz é José Rodrigues, um dos primeiros doentes que deu entrada no primeiro serviço de psiquiatria privado na região Sul do país, no Hospital do Mar, em Loures, e que ali continua a recuperar. Com 67 anos, toda a vida procurador da república do Tribunal de Família e Menores de Loures, José Rodrigues, ou Dr. José, como é tratado na unidade, não se embaraça a falar da doença que o levou em outubro do ano passado a um internamento urgente num hospital público, à transferência para um outro, onde esteve alguns meses, e depois à passagem para este serviço, onde, agora, diz: “Estou a recuperar bem. Há outras atividades, como terapia ocupacional e fisioterapia, que não tinha no hospital público e com o apoio dos meus familiares acredito que vou conseguir”..José Rodrigues entrou em outubro de 2023 na urgência do Hospital São José, em Lisboa, referenciado por uma psiquiatra e levado pelo filho e pela irmã, depois de ter entrado de baixa médica no seu local de trabalho. É ele que nos conta todos os passos, porque, se há mensagem que gostaria de deixar a outros que possam estar a viver o mesmo que ele é, precisamente, “assim que sintam alguns sintomas diferentes, como dificuldade em dormir, angústia ou tristeza, não deixem de pedir ajuda o mais rápido possível”..E conta: “Comecei por sentir dificuldade em dormir, depois entrei num grande isolamento social, muita angústia e, por fim, entrei numa fase em que andava e andava sem destino. Fui a uma psiquiatra que recomendou o meu internamento, foi quando a minha irmã e o meu filho me levaram a São José, mas depois fui transferido para o Hospital Amadora-Sintra”..José Rodrigues tem 67 anos e desde março que se encontra a recuperar de uma depressão naquele serviço.Sem regras para acordar ou para deitar, o ritmo do doente é respeitado.Sentado a uma mesa, com a técnica de terapia ocupacional, José viaja virtualmente pelo mundo tentando identificar as capitais de cada país. As palavras saem-lhe pausadamente, vai acertando. O momento de terapia ocupacional integra a sua rotina diária, depois das 11:00, já que o seu ritmo de acordar é pelas 9:00, só depois faz a sua higiene, toma o pequeno-almoço e só então se dedica às atividades. Tudo isto é respeitado, como explica o enfermeiro chefe do serviço de internamento de psiquiatria, Pedro Freire, “as necessidades dos doentes variam e respeitamos os ritmos de cada um”. Faz parte da filosofia do hospital e deste serviço em particular. “Os ritmos do sono são muito importantes para estes doentes. E não há uma regra para acordarem todos às 7:00 ou às 7:30. Por exemplo, o dr. José gosta de se levantar pelas 9:00, a outra doente a partir das 8:00. Cada um levanta-se à sua hora, faz a sua higiene, toma o pequeno almoço e conversam com a equipa de enfermagem sobre como foi a noite e as suas necessidades para dar início às atividades”..É assim que ali se começa o dia, mas ao deitar é a mesma coisa. O dr. José, por exemplo, gosta de ler e ficar acordado até à meia-noite. Há outros doentes que já não são assim. Mas o importante é que dia a dia cada doente tenha “a noção da sua doença, dos sintomas , como pode lidar com eles, e das suas necessidades”, explicam-nos. .Enquanto falamos com as equipas, no serviço instalado no piso zero do edifício do Hospital do Mar, que em tempos já teve funções dedicadas à investigação agronómica, José Rodrigues continuava nas suas atividades terapêuticas. A outra doente que com ele ali está internada preferiu fazer um passeio terapêutico na parte exterior do hospital. As atividades que cada um tem de fazer são distribuídas ao longo dia, mas a hora de almoço é sagrada, até por causa da medicação e da hora das visitas, que vai das 12:00 até às 20:00. E como diz Pedro Freire: “As famílias acabam por ser nossos parceiros na recuperação dos doentes”..No primeiro andar, José deixa a área da estimulação para se dirigir à fisioterapia. É das atividades que mais gosta, confessou ao DN, embora concorde que tanto uma como outra sejam importantes para si. “Trabalhamos muito a área cognitiva, com exercícios de estimulação, mas também a área motora e com o que chamamos de treino de vida diária. O objetivo é potenciar a autonomia funcional que necessita cada doente”, destaca a coordenadora da área da reabilitação, Alexandra Quadrado. Por isso mesmo, o treino diário pode passar pela “atividade de vestir ou despir, pela gestão de dinheiro, pela aprendizagem do uso de transportes ou até pelo ir às compras. É todo um trabalho que é planeado e programado também no sentido de se promover a reintegração social”, sublinha. .O grande desafio deste serviço é dar uma resposta mais global aos doentes.O psiquiatra João Data Franco (ao centro) é o coordenadora da equipa médica deste serviço de internamento e diz que o maior desafio é conseguir "dar uma resposta global" aos doentes. A equipa tem mais dois médicos por agora, uma delas Rita Avelar (à direita). Na área da enfermagem, há oito profissionais, Pedro Freire (à direita) é o chefe..Nos corredores do hospital, não há o frenesim nem as enchentes de um hospital público. É difícil identificar quem é doente ou visitante, porque outra das regras é que “não se anda em pijama. Todos os doentes usam a sua roupa, porque o objetivo é que recuperem para retomarem a sua vida lá fora”, destaca o enfermeiro Pedro Freire. A segurança é outra das regras, os quartos têm o menos possível, todas as portas abrem para os dois lados, mas a porta da entrada do serviço só abre com cartão usado pelos profissionais. “É uma questão de segurança, mas , como vê, não é um serviço que se assemelhe a uma prisão, não é isso que se pretende dar ao doente”, diz. .O Hospital do Mar, que integra o Grupo Luz Saúde, “está organizado de forma a dar resposta a várias valências, que vão desde as demências até aos paliativos e cada uma destas especialidades tem as suas próprias equipas. Mas temos uma equipa base que dá resposta a outra vertente, que é a da terapêutica, e que integra neuro terapeutas, psicólogos e animadores”, destaca o diretor clínico da unidade, Manuel Caldas de Almeida. .Aliás, reforça ao DN a psiquiatra Maria João Heitor, consultora do grupo para esta área e coordenadora do trabalho que levou à criação deste serviço, “uma das razões que fez este grupo privado avançar para um serviço de internamento na área da Saúde Mental foi precisamente o facto de já ter nesta unidade uma resposta global”..Por outro lado, sublinha: “O setor privado tem-se mobilizado, sobretudo no ambulatório, com a criação de consultas externas de Psiquiatria e Psicologia, mas o internamento psiquiátrico tem sido uma valência deficitária, com escassas camas, e oscilações no encerramento e abertura de clínicas. As camas que existiam não tinham, na sua maioria, um corpo clínico permanente e foi isto que se pretendeu introduzir”..Maria João Heitor explica pormenoriza que este “serviço de internamento tem uma equipa clínica multidisciplinar, em permanência, com formação e experiência na área, com médicos psiquiatras, enfermeiros especializados, técnicos auxiliares de saúde e outros profissionais, e está inserido numa estrutura hospitalar com múltiplas valências médicas, como sejam a medicina interna, medicina geral e familiar, neurologia, medicina física e de reabilitação, além da nutrição, psicologia e neuropsicologia, neuroestimulação, terapia ocupacional, terapia da fala, animação sociocultural, e assistentes sociais, entre outras”. .Ou seja, remata, “são valências diferenciadas que vão desde a reabilitação ao tratamento de demências e aos cuidados paliativos), sempre com equipas habituadas a trabalhar em multidisciplinaridade e num ambiente de qualidade”..Mas a psiquiatra reconhece não ter sido só a necessidade de dar uma resposta global nesta área no setor privado que levou à criação deste serviço, foi também o facto de o setor público ter resposta limitada para algumas situações agudas. “Os serviços públicos têm limitações, são impotentes para dar todas as respostas de que os cidadãos precisam, por exemplo, para os casos menos graves. Mesmo nos casos mais complexos, os doentes permanecem demasiados dias nos serviços de urgência antes de terem vaga nos internamentos de Psiquiatria. A piorar esta situação, deparamo-nos com uma insuficiência de respostas nos cuidados de saúde primários”, argumenta a médica..Portanto, e sintetizando, “as dificuldades de respostas atempadas e abrangentes no SNS e também a resposta deficiente ao nível dos hospitais privados” levaram à criação deste serviço, agora com capacidade para 14 camas, mas que pode ir até às 18. Por agora, a equipa médica permanente é de três médicos, mas em julho será de quatro e, em setembro, de cinco. A equipa de enfermagem integra oito profissionais..De fevereiro a junho, o serviço recebeu cinco doentes, Manuel Caldas de Almeida afirma que é um início que “está a cumprir o ‘business plan’”, esperando, no entanto, que o serviço cresça. A Saúde Mental é um dos eixos prioritários do Plano de Emergência e Transformação da Saúde, recentemente apresentado pelo Governo, devido à limitação de respostas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), e, como diz Manuel Caldas de Almeida, “estamos abertos a parcerias e acreditamos que podemos ajudar o Plano de Emergência nalgumas rubricas, nomeadamente neste serviço que pode funcionar como complemento do serviço público. Um serviço global na área da Saúde Mental faz falta à população”..Maria João Heitor, psiquiata e consultora do grupo Luz Saúde para a área da Saúde Mental.Das depressões e ansiedade graves até às situações obsessivas e bipolares.Na base deste serviço de psiquiatria, está o acolhimento de “doentes agudos de todas as faixas etárias, a partir dos 18 anos, com problemas de saúde mental”, destinando-se sobretudo “a pessoas com perturbações psiquiátricas em fase aguda, às quais sejam identificadas necessidades de internamento”, explica a médica Maria João Heitor. E para lá chegar, “as portas de entrada são diversas, podendo os doentes ser referenciados pelo seu psiquiatra assistente, por um serviço de urgência privado ou de outro internamento. Também podem ser referenciados pela família ou pelo próprio paciente, mas terão sempre de ser avaliados por um psiquiatra do serviço”..Segundo nos explicaram, “os internamentos típicos serão de “curta ou média duração e destinam-se a perturbações como: depressão, ansiedade grave, esquizofrenia e outras psicoses, perturbação bipolar, perturbações da personalidade, perturbação obsessivo-compulsiva, síndrome de burnout grave, adições (dependência do álcool, entre outras), outros problemas de saúde mental”. E não serão aceites “internamentos compulsivos”..Quanto ao futuro, Maria João Heitor destaca que “ este internamento também recebe doentes para descanso do cuidador e para o futuro está previsto a criação de um hospital de dia, para pessoas que já não precisem de internamento, mas que, por um lado, necessitam de uma maior estabilização do quadro clínico e, por outro lado, de treino de competências e desenvolvimento de capacidades numa perspetiva de reabilitação psicossocial”..Para já, e como sublinha o coordenador da equipa médica, João Data Franco, “o grande desafio é conseguirmos dar resposta a doentes de saúde mental cujo acompanhamento em ambulatório é difícil ou que não está a ter a solução que se idealizou. É fazer uma boa avaliação clínica do doente, dar-lhe um bom acompanhamento médico e depois definir o melhor tratamento para fazer aqui na unidade”..O médico conta que o primeiro doente recebido no serviço esteve internado apenas duas a três semanas. Depois chegou José, que é o que ali está há mais tempo, mas, ao todo, passaram por ali cinco doentes. Ao DN, José Rodrigues, confessa, que uma das coisas mais importantes de ali estar “é o tratamento ser ao meu ritmo, tanto a medicação como as atividades”. E, ao fim deste tempo, já consegue ir a casa. “Já fui o fim de semana passado e vou este também, tenho o apoio dos meus familiares”, mas sabe que precisa de “estar aqui mais algum tempo para conseguir recuperar totalmente”. .José está a fazer o seu caminho e dele fala sem receio, porque espera que o seu caso possa servir de exemplo, não para mostrar como se é tratado numa unidade privada, mas pela forma como está a recuperar. “Sinto-me melhor, mas vou precisar de mais algum tempo para recuperar totalmente. Estou a adaptar-me aos poucos com o apoio dos meus familiares. E acredito que vou conseguir”, desabafa. Se ali está, agradece à irmã “que fez várias pesquisas na internet à procura de um local como este e em que eu pudesse recuperar”. Hoje, assume que nunca imaginou que “pudesse atingir uma depressão com esta dimensão”. Por isso, aconselha, “procurem ajuda o mais cedo possível, assim que manifestem sintomas”.