PSP. Mais esquadras em risco de fechar em agosto

Depois de a maior esquadra do Porto ter fechado no fim de semana, sindicato alerta para a eventualidade de se repetirem encerramentos, tanto nos próximos dias como em agosto. Ao DN, presidente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia diz que as férias podem provocar mais constrangimentos nas instalações policiais. Presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo diz que "situação preocupa".

O fecho de esquadras por falta de efetivos é uma realidade e pode agravar-se ainda mais com a chegada do mês de agosto. O aviso é deixado por Paulo Santos, presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP) em declarações ao DN. O dirigente sindical explica que o próximo mês "é um período de férias e, juntando a isso, há quem esteja de baixa prolongada e acabe por descompensar muito o serviço em esquadras". Além disso, diz, "o problema não é só no Porto ou em Lisboa. Nos Açores, por exemplo, há meses que há esquadras que têm de encerrar o atendimento por falta de pessoal".

O alerta surge dias depois de a maior esquadra do Porto ter encerrado por falta de pessoal. E segundo Paulo Santos, já esta semana, na passada segunda-feira, "a esquadra de Ermesinde esteve encerrada" durante o período noturno pelos mesmos motivos. O DN sabe que a mesma situação vai acontecer nas esquadras de Valongo e da Maia na noite de hoje, com o serviço de atendimento de ambas a encerrar entre as 00:00 e as 08:00.

Na sequência destes problemas, o ministro da Administração Interna revelou, na passada segunda-feira, que vão ser criadas esquadras móveis em Lisboa e no Porto para combater a falta de efetivos. Uma solução que não serve, na opinião do presidente do ASPP: "Essa foi uma solução muito particular. O problema, no entanto, é de base e não de estrutura. Esta será uma solução a muito curto prazo mas, a longo prazo, não faz qualquer sentido." Inicialmente, estava planeado que esquadra móvel do Porto entrasse em funcionamento no fim de semana, mas o lançamento foi antecipado para amanhã para, segundo Rui Moreira, "ver como a população reage".

Por sua vez, o ministro - que esteve reunido com o autarca portuense para avaliar a situação - revelou que, neste momento, Portugal até tem um número de efetivos por 100 mil habitantes superior a outros países europeus (442 por 100 mil).

Paulo Santos desvaloriza e coloca o problema noutra dimensão: "Nós não conseguimos ter um número certo sobre quantos efetivos faltam. Em rácio até estamos bem, mas há polícias que só estão em funções administrativas e há outros que saíram para o SEF, por exemplo. Além disso, vão entrar mil polícias este ano, mas vão sair outros mil, isto significa que não há um aumento efetivo de operacionais."

Turismo pede que se acautele a segurança

Depois de dois anos e meio de restrições, Portugal - e outros países do mundo - começam agora a retomar as rotinas pré-pandemia, e o setor do Turismo tem previsões em alta para o setor. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de dormidas, no mês de abril, ultrapassou os seis milhões, um número que até superou os valores de 2019, o último ano antes da covid-19.

Poderá, agora, a falta de efetivos nas esquadras e o eventual aumento da criminalidade causar uma nova quebra no setor? Na opinião de Cristina Siza Vieira, vice-presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), a segurança não deve ser posta de parte.

"Para vingar, o Turismo não pode ter falhas na segurança de pessoas e bens", considera, acrescentando: "Portugal tem na segurança um dos seus grandes ativos em termos internacionais." Por isso, "os meios de segurança devem ser reforçados, até pela marca forte que Portugal é em termos institucionais".

Para Paulo Santos, a perspetiva é outra e a situação deve ser vista de outro ângulo. "Temos polícias que só têm funções administrativas e não fazem nada em termos operacionais e o governo não tem acautelado estas situações."

Queixas fora da esquadra "é pegar no problema de forma errada"

Perante esta situação, o ministro da Administração Interna defendeu, na segunda-feira, que, para retirar carga burocrática das esquadras, se possa passar a apresentar queixas noutros locais, como Lojas do Cidadão ou Juntas de Freguesia, caso se percam documentos, por exemplo. No mesmo dia, o Presidente da República - que se recusou a comentar o fecho da esquadra no Porto -, pediu cautela sobre esta proposta, relembrando que é preciso saber "o que são as tarefas burocráticas."

Na perspetiva da ASPP, esta ideia "é pegar no problema de forma errada", considera Paulo Santos. "Olhemos para um extravio. Um extravio de documentos, se calhar, pode não ser só isso. E, se for o caso, a competência já é da polícia e não das Juntas de Freguesia ou de uma Loja de Cidadão", remata o responsável.

O DN questionou o MAI sobre este tema, mas não obteve respostas a tempo do fecho desta edição.

Bacelar Gouveia: "A situação preocupa porque nos apanha com o país cheio de turistas"

Foram conhecidos, em poucos dias, relatos de esquadras a fechar no Porto e alguma criminalidade a acontecer em Lisboa. Enquanto diretor do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), como vê o alarme que se criou com estas notícias?
Acho que a situação preocupa porque nos apanha num momento crítico, com o país a encher-se de turistas. E é um problema que de certa forma não se vê por ser estrutural, mas pode identificar alguma erosão nas estruturas e na organização. Os episódios verificados nos últimos dias devem causar também uma reflexão. Por exemplo, vi o artigo que o ministro [José Luís Carneiro] publicou hoje [segunda-feira] no Correio da Manhã e não identifica nada de novo. Tem de haver uma reflexão sobre os problemas perante estes alertas.

Portugal está em sexto lugar no último Global Peace Index, que avalia a segurança em cada Estado. Episódios como estes podem pôr em causa a imagem externa do país?
Penso que não. O impacto não será grande, porque não são crimes graves, como nos Estados Unidos, em que há tiroteios e homicídios com um grande número de vítimas. A questão aqui é que este tipo de problemas não se pode repetir. Agora, os relatos dos últimos dias? Duvido que sejam razão para afetar a imagem externa de Portugal.

Qual a imagem com que ficam as forças de segurança depois destes episódios? Pode acabar por sair prejudicada?
Felizmente, acho que não. A população tem ideia da importância e do impacto que as polícias têm. Penso que as pessoas sabem que não é uma questão de falta de pessoal mas sim uma questão de estrutura. Por exemplo, um dado que seria importante de ser conhecido prende-se com a quantidade de polícias que estão sujeitos a tarefas administrativas e não em operação. O Governo devia divulgar esses dados, porque devem ser conhecidos, na nossa perspetiva.

rui.godinho@dn.pt

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