Garcia Pereira não tem "grandes dúvidas" quanto à ação da Polícia de Segurança Pública (PSP), que levou à detenção de ativistas pelo clima em duas faculdades: "É uma coisa absolutamente inaceitável". O advogado diz ter "as maiores dúvidas em relação à legalidade. Muitos de nós andámos a bater-nos contra isto antes do 25 de Abril"..Em menos de uma semana, a PSP deteve ativistas pelo clima em duas faculdades. O primeiro caso aconteceu na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa na madrugada da passada terça-feira, onde se encontravam a pernoitar (a PSP foi chamada pela 1h15, já bem depois do fecho das instalações, que acontece às 23h00). No dia seguinte, a Polícia deteve três pessoas na Faculdade de Psicologia de Lisboa, durante uma palestra. Ouvido pelo DN, Garcia Pereira considera que "chamar a polícia a uma universidade porque não se concorda com uma ideia que está a ser exposta" parece-lhe "ilegal e profundamente antidemocrático". Com isto, o advogado - e um dos rostos das lutas estudantis durante a ditadura - tira uma conclusão: "Isto é mais grave do que durante o Estado Novo, porque estamos num Estado que se diz de direito democrático baseado na defesa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos"..Em conversa com o DN, Catarina Bio, porta-voz da Greve Climática de Lisboa (movimento a que pertenciam os ativistas detidos) explica que "no caso da Faculdade de Psicologia, as ativistas detidas estavam a dar uma palestra sobre ação climática e desobediência em movimentos históricos". Isto apesar de, nessa manhã, já terem sido alertadas pelo diretor da instituição que "comunicou que não queria qualquer tipo de manifestação ou conversa política". Neste caso, foi detida também uma terceira pessoa, estrangeira. Os motivos para esta detenção não são claros. De manhã, a PSP já tinha sido chamada à faculdade, por estar a acontecer "uma palestra sobre ciência climática". Há ainda a possibilidade de os ativistas contestarem judicialmente a conduta da Polícia..Fonte da PSP esclareceu ao DN que as intervenções em universidades só podem acontecer "após solicitação por escrito" dos diretores ou reitores. "A detenção [na Faculdade de Psicologia] ocorreu pelo facto de após os indivíduos terem sido advertidos para abandonarem o local por estarem a incorrer no crime de introdução em lugar vedado ao público.".Sobre o incidente de terça-feira na FCSH, a associação de estudantes (AEFCSH) emitiu um comunicado. Na nota divulgada nas redes sociais, a AEFCSH diz ser "inaceitável". "A situação confere especial preocupação em função do precedente que abre para o futuro, situação tanto mais grave quando já não é a primeira vez que, face a um momento de luta, a direção da faculdade ou a reitoria da universidade acionam um forte dispositivo policial", dizem os estudante, que recordam ainda outros momentos de intervenção policial, como a retirada de faixas ou cartazes..Na sequência de toda a polémica, o DN tentou contactar quer a FCSH como a Faculdade de Psicologia, mas sem obter resposta..Esta quinta-feira, a PSP voltou a ser chamada a intervir numa ação de ativistas climáticos na FCSH, devido à presença de uma comitiva do Chega..Há já, também, uma carta aberta do movimento Climáximo, feita em solidariedade com os ativistas detidos..Depois das detenções nas faculdades, o Bloco de Esquerda e o Livre enviaram questões ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e ao Ministério da Administração Interna, respetivamente..Num requerimento assinado pela deputada Joana Mortágua, os bloquistas enviaram quatro questões a Elvira Fortunato, ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. No texto, o BE questiona, entre outros assuntos, se o ministério "irá pedir esclarecimentos à Direção da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e à Direção da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa sobre o facto de terem chamado a Polícia de Segurança Pública para remover estudantes do seu espaço?"..Já o Livre questionou José Luís Carneiro sobre a proporção da intervenção policial. "As imagens exibem mais de uma dezena de agentes nas instalações e a detenção de três ativistas". "Do que se pode observar nas imagens fotografadas, filmadas e disponibilizadas pela comunicação social, existe uma manifesta desproporção nos meios utilizados e no tipo de força empregada, face ao que estava em causa: exercício pacífico do direito de opinião e de manifestação", defende Rui Tavares, porta-voz e deputado único do Livre..rui.godinho@dn.pt