Metadona tomada em Lisboa vigiada através da água dos esgotos

Seguiram o rasto da metadona consumida nas águas residuais da ETAR de Alcântara para saber se havia mercado paralelo

A metadona que é consumida em Lisboa corresponde ao que está previsto no programa de tratamento. Não há mercado paralelo deste fármaco utilizado no tratamento dos toxicodependentes de heroína e outros opióides. Estas conclusões foram extraídas de um estudo da Faculdade de Farmácia, pioneiro em Portugal, que foi analisar amostras de águas residuais da ETAR de Alcântara para ver a quantidade de metadona média ali contida.

O espaço de tempo em análise foram duas semanas, uma em 2015 (25 de março a 2 de abril) e outra em 2016 (12 a 18 de abril), num total de 14 amostras recolhidas, como contou ao DN o coordenador do estudo, professor Álvaro Lopes, da Faculdade de Farmácia. O universo da amostra foi de 500 toxicodependentes de 13 freguesias da Grande Lisboa que utilizam a Etar de Alcântar, incluindo Amadora e Oeiras (as outras são Areeiro, Avenidas Novas, Campolide, Belém, Ajuda, Alcântara, Benfica, S.Domingos de Benfica e Carnide).

Assim que foram recolhidas as amostras, os resultados chegaram em 72 horas. O estudo resultou da colaboração entre três organismos. O SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências), que enviou uma relação completa de todos os indivíduos em programas de substituição (nesses anos) com metadona na zona de Lisboa, Amadora e Oeiras. O Instituto Nacionalde Medicina Legal e Ciências Forenses, que fez o trabalho analítico. O cálculo farmacocinético e a expressão quantitativa foram da Faculdade de Farmácia de Lisboa.

"Nós sabíamos, freguesia a freguesia, o número de pessoas que estavam em tratamento e as doses que tomavam. O total de metadona que estas 500 pessoas mandam para a rede de esgoto são 30 gramas por dia", refere Álvaro Lopes. "Se pensarmos que chega à ETAR qualquer coisa como 270 milhões de litros de água , e nós conseguimos detetar ali as 30 gramas, significa que este método tem uma sensibilidade fantástica". O método, muito "CSI", é a espectometria de massa, explicou o professor que já foi, no passado, diretor do Laboratório de Polícia Científica . Permite identificar moléculas de interesse medindo a sua massa e caracterizando a sua estrutura física.

Depois deste trabalho, "a monitorização da metadona nas águas dos esgotos vai passar a ser feita todos os anos".O interesse por seguir o rasto deste fármaco de substituição surgiu por causa de um estudo sobre estupefacientes a nível europeu que é feito seguindo o método de analisar o que vai parar aos esgotos das principais cidades europeias durante uma semana do ano. "Todos os anos fazemos a análise do consumo de drogas de abuso através das amostras das águas residuais. Sobretudo, da heroína, anfetaminas, ecstasy, cocaína e cannabis. E monitorizamos 15 drogas em metabolitos diferentes", descreve o professor.

Conta Álvaro Lopes que o objetivo é "saber o que as pessoas consomem de estupefacientes nas grandes cidades, seguindo uma metodologia que dá resposta em 48 a 72 horas, enquanto um inquérito normal demoraria dois anos". O investigador da Faculdade de Farmácia e a sua equipa pretendem fazer estudos paralelos ao da rede europeia. "Já fizemos com o tabaco também mas há uma série de potencialidades que esta metodologia tem. Podemos saber como são os hábitos alimentares de uma cidade com este método".

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