Telemóvel na sala de aula? É possível e já há escolas que autorizam

Uso de smartphones em sala de aula está hoje em discussão, no Teatro Thalia, em Lisboa. Maioria das escolas não permite

Fazer pesquisas, consultar dicionários, realizar cálculos, fotografar powerpoints. Estas são algumas das atividades para as quais os alunos do Agrupamento de Escolas de Carcavelos podem usar o telemóvel dentro da sala de aula, mediante autorização do professor. Quem quebrar as regras, fica sujeito a um dia de suspensão. É assim há cinco anos. "Começámos a ter problemas, porque os telemóveis perturbavam as aulas. Era preciso fazer qualquer coisa. Decidimos então envolver os alunos na criação de um artigo no regulamento para a utilização destes equipamentos", recorda Adelino Calado, diretor do agrupamento, que hoje partilha a sua experiência no debate "Telemóvel na sala de aula: sim ou não?", promovido pelo projeto Edulog, da Fundação Belmiro de Azevedo.

Académicos, clínicos e especialistas no tema juntam-se para debater a utilização de smartphones na sala de aula. "Quase todos os adolescentes têm telemóvel. É uma realidade. Tem um potencial de utilização e de disrupção muito grande. Não se pode fingir que o problema não existe. Deve ser permitido ou proibido? Deve ser usado para questões de ensino?", questiona João Filipe Queiró, membro do conselho consultivo do Edulog.

Do lado dos "prós" estará Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agru-pamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), que considera que o telemóvel é mais "um instrumento de trabalho, tal como os manuais e os cadernos de atividades". "Mas o seu uso tem de ser mediado, implica regras." Por um lado, defende, "motiva mais os alunos e já se sabe que a motivação leva a mais sucesso nos resultados". Por outro, "não se pode proibir aquilo que a sociedade permite". Segundo o presidente da ANDAEP, "quase todas as escolas proíbem o uso de telemóvel na sala de aula", cabendo a decisão ao conselho pedagógico. Admite que fará mais sentido em algumas disciplinas do que noutras e não afasta o risco de os alunos acederem a aplicações de jogos ou redes sociais quando deviam fazer pesquisas. "É um risco que tem de ser assumido, mas as vantagens são maiores do que os inconvenientes", frisa.

Contra a utilização dos smart-phones neste contexto está Júlia Vinhas, coordenadora da unidade de Setúbal do CADin - Neurodesenvolvimento e Inclusão. "Apesar de já existirem há alguns anos, ainda não temos perfeita noção do impacto em termos de aprendizagens. Sabemos que pode aumentar até a criatividade, mas também faz diminuir a atenção e há um menor envolvimento do aluno durante o tempo letivo", refere.

Usar estes equipamentos como instrumentos de trabalho é, na opinião da psicóloga clínica, perigoso. "Pode perder-se a relação do professor com o aluno. Além disso, o telemóvel é um espaço de emoções, permite fugir da realidade. Há uma forte probabilidade de os alunos se distanciarem." E há ainda o risco de gravarem as aulas e usarem as gravações para agredir e magoar os outros - o cyberbullying. Consciente de que o caminho é no sentido da "liberalização", a psicóloga considera que ainda é prematuro fazê-lo. "Há professores que não sabem usar esta tecnologia. Introduzir sim, mas depois de perceber o impacto nas aprendizagens."

Menos infrações

"Se não os consegues combater, junta-te a eles." Foi nesta lógica que Adelino Calado decidiu autorizar os telemóveis na sala de aula. "Há estudos que dizem que pode ser prejudicial para as crianças, mas é uma das suas prendas favoritas. E os pais esquecem-se de as ensinar a usá-los", lamenta. É aí que entra a escola. "É fundamental que os professores aprendam as potencialidades desta tecnologia, os melhores sites, as melhores aplicações", refere o diretor do agrupamento.

Com esta medida, os alunos deixaram de ter de sair da sala de aula para fazer pesquisas ou consultar dicionários. Além disso, adianta Adelino Calado, "diminuiu muito o número de infrações por uso indevido [há quatro a cinco por ano], porque percebem o certo e o errado".

Ivone Patrão, psicóloga e autora do livro #Geração Cordão - A Geração que não Desliga, estará do lado dos "contras", mas, frisa, "é a favor do uso das tecnologias para a aprendizagem e desenvolvimento das crianças e jovens".

Contudo, discorda do "uso sem objetivos, sem interesse". Considera que o smartphone "não favorece a coesão da turma" e faz que os alunos não estejam "ali no momento". Diz que é inevitável que consultem aplicações. "Contudo, se os motivarmos para a tarefa que está a acontecer, vão fazê-lo menos." Os professores devem estar atentos a possíveis casos de dependência.

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