O dia em que o ministro ouviu Gabriel Roldão. Tarde demais

Durante anos, um investigador autodidata da Marinha Grande, antigo empresário dos plásticos, alertou os vários organismos públicos para a catástrofe iminente no Pinhal de Leiria

Gabriel Roldão, investigador, esperava o DN à porta de casa, em São Pedro de Moel. A entrevista estava marcada desde a véspera, a ideia era percorrer o Pinhal de Leiria - ou o pouco que resta dele, depois do incêndio de domingo. Mas uma justificação para o atraso do fotógrafo que entretanto acompanhava o ministro da Agricultura, numa visita à área ardida, fez saltar o investigador. "O ministro está cá? Na Câmara da Marinha? Vou já para lá! Vai ouvir tudo aquilo que nunca quis ouvir até hoje."

Não demorou mais de dez minutos o trajeto entre São Pedro e a Marinha Grande, 7 km que Gabriel Roldão ainda não tinha percorrido, desde domingo. "Isto está pior do que pensava... isto acaba comigo", vai desabafando o homem que em agosto, em entrevista à Lusa, alertava os responsáveis do país para a "tragédia que estava iminente", perante a falta de limpeza da mata nacional que atravessa aquele concelho: o Pinhal do Rei, como ali é conhecido, mandado plantar inicialmente por D. Afonso III (1248-1279) e mais tarde aumentado pelo rei D. Dinis. Uma extensão de mais de 11 mil hectares de pinheiro-bravo, na sua maioria, que domingo ardeu quase por completo. Estima-se em 86% a área ardida.

O fogo que começou na mata do vizinho concelho de Alcobaça causou danos "irreparáveis" aos olhos de Gabriel Roldão, que há vários anos alertava para uma catástrofe, sem que ninguém lhe tenha dado ouvidos. Agora, tem dificuldade em atender todos os pedidos de entrevista. O culminar de um longo percurso de denúncias e avisos está plasmado no Elucidário do Pinhal do Rei, publicado já este ano, um livro com mais de 700 páginas que traça o retrato daquele pulmão verde do país, agora transformado num triste manto de cinza e troncos carbonizados.

"Depois do fogo, vem outra catástrofe - a ecológica", alerta o antigo empresário dos plásticos enquanto subimos a escadaria da Câmara da Marinha Grande. Lá em cima está o ministro Capoulas Santos, reunido com os presidentes de Pombal, Leiria, Marinha Grande e Alcobaça, mais um conjunto de técnicos de vários organismos públicos.

Gabriel quer entrar, mas não pode. O chefe de gabinete do autarca da Marinha há de vir cá fora anunciar um encontro, para depois da reunião, com o ministro. Dará tempo para que conte ao DN boa parte das memórias que guarda do Pinhal. Vê-se pequeno, pela mão do pai e da mãe, a levantar-se de madrugada ao domingo e rumarem à mata, de motorizada, para passar o dia. "Para nós, na Marinha, é uma cultura que existe, uma ligação muito especial entre as pessoas e o Pinhal do Rei." Sempre existiu, aliás. Basta notar que o feriado municipal é no chamado Dia da Espiga, reservado a piqueniques na mata. "Não há um habitante do concelho que não esteja desgastado com isto. O pinhal era uma parte de nós. Nunca conheci nenhum marinhense que tivesse a coragem de largar um saco de lixo no pinhal."

Na cronologia que foi traçando, Gabriel Roldão destaca o final do século XX como fim de ciclo. Até então foi "tratado e devidamente explorado, com as regras estabelecidas pelo ordenamento do Pinhal de Leiria, de modo a que se fizesse uma instalação contínua". O Pinhal está dividido em mais de 340 talhões, cada um deles tem em média 32 hectares, de acordo com a divisão projetada em 1894. "Eram feitos cortes longitudinais e transversais, formando os chamados "grandes quintais", por sua vez semeados ano após ano, de modo a permitir que, após a chegada dos primeiros pinheiros à idade de corte (90 anos) se cortasse o pinheiro, voltasse a semear aquele espaço, e assim sucessivamente."

Gabriel Roldão estabelece uma relação direta entre "a entrada de Durão Barroso no governo e o momento em que começou a deteriorar-se a administração dos serviços florestais". Mas a verdade é que as oficinas de carpintaria, de mecânica, estaleiros de reparação das estradas, serração de madeiras, entre outros serviços, foram sendo paulatinamente encerrados. "Nessa altura [2001] estava projetado fazer-se a recuperação das casas da mata. Houve um concurso nacional, o prazo era muito curto, a câmara não se apercebeu, e eu mesmo fui ter com o presidente de então Álvaro Órfão para concorrer à aquisição das casas que foram dos guardas-florestais", conta Roldão.

Nessa altura já aposentado, ajudou a fazer os projetos, que deveriam ter sido entregues até 28 de fevereiro de 2001. Mas a 26 desse mês, dois dias antes, Durão Barroso revoga a portaria anterior. Os projetos nunca saíram da gaveta. As casas ficaram abandonadas, algumas arderam no incêndio de domingo. "Foi todo um descalabro que acabou com o Pinhal de Leiria. A direção dos serviços florestais foi descapitalizada. Deixou de funcionar o que existia: escola de guardas-florestais, escola de resinagem." A machadada final dá-se em 2008, quando os guardas-florestais são integrados na GNR, "uma organização militar onde estavam desenquadrados", sustenta Roldão, certo de que "a responsabilidade de vigilância e policiamento terminou aí. Até hoje nunca vi uma única brigada da GNR a policiar a mata. Os camiões das sucatas, carregados com 50 toneladas, destroem as estradas, depois anda a câmara a tapar os buracos".

A pouco mais de um mês de completar 82 anos, Gabriel Roldão perdeu a conta ao número de alertas feitos aos sucessivos governos, documentados com imagens do estado da mata que o resto do país julgava limpa, por se tratar de património do Estado. Tem de memória uma reunião em 2015, em Coimbra. "Aí percebi a pirâmide invertida: os que deviam ser a base estão na tutela, vestidos de fato e gravata, pastinha debaixo do braço. Nunca me ligaram nenhuma, sabe porquê? Porque eu não sou engenheiro", conclui. Nesse ano publicou 150 artigos em jornais regionais, nacionais e internacionais. As cartas continuaram a chegar aos gabinetes ministeriais, ao de Capoulas Santos também. Quando termina a reunião com os autarcas, o ministro vai ouvir Gabriel Roldão. E dá-lhe conta dos relatórios recebidos do ICNF, em que tudo parecia correr bem. Ledo engano.

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