Das explicações online à escola virtual. Assim se estuda no século XXI

Na semana passada foi lançada mais uma plataforma de apoio ao estudo das disciplinas de Português e de Matemática

A internet é cada vez mais uma aliada dos estudantes na hora de aprofundar conhecimentos, tirar dúvidas ou até comunicar com os professores. E quando se aproxima a época de exames as plataformas que ajudam a estudar assumem ainda maior importância.

Nuno Pereira, aluno do 11.º ano da Escola Secundária Homem Cristo (Aveiro), começou no ano passado a usar a Escola Virtual, plataforma de e-learning que disponibiliza conteúdos educativos em formato multimédia. "Uso sobretudo em casa, antes dos testes. Vejo as aulas gravadas, que ajudam a relembrar a matéria, e faço os testes, que são semelhantes aos dos professores", diz ao DN. Frisa ser uma forma "mais interessante" de estudar, mas que também há mais riscos de distração, com milhares de conteúdos e jogos à distância de um clique.

É impossível falar do percurso do ensino digital em Portugal sem falar da Escola Virtual, lançada em 2005, pela Porto Editora, e que conta já com 120 mil utilizadores do básico ao secundário. Desde então, surgiram no país várias plataformas digitais de apoio ao estudo, explicadores online e outras ferramentas digitais que servem de complemento aos manuais. A mais recente chama-se CiberEstudo e foi desenvolvida pela Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, a Associação de Professores de Matemática e a Fundação Vodafone. Apoia o estudo de Português e Matemática e dirige-se a alunos dos 4.º, 6.º e 9.º anos.

Neste momento, oferece mais de 2600 exercícios com dicas e explicações sobre resultados obtidos, bem como 72 exames e testes, por nove euros por ano. "Nada disto substitui o ensino tal e qual se faz, mas os alunos não aprendem só porque foram expostos aos conteúdos uma ou duas vezes. É preciso treino", destaca Ana Sousa Martins, coordenadora da plataforma. Uma das particularidades que servem de estímulo para os mais novos é o facto de "as perguntas surgirem como etapas de um jogo, com desafios, avatares, estrelas e modelos".

Ana Sousa Martins sublinha que "as novas tecnologias não são só uma nova maneira de apresentar as mesmas coisas. Têm benefícios concretos, tal como os livros". Para a investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, o "ensino tecnológico e o não tecnológico podem conviver pacificamente". Entre as vantagens do CiberEstudo, refere a possibilidade de o estudante submeter a resolução e, no mesmo momento, ter os resultados e uma explicação dos mesmos e de, caso do Português, ser possível treinar a oralidade.

Aprender com vídeos

Lançada em 2005, a Escola Virtual (EV) - que custa entre 40 e 95 euros por ano - é usada por 80 mil professores e 140 colégios. "Tem todos os recursos multimédia, quer em aulas interativas quer em materiais de apoio. E permite a integração dos manuais digitais", explica ao DN Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da Porto Editora. Dá aos estudantes o acesso a uma série de recursos, como vídeos e animações, que permitem "explorar, aprofundar e compreender a matéria". Na EV, os professores podem atribuir e avaliar tarefas e comunicar com os alunos, enquanto os encarregados de educação podem acompanhar o processo de autoaprendizagem.

Rui Pacheco, diretor do Centro Multimédia da Porto Editora, explica que a Escola Virtual "surgiu para suprir a necessidade de estudo autónomo". " Se os nossos utilizadores estão predominantemente na internet, é lá que também temos de estar", refere, acrescentando que "no contexto digital é possível fazer coisas que noutro contexto qualquer não eram possíveis". Contudo, indica, "há matérias que se prestam mais ao estudo pela vida digital, como a Biologia e a Física, porque são mais visuais".
No ano passado, a Porto Editora começou a lançar os primeiros manuais híbridos em Portugal. Ao apontar a câmara do smartphone para as páginas dos manuais, os estudantes podem visualizar vídeos, escutar áudios e aceder a outros recursos relacionados com o tema abordado. "Transformámos o telemóvel num recurso didático", afirma Paulo Gonçalves.

Já a Leya lançou em abril uma app gratuita - a 20 Smart - para apoiar o estudo através de vídeos, animações, áudios, imagens e quizzes com explicações. O objetivo é que aluno possa rever conteúdos, consolidar conhecimento e esclarecer dúvidas a qualquer hora, em qualquer sítio. Para o apoio ao estudo digital, a editora disponibiliza a plataforma 20 Aula Digital, em que os estudantes acedem aos manuais, recursos interativos e testes de avaliação com correção automática.

Explicações online

Há vários anos que os jovens deixaram de ser obrigados a sair de casa para ter explicações. Vítor Pereira, responsável pelo Explicamat, está no mercado das explicações online desde 2012, mas já produz vídeos para o YouTube desde 2009. Na plataforma digital, Vítor disponibiliza conteúdos grátis de Matemática para todos os anos de escolaridade. "Os alunos podem estudar a teoria e têm exercícios resolvidos em vídeo. O serviço está disponível quando querem. É mais cómodo", explica. Além disso, existem "pacotes premium" (pagos) para o 12.º ano, com resumos da matéria, exames-modelo e um serviço de previsões, feitas com base no que saiu nos últimos exames nacionais.

Bruno Araújo, 40 anos, experimentou o serviço no ano passado, quando resolveu tirar uma licenciatura de Contabilidade e Administração. "Olhar para o monitor, ver passo a passo como se resolve cada exercício, ajuda bastante", diz.

O aparecimento de cada vez mais explicadores online não terá impacto no negócio presencial. José Carlos Ramos, diretor de franchising da Explicolândia, considera que "para níveis de secundário e superior ou para um grupo muito restrito de alunos podem funcionar, mas para mais de 90% dos alunos não será uma opção". Isto porque, explica, o computador implica também distrações. Destacando que o digital não substitui o humano, sublinha que pode funcionar como "complemento". A empresa está, aliás, a estudar a criação de uma plataforma que permita que os estudantes façam na internet alguns dos trabalhos passados pelos explicadores.

Sara Vaz, explicadora de Português e Inglês do 3.º ciclo e secundário, considera que "a maioria dos alunos recorre às explicações porque precisa de um apoio personalizado", o que dificilmente se consegue na internet. "Pode ajudar a ter um trabalho mais autónomo, mas não substitui as explicações presenciais", frisa, acrescentando que alguns dos jovens que acompanha usam as plataformas digitais como complemento.

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