Criar um perfil falso na internet para me encontrar

"Os meus sentimentos não sexuais por Pamela eram apenas uma das coisas que faziam de mim um marginalizado. Outra, era eu preferir computadores a pessoas"

Há mais de uma década, quando eu era um rapazinho e vivia na Finlândia, o meu modelo de mulher atraente era Pamela Anderson, de Marés Vivas. Ela era a favorita do meu pai. Sempre que os meus colegas da escola me perguntavam quem é que eu pesquisava no Google quando os meus pais não estavam em casa, eu respondia: "Pamela", e o nome era recebido com um aceno unânime de cabeças.

Eu não ligava muito às fotografias em que aparecia nua, mas gostava que ela tivesse origens finlandesas.

Os meus sentimentos não sexuais por Pamela eram apenas uma das coisas que faziam de mim um marginalizado. Outra, era eu preferir computadores a pessoas. E assim, sendo uma criança que gostava de jogar jogos de tabuleiro, depressa descobri que poderia jogá-los online com estranhos, num site de jogos finlandês.

Para aceder ao site, teclávamos o nome de utilizador no campo em branco, esperávamos que a página abrisse e encontrávamo-nos na sala de conversação principal, onde se podia desafiar as pessoas para uma partida de blackjack, loto ou bilhar. Só que parecia que mais ninguém estava ali para jogar aqueles jogos seriamente. O ecrã era um fluxo constante de mensagens porcas.

Percebi que ninguém queria falar com um rapazinho adolescente, mas muitos pediam para conversar com uma mulher atraente. E foi aí que Pamela entrou. Para interessar os outros jogadores, eu precisava de me tornar uma mulher.

Usei a idade de Pamela e alguns dos traços que a definiam para criar a minha nova personalidade e entrei na sala de conversação como CharlottaDD35. Aí, as mensagens começaram a chover.

Aceitei um convite para jogar bilhar de Jarkko25. Surgiu uma nova janela e fomos escoltados para uma sala privada, onde apareceu uma pergunta dele na caixa de mensagens:

"Estás com uma disposição brincalhona?"

"Porquê?", teclei.

"É apertada?", perguntou ele.

Eu não percebia exatamente o que ele queria dizer, mas sabia que era porco.

Esperei um momento e depois escrevi:

"Sim."

"Boa", ele respondeu. "Idade?"

"35", escrevi. "Mas gosto de homens mais novos."

"Isso é excitante. Como é que tu és?"

Procurei rapidamente "Pamela + Anderson" no Google e descrevi o que me apareceu nos resultados da pesquisa: "1,79 m, loira. Gosto de usar saltos altos e vestidos justos."

"Umm. Tens seios grandes?"

"Sim."

"Copa D?"

"Sim." Eu estava determinado a dar-lhe tudo o que ele queria.

"De que tipo de homens é que gostas?" perguntou ele.

Pensando nos filmes de James Bond, respondi: "Alguém como Pierce Brosnan. Alguém que controla as coisas. Um homem elegante."

"Eu posso controlar as coisas, sem dúvida", disse ele.

Bebi um gole do meu refrigerante. "Abdominais definidos?", perguntei.

Tinha chegado o momento de eu ser exigente, caso contrário não pareceria real. Ter os abdominais definidos era uma coisa que eu tinha percebido ser desejável.

"Nem por isso", disse ele. "Mas eu posso ir ao ginásio."

Ri-me. Talvez aquele sujeito fosse simpático.

O que se seguiu foi a minha primeira sessão de cibersexo, com ele a escrever comentários sugestivos e eu a responder "Umm", o que parecia funcionar para ele.

A minha mascarada durou meses. Tornei--me um mestre em dar aos homens o que eles queriam. O número de homens interessados significava que eu podia ser exigente também. Eu queria um homem jovem, bonito e sexy. E uma vez que eu era uma mulher de tão alto calibre, não achava que fosse pedir de mais.

Adaptei a minha história para satisfazer os interesses dos outros participantes. Eu era casada e tinha dois filhos. Tinha um marido rico que não conseguia satisfazer-me sexualmente. Vivíamos numa enorme casa envidraçada com uma praia privativa, num dos subúrbios mais exclusivos de Helsínquia. E como eu era uma dona de casa entediada e solitária precisava sempre de alguém para me resolver os problemas.

Encontrei fotografias amadoras de mulheres nuas online para enviar aos homens e justificava quaisquer incongruências que surgissem: "A imagem não tem um rosto porque eu não quero que o meu marido descubra que tenho posto as minhas fotografias online", ou "eu nunca dou o meu número a estranhos até os conhecer suficientemente bem".

A história de vida que tinha inventado também me permitia uma fuga no caso de os meus pais chegarem a casa. "O meu marido acabou de entrar, por isso tenho de ir agora. Mal posso esperar para falar contigo outra vez", dizia eu.

Gostava desta sedução online muito mais do que tinha imaginado. Dizia a mim mesmo que era pelo perigo de ser apanhado, de enganar os homens, de infringir as regras. Fosse qual fosse a razão, fiquei viciado. Todos os dias, depois da escola, eu continuava a minha busca pelo homem perfeito.

Foi quando me deparei com Jussi. Ele descreveu-se como um homem de 23 anos que adorava o ginásio e tinha os abdominais bem definidos. Ele jogava hóquei no gelo e basquetebol, desportos masculinos nos quais eu sempre quis ser bom. Mas ele também era emotivo. Enviava-me mensagens do género: "Pareces ser uma mulher incrível" e "consigo sentir tanta ternura nas tuas mensagens".

Ele fazia-me as perguntas habituais: o que tens vestido? Onde é que gostas de o fazer? Como é que gostas?

Eu fornecia as minhas respostas habituais: não tinha nada vestido ("Acabei de sair do duche e gosto de secar o meu corpo naturalmente"). Eu gostava de o fazer em todas as superfícies da casa e particularmente em lugares públicos. Todo o yoga que já fiz tornou-me incrivelmente flexível, e adorava ser levantada e colocada em posições sexuais ousadas.

Mas depois ele começou a falar sobre o que esperava encontrar no site, a saber: um relacionamento que fosse verdadeiro e com significado. Eu concordei que também estava cansada de ir para a cama com este e com aquele. Normalmente bloqueava um homem quando ele começava a insistir em se encontrar pessoalmente, mas Jussi era paciente e doce. Eu queria continuar a falar com ele.

Iniciávamos a sessão ao mesmo tempo, dia após dia. Eu adaptei o horário aos meus dias de aulas dizendo: "Tenho de deixar as crianças primeiro, por isso amanhã só vou estar em casa às 15 horas." Ele fazia turnos como guarda de uma empresa de segurança, por isso estava sempre online quando eu precisava que ele estivesse.

Passadas algumas semanas, ele disse:

"Achas que já nos podemos encontrar? Por favor Charlotta." Ele disse-me que estava cansado de conversar e que se eu não dissesse que sim, ele não acreditaria que eu fosse uma pessoa real.

O que nós tínhamos era real para mim e eu não queria desapontá-lo. Por isso concordei.

Marcámos um encontro para as sete da tarde, daí a uma semana. Concordámos em encontrar-nos numa esquina no centro de Helsínquia, a poucos quarteirões de onde eu morava. Eu esperava que nos reconhecêssemos um ao outro simplesmente porque já conversávamos há tanto tempo e sentíamos uma ligação tão forte.

Porém, à medida que os dias passavam comecei a aperceber-me da impossibilidade daquilo acontecer. Mesmo que eu fosse encontrar-me com ele e conseguisse passar das explicações iniciais, nunca poderia ser aquilo que ele imaginava que eu era. E apercebi-me de outra coisa também: estava a começar a perceber que poderia ser gay e que por isso é que eu era diferente de todos os outros.

Às 19 horas do dia marcado a minha mãe pôs salsichas e batatas fritas na mesa para o jantar. Sentei-me em silêncio, respondendo às suas perguntas com um distraído sim ou não. Olhei para o relógio e apercebi-me de que Jussi estava agora à minha espera sozinho naquela noite fria.

Perguntei-me quanto tempo ele iria esperar: Vinte minutos? Trinta? Uma hora inteira? Sentar-se-ia num café próximo enquanto olhava melancolicamente pela janela, procurando o rosto de Charlotta entre a multidão que passava?

Imaginei-o sentado no autocarro, a caminho de sua casa nos subúrbios, na esperança de que tivesse havido uma confusão: eu tinha-me esquecido do dia ou tinha confundido a hora. Imaginei-o a iniciar a sessão na sala de conversação e a percorrer a lista à procura do meu nome de utilizador e a não o descobrir. Eu tinha-o bloqueado para ter a certeza de que não teria de ler mensagens penosas.

Duas horas depois do jantar, a minha mãe veio bater à porta do meu quarto para me dizer que era hora de dormir. Enquanto estava sozinho no escuro, senti a mesma solidão que Jussi devia estar a sentir.

Gostaria que tivesse havido uma maneira de eu lhe dizer o que a sua companhia online significou para mim: que ele tinha tornado possível que eu fosse eu mesmo num mundo de géneros bem definidos de Pamelas Andersons e James Bonds. Que ele me tinha ajudado a acreditar que eu era divertido, interessante e alguém com quem valia a pena falar. Que ele tinha tornado possível, apenas com a sua presença, que eu começasse a processar a minha sexualidade.

Ao fingir ser alguém que não era, eu tinha-lhe mostrado o meu verdadeiro eu, o qual, até então, tinha tido muito medo de revelar a qualquer outra pessoa. E por fim consegui abraçar esse verdadeiro eu, uma aceitação que me permitiria, anos mais tarde, como adulto e a viver em Nova Iorque, encontrar o verdadeiro amor como uma pessoa real.

Escritor finlandês que vive em Nova Iorque, concluiu recentemente um livro de memórias

Exclusivo DN/The New York Times

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