Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida

Carlos Manuel Batista Fiolhais nasceu a 12 de junho de 1956 na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, mas cedo partiu para Coimbra, onde estudou e se formou em Física, na Faculdade de Ciências, daquela cidade universitária. Por lá ficou, tornando-se num dos nomes mais conhecidos do país na divulgação da ciência, professor catedrático e ensaísta. Nesta segunda-feira (12 de julho), Carlos Fiolhais, aos 65 anos, despede-se do ensino com uma palestra, "História da Ciência na Universidade de Coimbra", pelas 14.30, mas não se despede do seu papel de cientista, ensaísta, e do país. O DN desafiou-o a escrever sobre si e sobre o futuro. O professor aceitou.

Vitorino Nemésio, o grande escritor que exibiu o seu deslumbramento com a ciência no seu último livro de poesia ("Limite de Idade"), afirmou, na sua "última lição" em 1971, proferida na Universidade de Lisboa: "Dou a minha última lição de professor na efectividade e em exercício, segundo a lei. Claro que a lei só tira o exercício ao funcionário: o homem exerce enquanto vive."

Também me pediram uma "última lição" para um público alargado, depois de ter dado aquela que, de facto, foi a última aula aos meus alunos de Mecânica Quântica II. Decidi falar, na minha "última lição", que será transmitida hoje em directo no site da Universidade de Coimbra, sobre a história da ciência em Coimbra, que é em boa parte a história da ciência no país. E não conseguirei dizer melhor do que o mestre universitário e comunicador de cultura açoriano, que começou por estudar em Coimbra para depois se formar em Lisboa. Também eu, à beira de cessar o exercício do funcionalismo público, me sinto em pleno exercício de vida. Após 44 anos a exercer a docência, a investigação e a extensão cultural na Universidade de Coimbra, só posso dizer que estou muito grato à instituição que servi. Se é certo que a minha Universidade me permitiu ser o que sou hoje, não é menos certo que procurei sempre que ela proporcionasse o exercício pleno de vida das levas sucessivas de estudantes e também dos cidadãos em geral. Foram anos que me permitiram um contacto enriquecedor com muitos alunos dos quais guardo boas recordações. Anos em que a investigação em Portugal conheceu um impulso tremendo, com contribuições, na minha e nas outras áreas, aqui como no mundo, dos poderosos instrumentos que são os computadores. E anos em que a instituição universitária, no cumprimento da sua missão, saltou, de forma decidida e irreversível, para fora dos seus muros.

Preocupei-me que a universidade fosse cada vez mais aberta. Ajudando nesse processo, durante mais de quatro décadas peregrinei por escolas básicas e secundárias, aceitei sempre que pude convites de instituições de todo o tipo - sociais, culturais, religiosas, etc. - e nunca deixei de aceder às inúmeras solicitações dos órgãos de comunicação social. Foi pelos jornais que aprendi a ler, soletrando os cabeçalhos (lembro-me em pequenino do grande DN), dinamizei os jornais do liceu e da faculdade e, desde cedo, dei o pulo para a imprensa extraescolar (aos 15 anos o professor de Moral convidou-me a mim e a um colega para dirigir um caderno do jornal "Correio de Coimbra"). Depois dos jornais, fui entrando noutros média, como a rádio, a televisão e a Internet, entretanto surgida. Ajudei nos anos de 1990 a ligar a Universidade à World Wide Web, criando as primeiras páginas. Quando, entre 2004 e 2011, tive o privilégio de dirigir a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a mais antiga biblioteca nacional, preocupei-me, não só em guardar bem os seus tesouros bibliográficos, mas também em torná-los acessíveis urbi et orbi (am.uc.pt). Em 2008, tive o gosto de fundar uma biblioteca, que se tornou um Centro Ciência Viva bastante peculiar a que dei o nome inspirador de Rómulo de Carvalho, o professor de Física e Química que como poeta se chamava António Gedeão: é hoje um centro de referência da cultura científica, para o qual várias pessoas têm generosamente contribuído oferecendo espólios (uc.pt/iii/romuloccv). Com outras vozes livres, tenho alimentado desde 2007 o blogue "De Rerum Natura", inspirado no famoso poema de Lucrécio (dererummundi.blogspot.com).

Como, em jovem, entrei para a ciência através dos livros de divulgação científica, em particular os de Rómulo de Carvalho (lembro-me bem da excitação que foi aperceber-me, no liceu, que a ciência é uma aventura), nos últimos 30 anos preocupei-me em escrever livros para os mais variados públicos: desde livros infantis até obras de divulgação erudita, passando por manuais escolares. Muitos tiveram coautores e é justo partilhar o mérito com eles. Tive a honra de poder escolher e editar livros na colecção "Ciência Aberta", da Gradiva, livros que ajudaram a mudar o país. E de convidar para vir a Portugal nomes notáveis da ciência mundial, com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Parafraseando Paulo Quintela, o ilustre germanista de Coimbra que foi colega e amigo de Nemésio, mais não fiz do que ser um "almocreve da cultura", alguém que leva e traz livros nos alforjes.

Sempre me interessou a cultura científica. Se a minha última lição é sobre a história da ciência é porque quero reafirmar que a ciência é a tentativa humana, ao longo do tempo, de descobrir o Universo do qual somos parte, a única parte, que saibamos, com consciência. Albert Einstein disse que "a coisa mais incompreensível no mundo é que ele seja compreensível". E outro físico, Erwin Schrödinger, um dos criadores da teoria quântica, disse que o leit motiv da ciência, de todos os ramos da ciência, é o imperativo inscrito no templo de Apolo em Delfos, na Grécia Antiga: "Conhece-te a ti mesmo." Quem somos nós? Que mundo é este em que vivemos? Que papel temos nós nele?

Creio que o nosso papel é o de conhecer o Universo e que o conhecimento alcançado, desejavelmente unificado, deve ser um bem universal. Tanto o que sabemos como os métodos que nos permitem saber devem ser património de toda a Humanidade. As ciências, sejam exactas, naturais ou sociais e humanas, são apenas uma parte do vasto conhecimento humano, pois há outra parte que vem das artes, da filosofia, da religião, etc. A ciência é parte da cultura, como bem perceberam Einstein e Schrödinger e, entre nós, Nemésio e Rómulo.

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. Gloso a canção de Sérgio Godinho, do álbum "Pano-cru" (1978), que ouvia nos primeiros dias da minha carreira: "E outra maré cheia virá da maré vaza./ Nasce um novo dia e no braço outra asa." A Universidade deve renovar-se, ganhando novas asas. É, para mim, a altura de dar a vez aos mais jovens, que os temos brilhantes e merecedores de oportunidades. Portugal só terá futuro se os jovens, em especial os novos doutores, tiverem futuro, se investirmos e confiarmos neles. Estou certo de que Portugal terá futuro, apesar das nuvens que nos toldam o horizonte. Pela minha parte, ultrapassado o "modo funcionário de viver", continuarei em exercício de vida, espalhando como até agora o que me foi dado saber. Mostrar que a ciência é parte da cultura, mostrar as suas relações com as artes e outros saberes, é tarefa contínua, à qual não vejo fim.

Agradecendo a todas as pessoas com quem tenho passado os dias, e esperando continuar a exercer a vida na sua companhia, faço minhas as palavras do poema "A Tempo" de Nemésio: "A tempo entrei no tempo,/ Sem tempo dele sairei:/ Homem moderno,/ Antigo serei./ Evito o inferno/ Contra tempo, eterno/ À paz que visei./ Com mais tempo/ Terei tempo:/ No fim dos tempos serei/ Como quem se salva a tempo./ E, entretanto, durei.

Professor de Física da Universidade de Coimbra

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