Sabiam que os sem-abrigo em Portugal aumentaram muito? Só em Lisboa há mais de 3000! E no país todo agora são mais de 10 mil". António Moreira já foi um deles, sem casa e sem teto, sem grandes razões para acreditar na vida. Mas esta manhã de um dia de dezembro, na reunião de moradores do projeto "Morada Certa - housing first" da Associação InPulsar, em Leiria, é o primeiro a desdizer o desencanto. Ele é um dos 15 sem-abrigo crónicos que nos últimos três anos ganharam uma casa. Não é um abrigo, nem um centro de emergência. É uma casa, com um projeto de vida integrado, e feito à medida de cada um..António foi um dos primeiros a ser identificado pelas equipas daquela Associação de Desenvolvimento Comunitário. Há muitos anos que era uma figura conhecida nas ruas de Leiria, onde chegou com apenas 27 anos. Tem agora 59. Natural de Penafiel, já nasceu numa família pobre e desestruturada. Acabou por ser entregue aos cuidados de uma madrinha, "que teve 21 filhos". De modo que, aos 14 anos, já António morava nas ruas. Mais tarde haveria de lhe ser diagnosticada esquizofrenia, que só nos últimos anos tem sido tratada. "Ele melhorou imenso. Vai ao hospital, recebe os tratamentos, está outra pessoa", conta Lisete Cordeiro, diretora-geral da InPulsar. Atravessa com o DN a cidade, até ao rés-do-chão do prédio onde agora mora António. Percebemos então que, para ele, ela é uma espécie de anjo da guarda. "Ui, já conhecia a menina Lisete há muitos anos, desde que ela estava no Académico" (uma outra associação de Leiria que chegou a ter projetos nesta área). E por isso também Lisete já os conhecia, a muitos deles. António vagueava entre Leiria, Fátima e Figueira da Foz. Depois de ficar viúvo, deixou Alcobaça, onde chegou a morar com a mulher a filha, e voltou para as ruas de Leiria. Quando foi identificado pelas equipas do programa Giros na Rua da InPulsar, "dormia debaixo do estádio". É viúvo, pai de três filhos (com quem não mantém contacto), e antes de ser integrado na Morada Certa já a Segurança Social lhe oferecera um quarto, em casas partilhadas. Mas António Moreira tinha dificuldade em co-habitar com a maior parte dos inquilinos, com um histórico de consumos. Preferiu ir ficando na rua. Certa vez mudou-se para Tomar, literalmente para baixo da ponte. Foi então que desfaleceu, acabando no hospital. Era um sem-abrigo estimado. Os bombeiros locais levaram-no para o quartel, durante uns dias..António Moreira nunca teve uma profissão, apenas foi fazendo trabalho avulso. A doença mental teve sempre implicações fortes na sua (já de si) debilitada vida. Mas alimenta ainda o sonho de trabalhar na rádio. Gosta sobretudo da Antena1, que ouve logo a partir das 5 da manhã, hora a que acorda, invariavelmente. Por isso terá sido dos primeiros ouvintes do país a receber a notícia da quarta-feira que antecedeu o Natal: em 2022 verificou-se um aumento de 19% de pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal Continental. O que já não pormenoriza é o resto da notícia, que justifica o aumento, em certa medida - os números são reportados pelos 273 concelhos que participaram na recolha de informação a 31 de Dezembro de 2021 e 31 de Dezembro de 2022, e isso aconteceu pela primeira vez. É muita gente sem casa e sem teto, seja lá como for..O T1 onde António Moreira nos recebe está arrumado ao pormenor. Conhece os vizinhos e eles conhecem-no. Não estranham vê-lo com pacotes de bolacha-Maria, café solúvel ou água. Acumula, compulsivamente. "Pode vir a guerra que nunca mais passo fome. Nem sede". Já no que respeita ao frio, está em pé de igualdade com tantos milhares no país, dentro de casa..Ao leme de uma equipa de 24 pessoas, Lisete Cordeiro coordena os vários projetos em curso na InPulsar. O Morada Certa - Leiria housing first é apenas um deles, mas tem feito muita diferença na cidade, contando com o apoio do Município, da Segurança Social e do grupo Lusiaves. "Esta é uma resposta inspirada no modelo americano Housing First que garante, além do acesso a uma habitação, um conjunto diversificado de serviços de suporte, nomeadamente a gestão e manutenção da casa, do dinheiro, todo o processo que envolve prestações sociais, a mediação nas relações familiares, de vizinhança e com a justiça; o acesso aos serviços de saúde e o desenvolvimento de projetos escolares: formação profissional ou de emprego, além de desenvolvimento de atividades na comunidade e de cidadania". Os participantes contribuem com 30% do seu rendimento mensal..Lisete Cordeiro acredita que, feitas as contas, sai muito mais barato ao Estado financiar projetos como este, quando comparados com outros, como os centros de abrigo. A verdade é que nem todos os sem-abrigo são "elegíveis" para o integrar. Mas em Leiria, este tem-se revelado um caso de sucesso. Além do programa Morada Certa, com 14 apartamentos, há ainda um outro projeto, com dois apartamentos partilhados. "Pensamos conseguir mais um, no próximo ano", acrescenta a diretora da InPulsar, que este ano viu o financiamento reduzido, e por isso tentou a sorte nos prémios BPI Solidário. E foi contemplada..Por toda a cidade de Leiria estão identificadas 24 pessoas em situação de sem-abrigo. São esses que recebem apoio desta associação três vezes por semana, através do programa Giros na Rua. A maioria são homens. Mas Lisete Cordeiro tem vindo a notar alterações nessa população: "Notamos que há muitos jovens, a maioria já foram institucionalizados desde crianças, e depois é uma espiral. O que notamos também é que a maioria tem consigo animais de estimação, o que dificulta a integração em centros de abrigo ou emergência". O mais velho de todos os sem-abrigo da cidade tem 80 anos. A InPulsar tenta todos os dias convencê-lo a integrar um programa como o Morada Certa, primeiro, para quando for necessário vir a integrar um Lar. "Mas é preciso querer, primeiro que tudo". Seja aos 80 ou aos 20..paula.sofia.luz@ext.dn.pt