"Guardem do meu coração algum tanto", pediu Daniel Sampaio

O Grande Auditório da Faculdade de Medicina de Lisboa foi pequeno para as centenas de pessoas que acorreram à última lição do professor

Os psiquiatras gostam de silêncio e foi sem palavras que começou a última lição de Daniel Sampaio, ontem na Faculdade de Medicina de Lisboa. Apenas o som de uma peça de piano de Shostakovich a acompanhar a um quadro de Marc Chagall na tela do palco. Com esta dupla mensagem, o professor evocava o dilema do compositor, "que viveu dividido entre a liberdade da sua criação e a obediência a um regime ditatorial".

O auditório encontrava-se cheio, com muitas pessoas em pé e outras sentadas nas escadas. Alunos, professores, médicos e amigos partilharam a lição que foi, afinal, o percurso biográfico e profissional de Sampaio, concluindo com críticas e propostas para o futuro.

Na fila da frente, estavam em destaque dois ex-presidentes da República - Ramalho Eanes e Jorge Sampaio - o secretário de Estado da Saúde, Fernando Araújo, o diretor-geral da Saúde, Francisco George, Isabel Mota, Correia de Campos, Maria de Belém Roseira, Manuel Alegre e Maria Luísa Guerra, a professora de Filosofia que aconselhou Daniel Sampaio a seguir "psicologia ou psiquiatria", e também a família mais próxima da numerosa "tribo", como lhe chamou o professor.

O Prelúdio em Lá Menor n.º 7 de Shostakovich acompanhou, por um minuto e 23 segundos, o quadro O Concerto que Chagall pintou em 1957. Antes, já o diretor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Fausto Pinto, tinha feito o elogio do professor, numa intervenção concisa que só dividiu a audiência quando referiu a preferência de Sampaio pelo Sporting. O catedrático agradeceu, em nome da escola, "por tudo o que fez na e pela nossa instituição". Depois da lição, o secretário de Estado da Saúde falou em nome do Governo, também ele elogiando e agradecendo a ação do professor e do profissional.

Em tom solto e fluido, Daniel Sampaio falou durante mais de uma hora, sintetizando o livro Última Lição. Falou da família e da "educação de caráter" que ali se praticava. Brincou com a touca de lã que usava na fotografia da avó Sarah com os três netos: "Ela previu o caminho que cada um de nós ia fazer. Disse que o meu irmão Jorge, que devem conhecer, ia ser político, o meu primo Filipe cientista, e de facto é um grande Físico, e sobre mim previu várias coisas, e acertou: a psiquiatria mistura os vários temas de que ela falou."

A lição foi ilustrada por fotografias, incluindo os grandes mestres: de Barahona Fernandes e Eduardo Luís Cortesão a João dos Santos e Pedro Polónio, toda uma lista de nomes essenciais da história da psiquiatria portuguesa. E uma foto histórica: Sampaio com José Gameiro e José Neves Cardoso, num congresso de terapia familiar em Florença. No regresso, decidiram criar a Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar. E outra: uma das centenas de sessões em escolas, no caso em S. João da Madeira, com tantos alunos que foi preciso fazê-la no exterior e com megafone.

Um tema agitou a sala, sobretudo os responsáveis pela saúde: as restrições da intervenção de um diretor de serviço (cargo que ocupou na Psiquiatria de Santa Maria), esmagado por sucessivos poderes hierárquicos. "Nem sequer se pode escolher a equipa de trabalho".

A grande proposta de Daniel Sampaio, com a qual terminou a lição, é um programa de intervenção nos comportamentos autolesivos na adolescência, referida na edição de ontem no DN, e que ele gostaria de ver adotada no plano nacional.

Depois de aplausos demorados, houve de novo música, cantada e tocada ao vivo pelo Coro e Orquestra Médica. Uma surpresa para o professor, com obras de José Afonso, Edward Elgar e Brahms.

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