Força das ondas está a aumentar e zonas costeiras estão em risco

Estudo publicado na Nature Communications detetou o aumento da energia das ondas em todo o mundo, especialmente no Oceano Atlântico Norte.
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A energia das ondas tem vindo a aumentar em todo o mundo, com o Atlântico Norte a experienciar o maior incremento de energia nas últimas quatro décadas. Esta foi uma das principais conclusões de um estudo publicado na revista científica Nature Communications.
Sismógrafos colocados em mais de 50 estações em todo o mundo, e que medem a atividade sísmica, mas que conseguem detetar o impacto da força das ondas no chão, registaram um aumento em todo o mundo. Esta força das ondas provoca pequenos sismos que não são sentidos ,nem ouvidos pelos humanos. As ondas mais poderosas foram registadas no Oceano Antártico, um mar tradicionalmente mais tempestuoso. No entanto, o Oceano Atlântico Norte registou o maior aumento de energia nas últimas quatro décadas. Em média, a energia das ondas no mundo aumentou 0,27% ao ano desde a década de1980, e desde 2000 que tem vindo a intensificar-se 0,35% por ano.

"O aumento da energia e/ou frequência de episódios de agitação marítima mais fortes conduz a maiores possibilidades de galgamento costeiro, de destruição de infraestruturas costeiras, de erosão costeira com eventual recuo da linha de costa em certos locais, de remobilização sedimentar próximo da linha de costa, com impactos para os ecossistemas marinhos costeiros e inundações de zonas costeiras, entre outros", explica fonte do o Instituto Hidrográfico, órgão da Marinha Portuguesa.

O Instituto Hidrográfico mantém uma observação permanente da agitação marítima ao largo da costa continental de Portugal desde oas Anos 80 do século XX, com as mais longas séries temporais de recolha a provir de boias ondógrafo colocadas ao largo de Leixões, Sines e Faro. Os dados deste instituto da Marinha revelam um aumento na altura significativa média mensal das ondas observadas em Leixões e Sines, áreas mais expostas à ondulação gerada nas regiões mais setentrionais do Atlântico Norte, enquanto que em Faro a tendência é negativa. "Esta costa está menos exposta à ondulação gerada nas regiões mais a norte do Atlântico Norte, o que poderá explicar esta tendência."

São as observações feitas pelo Instituto Hidrográfico que permitem caracterizar as condições de agitação marítima associadas às ondas que chegam à costa portuguesa a partir de áreas de geração remotas no Atlântico Norte, a ondulação (swell), quer às ondas geradas pelo vento local, chamados vaga (sea). "Elas permitem, também, perceber qual o impacto destas ondas em zonas costeiras com diferentes orientações e, portanto, com diferente exposição relativamente à direção de onde provém as ondas", explica a fonte do Instituto Hidrográfico.

O estudo da Nature Communications também concluiu que a energia das ondas aumenta durante períodos dos fenómenos do El Niño e La Niña, sendo que ambos afetam o Atlântico Norte, embora de forma diferente. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) explica que o El Niño consiste num fenómeno de aquecimento anómalo das águas superficiais do setor centro-leste do Oceano Pacífico, enquanto que o La Niña se trata do fenómeno oposto, em que há um arrefecimento anómalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Central e Oriental, e os ventos se tornam mais fortes e as águas mais frias.

"Em particular, os períodos de El Niño que se desenvolvem na zona tropical do Pacífico Leste parecem originar impactos robustos nestas condições e, desta forma, contribuir para um maior impacto nas condições de agitação marítima que afetam a costa portuguesa", descreve.

As alterações climáticas têm assumido um grande impacto na subida do nível do mar devido ao degelo de calotas polares continentais e à expansão térmica por causa do aquecimento das camadas superiores do oceano. "Esta subida tem sido observada em diversas regiões costeiras do planeta, em muitos casos de forma consistente, e põe diretamente em risco populações costeiras e ecossistemas marinhos costeiros."

O aumento da temperatura das camadas superficiais do oceano e a intensificação dos ventos que agem sobre a superfície do mar conduzem também à intensificação e aumento da frequência de eventos de agitação marítima extrema. Ou seja, a atividade das ondas vai continuar a intensificar-se enquanto as temperaturas continuarem a aumentar.

Além do impacto que o aumento da temperatura da superfície do oceano tem sobre as zonas costeiras, as ondas de calor no mar podem colocar em risco a sobrevivência de espécies marinhas, nomeadamente através da diminuição do oxigénio dissolvido na água.

Segundo fonte do Instituto Hidrográfico, é possível reverter este aumento da intensidade das ondas ao reduzir os fatores que para ele contribuem. "Reduzindo os fatores que contribuem para a intensificação dos mecanismos de geração da agitação marítima, em particular da agitação marítima extrema, podemos esperar a ocorrência de condições de agitação menos energética a incidir na costa portuguesa." O Instituto espera que este seja um dos impactos decorrentes da adoção de medidas, a nível mundial, capazes de reduzir a contribuição da atividade humana para as alterações climáticas.

O texto final da COP28, que aconteceu no início de dezembro no Dubai, reconhece a importância de proteger os oceanos, nomeadamente do restauro dos ecossistemas marinhos e das ações de mitigação e adaptação das condições nos mares.

sara.a.santos@dn.pt

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