As dificuldades de muitos cidadãos em avaliar a credibilidade da informação online, distinguir factos de opinião e compreender o funcionamento dos media digitais constituem uma vulnerabilidade estrutural para a democracia em Portugal. É o que defende a investigadora Ana Joaquim.No estudo When Citizens Cannot Read the Media: Challenges for Democracy (Quando os cidadãos não conseguem ler os media: desafios para a democracia, em tradução livre), sobre literacia mediática e resiliência democrática, a autora sustentou que a falta de competências críticas aumenta a exposição à desinformação. Outra consequência é que contribui para a polarização política e fragiliza a confiança nas instituições.“A iliteracia mediática não é apenas um problema individual. Trata-se de uma vulnerabilidade estrutural que afeta a qualidade do debate público e o funcionamento do sistema democrático”, afirmou à Lusa a investigadora da Universidade Nova de Lisboa Ana Joaquim. A investigação indicou que, embora os ambientes digitais tenham ampliado as oportunidades de participação cívica, essa participação tende a tornar-se mais reativa e emocional quando os cidadãos não dispõem de instrumentos para interpretar criticamente a informação.Segundo o estudo, baixos níveis de literacia mediática estão associados a formas de participação “episódicas e pouco ancoradas em normas deliberativas”, em que conteúdos polarizadores ou simplificados ganham maior visibilidade e impacto. Portugal apresenta resultados globalmente positivos em indicadores de educação e liberdade de imprensa, mas continua a revelar fragilidades na avaliação crítica da informação online.Para a autora, apesar de a maioria dos cidadãos reconhecer a importância das competências digitais, uma parte significativa admite dificuldades em identificar fontes fiáveis ou avaliar a credibilidade dos conteúdos. Ana Joaquim salientou que esta limitação contribui para um efeito de desconfiança generalizada. “Quando os cidadãos não conseguem distinguir entre jornalismo credível e conteúdos manipulados, a suspeita tende a estender-se a todas as fontes de informação”, referiu.O estudo alertou ainda para que as respostas ao fenómeno não podem assentar apenas em mecanismos de moderação de conteúdos ou em medidas regulatórias dirigidas às plataformas digitais. “Sem cidadãos capazes de compreender como a informação é produzida, selecionada e amplificada, as políticas de combate à desinformação acabam por tratar os sintomas e não as causas”, sustentou.A autora defendeu a integração da literacia mediática como componente central da educação democrática, ao longo de todo o ciclo de vida, envolvendo escolas, meios de comunicação social, instituições públicas e organizações da sociedade civil. Reforçar estas competências, concluiu, deve ser entendido como parte da própria infraestrutura democrática, ao nível da integridade eleitoral, da liberdade de imprensa e da transparência institucional..Desinformação sobre eleições presidenciais já soma mais de 7,7 milhões de visualizações.“Mesmo ações de desinformação digital sem sucesso podem ter impacto na integridade do processo eleitoral”