"Há interesses que veem oportunidades no aquecimento global"

Entrevista a Ricardo Serrão Santos, cientista e eurodeputado do PS

Esteve há dias em Paris, na COP 21. O que espera desta cimeira do clima?

Se não houver decisões para reverter o aquecimento global será dramático, por isso espero um acordo. Mas da decisão à concretização vai uma distância. Há interesses económicos que veem oportunidades no aquecimento global. Há quem aplauda o degelo porque abre espaço à navegação, ao comércio e à exploração de recursos. Há quem olhe a subida do nível do mar como oportunidade para projetos de engenharia de proteção costeira, que serão necessários como adaptação. Mas a questão central não é a adaptação, é a mitigação [redução de emissões], e vai ser preciso manter um controlo forte. O que aconteceu com a Volkswagen [os automóveis tinham um software adulterado para contabilizar emissões a menos] é representativo da comédia enganosa que vemos por aí.

Mas acredita que pode sair de Paris um um acordo vinculativo?

Penso que sim. Talvez tenha expressões diferentes conforme os países e as possibilidades de cada um, mas terá de ser acordado algo de substancial. Os governos dos principais poluidores estão conscientes da responsabilidade. Vão ser necessárias políticas de governação mais globais e mais eficientes, e uma fiscalização intensa. E é bom que haja um reforço das ONG do ambiente, que têm um papel importantíssimo.

Os oceanos estão no centro da questão climática. Como se pode minimizar os impactos nos seus ecossistemas?

Estão, mas infelizmente não com o devido reconhecimento político, até na própria COP 21. Enquanto sistemas que absorvem carbono e eventual espaço de sequestro de gases com efeito estufa, os oceanos têm sido cruciais para o apaziguamento dos efeitos das alterações climáticas a longo prazo. Ao mesmo tempo, são sensíveis e já há efeitos diretos nas temperaturas, ou na sua acidificação, com a destruição da produtividade primária. Os oceanos são o maior produtor de oxigénio do planeta. Por isso, é preciso agir. As empresas, mais do que dizer que reduzem as emissões, têm mesmo de o fazer, os Estados têm de as fiscalizar e regular com mão pesada, e o cidadão tem de fazer as escolhas certas. O mais difícil serão as resistências para mudar o sistema económico.

É um cientista do mar. Como foi esta mudança para o Parlamento Europeu?

É interessante. Sempre fui, e continuo a ser, cientista, mas sempre assumi que os cientistas têm de ter intervenção na política, porque as decisões políticas têm de ser baseadas no conhecimento, como na governação dos oceanos. Enquanto eurodeputado, tenho-me envolvido nesses dossiês mais técnicos, na interceção entre a política e a aplicação do conhecimento às diretivas relacionadas com o ambiente. Por exemplo, nos acordos de pesca internacionais e em todas as questões relacionadas com a biodiversidade e a governação dos oceanos.

Não tem saudades do mar, aqui em Bruxelas?

Vou regularmente aos Açores, pelo menos duas vezes por mês. Ainda há dias estive lá. Neste ano ainda não mergulhei, mas continuo com os meus estudantes de doutoramento. Não tenho saudades do mar.

E da ciência?

Também mantenho a atividade científica. Continuo a publicar e sou editor de duas revistas científicas, a Marine Biodiversity e a Frontiers in Marine Science, da qual sou chief editor para o mar profundo. Não há incompatibilidade entre a vida académica e a de deputado e os dossiês que acompanho, nos oceanos, na ecologia e na agricultura, têm aspetos técnicos que integram a perspetiva política e a científica.

Por falar de ciência, como avalia neste momento a ciência em Portugal, incluindo a do mar?

Houve um grande desinvestimento financeiro. Nos últimos quatro anos não se deu à ciência a relevância devida. E fala-se muito do regresso de Portugal ao mar e de soberania, mas as soberanias exercem-se, antes do mais, pelo conhecimento. É necessário fazer um investimento diferenciado na investigação marinha.

É preciso um programa específico para o mar?

É. Participei, aliás, na preparação do programa do Partido Socialista e isso está lá, a criação de um novo programa dinamizador das ciências e tecnologias do mar. Espero que haja condições para voltar a haver um programa desse tipo.

Quais deverão ser as linhas mestras desse programa?

Uma aposta num grande centro de estudos oceânicos em Portugal, nos Açores, com o reforço das capacidades humanas e de recursos já instalados, e uma interface disciplinar com as engenharias e as tecnologias, com sistemas de aquisição de dados. Precisamos da interface com a biotecnologia, com pequenas empresas instaladas, para podermos pensar em inovação nesta área, e investir num bom navio de investigação.

E como é que isso se estimula?

Sou um defensor do financiamento público para a ciência, a tecnologia e a inovação. Os grandes avanços, em todo o lado, fizeram-se assim e o mar profundo quase não tem financiamentos privados. Há aí uma diversidade bacteriana espantosa, com interesse para a biotecnologia, que precisa de ser testada e desenvolvida em laboratórios para novos medicamentos, cosmética ou alimentação. Estamos num contexto de corrida internacional. Basta ver as capacidades espantosas de investigação marinha dos franceses, dos noruegueses ou dos alemães.

Portugal apresentou na ONU a sua proposta de extensão da plataforma continental que quase duplica a superfície atual. Como vai ser possível fazer essa gestão?

A soberania, como dizia há pouco, só se exerce com conhecimento. Esse exercício de estender a plataforma era uma obrigação, estava previsto desde 1982. Portugal completou o trabalho, que foi bastante bem feito e o processo está em análise entre peritos. Quanto à soberania, se for só para dizer que isto é nosso, é pouco. Vai dar-nos mais responsabilidade no âmbito da proteção.

Em 2004 mergulhou com o realizador James Cameron. Como foi essa experiência?

Sim, quando ele fez um documentário sobre os ecossistemas hidrotermais. Nessa altura, o meu grupo (do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores) era o que mais publicava nesta área a nível nacional, e nalguns aspetos da biodiversidade éramos dos mais fortes a nível internacional. E nesse sentido fui convidado. Foi uma experiência excelente, e foi incrível ver como Hollywood tem capacidades financeiras que um cientista nem sonha. Eles tinham um navio russo à disposição, com dois submarinos que iam a seis mil metros de profundidade, e eu tive oportunidade de mergulhar num dos submarinos. Lá em baixo, parecia que estávamos num filme de ficção, nunca tinha mergulhado com o outro submarino a trabalhar também lá em baixo. E o navio parecia um estúdio de Hollywood.

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