"Custo é de 60 a 80 mil euros por ano, por doente"

Luís Costa, presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro, reconhece que o custo destes fármacos é elevado, mas fala numa revolução no tratamento do cancro

Quando é que a imunoterapia começou a ser estudada no tratamento do cancro?

Os primeiros resultados com estas opções surgiram a partir de 2010. São relativamente recentes. A imunoterapia já era estudada no tratamento do cancro, mas com uma taxa de sucesso muito inferior.
Quais os custos associados aos tratamentos de imunoterapia?

Não lhe posso dar valores exatos porque o INFARMED ainda não se pronunciou sobre a avaliação farmaco-económica destes fármacos. Os fármacos são pedidos em regime de autorização especial (AE) e os valores que têm sido discutidos com as administrações hospitalares aproximam-se de valores na ordem dos 60 000 a 80 000 euros por ano, por doente. São valores elevados.

Podemos falar em revolução no tratamento do cancro?

Podemos concluir que se deu uma revolução por três motivos. Em primeiro lugar, alguns cancros passaram a ter tratamentos de maior eficácia por vezes com respostas muito duradouras, e tratava-se de cancros muito resistentes aos tratamentos convencionais (por exemplo o melanoma e o cancro do pulmão). Em segundo, foi a prova de que é possível ativar eficazmente o sistema imunitário contra o cancro. Por fim, assumimos um conceito novo e que consiste em atuar no hospedeiro (aumentamos a resposta imunitária do doente) e não no tumor, sabendo que assim podemos ser mais eficazes contra a heterogeneidade tumoral.

É um tratamento complementar à quimioterapia?

Em alguns casos, já a substitui. Há dez anos, existia um agente de quimioterapia para o melanoma avançado, que foi suplantado pelo tratamento de imunoterapia. A quimioterapia já não é a primeira linha de tratamento para melanoma. Para outros tumores, por exemplo o cancro do pulmão, a imunoterapia foi aprovada para segunda linha após resistência à quimioterapia. Não temos indicação, por enquanto, para o pulmão em primeira linha.

O que é que os doentes ganham com esta terapêutica?

Taxas de resposta que não tinham. No melanoma, podem atingir taxas de resposta entre 40 a 50%. Nos doentes que responderam, entre 10 a 20% ficam com resposta durante anos. Estamos a falar de doenças que eram mortais. O sistema imunitário responde de forma contínua numa percentagem de doentes considerável, o que permite pensar em sobrevivências prolongadas para estes doentes. Há doentes que ao fim de quatro ou cinco anos estão em remissão. Estamos perante uma importante modificação de paradigma. Ganham tempo de vida.

Comparando com a quimioterapia, os efeitos secundários não são tão notórios?

Trata-se de um perfil de toxicidade diferente. A imunoterapia não provoca queda de cabelo como a quimioterapia, mas pode dar tanta ou mais diarreia. Não causa habitualmente náuseas e vómitos. É um tratamento diferente da quimioterapia. O princípio terapêutico é o de acordar o sistema imunitário e torná-lo capaz de reconhecer o tumor.

Quais os mecanismos de atuação?

Os tumores segregam uma substância - a PD-L1 - que atua em determinados recetores (PD-1) nos linfócitos, reprimindo essa células e provocando a sua morte, ou seja, o sistema imunitário torna-se incapaz de reconhecer o tumor. PD-1 significa programed death (morte programada). Com este tratamento, impedimos que estes recetores sejam ativados e os linfócitos mortos. São anticorpos que quando administrados aos doentes se ligam ao PD-L1 ou ao PD-1 e impedem este bloqueio dos linfócitos pelo PD-L1. Neste momento estão aprovados pela EMA o Nivolumab e o Pembrolizumab, ambos são anticorpos que reconhecem o recetor PD-1 impedindo a sua ativação, que podem ser usados em melanoma, pulmão e rim. Em breve, deverão ser aprovados também para o cancro da bexiga. Os anticorpos que se ligam à substância que é produzida pelos tumores, PD-L1, estão em investigação. É o caso do Atezolizumab.

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