O Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) defendeu que a recusa de treze militares em cumprir uma missão a bordo do navio Mondego, em março, foi uma exceção e assegurou que o incidente "já foi totalmente superado" na Marinha.."O Mondego é uma exceção. E não queria dizer muito mais sobre isso. Numa Marinha de sete mil militares, treze militares com determinado comportamento, que agora seguirá os seus parâmetros de avaliação, quer internos quer externos, com tudo o que a justiça tem, é uma exceção. E essa exceção aconteceu, não a escondemos, mas nós já superámos isso", considerou..Em entrevista à Lusa, a propósito dos dois anos de mandato, que se cumprem hoje, o CEMA foi questionado sobre a polémica de 11 de março, dia em que o NRP (Navio da República Portuguesa) Mondego falhou uma missão de acompanhamento de um navio russo a norte da ilha de Porto Santo, no arquipélago da Madeira, após quatro sargentos e nove praças se terem recusado a embarcar, alegando razões de segurança..Recusa de militares. Marinha falhou missão de acompanhamento de navio russo.O chefe militar destacou que a Marinha Portuguesa faz todos os dias "coisas extraordinárias" que acontecem "longe da vista das pessoas" e estimou que este ano a Armada já acompanhou navios russos que passam em águas portuguesas "mais de trinta vezes".."Tivemos que sair para o mar durante o ano para fazer esses seguimentos, para vigiar os nossos cabos submarinos, para garantir o salvamento de pessoas, salvamos no mar todos os anos mais de 400 pessoas. Nós participamos em operações no Golfo da Guiné, no combate ao narcotráfico, no combate à imigração ilegal, no salvamento também de muitos desses migrantes. A operação da Marinha diária é gigantesca. As pessoas depois fixaram-se num incidente, que teve a sua gravidade, não escondo isso, mas esse incidente internamente já foi totalmente superado", sublinhou..Interrogado sobre o ponto de situação do processo disciplinar instaurado pela Marinha aos treze militares - que são acusados de "desobediência a uma ordem" e de terem feito "sair determinado tipo de informação para uma associação militar"-, Henrique Gouveia e Melo respondeu que ainda estão em curso e rejeitou apressar este procedimento.."O processo tem uma evolução cronológica com um conjunto de peças e os advogados, fazendo o seu trabalho, em cada passo evolutivo tentam defender os seus constituintes, o que atrasa sempre o processo porque tem que se fazer um conjunto de diligências e cada passo obriga a fazer muitas diligências. E, portanto, ele não está a seguir à velocidade dos processos normais, mais simples, está a seguir à velocidade que a justiça assim o exige e deve ser assim", considerou..Além dos processos disciplinares, a Marinha participou o sucedido à Polícia Judiciária Militar (PJM), em Lisboa, no âmbito de inquérito criminal..Henrique Gouveia e Melo vai propor ao próximo executivo a compra de mais dois submarinos e referiu que quer modernizar duas fragatas no prazo de três anos e adquirir dois navios reabastecedores..O almirante antecipou as prioridades que a Marinha apresentará ao próximo Governo em 2024, ano em que será novamente discutido o sistema de forças..A compra de mais dois submarinos "daqui a seis anos" está nos planos de Gouveia e Melo, que argumenta que a área geográfica portuguesa "assim o exige".."Os submarinos, além disso, permitem observar o ambiente sem mexer com o ambiente, porque ninguém sabe que eles estão lá, e isso é uma função muito útil para o Estado, que pretende controlar o seu mar também de forma discreta e descobrir atividades que não consegue descobrir de outra forma porque não tem uma capacidade de superfície que consiga realmente ocupar um espaço tão grande", explicou Gouveia e Melo, submarinista..Estes dois novos submarinos, que o CEMA pretende de menor dimensão, juntar-se-iam ao Tridente e ao Arpão, os dois únicos submarinos de que a Marinha dispõe atualmente, o que coloca dificuldades quando um deles necessita de reparações..Quanto às fragatas, Gouveia e Melo assinalou que a atual Lei de Programação Militar já prevê verbas para a sua renovação e disse que pretende modernizar "mais duas no prazo de três anos"..Em breve será assinado o contrato para a aquisição de dois navios reabastecedores, que serão simultaneamente "navios logísticos de transporte", o que "poupa investimento mas dá mais capacidade" ao ramo, acrescentou..Gouveia e Melo destacou ainda a aquisição dos seis Navios Patrulha Oceânicos (NPO), cuja assinatura do contrato foi entretanto marcada para o dia 29..O CEMA disse que conta ter os patrulha oceânicos ao serviço da Marinha "em princípio em 2030, 2031", navios que terão uma capacidade de guerra anti submarina que os quatro já construídos não têm.."Estamos numa área crucial para os movimentos logísticos entre as Américas e a Europa e isso é crucial para o movimento logístico da NATO. Se nós portugueses, que temos os Açores, não participarmos ativamente na proteção dessas linhas de comunicação marítimas, sejam elas de dados, de transporte de carga ou de pessoas, de alguma forma estamos a diminuir o nosso valor estratégico dentro da própria coligação", argumentou..O primeiro dos seis navios, que chegará em 2026, tinha entrega inicialmente prevista para este ano, mas o processo atrasou-se depois de o Tribunal de Contas ter chumbado duas vezes o visto do contrato que o Ministério da Defesa pretendia celebrar com a IdD Portugal Defence -- a 'holding' estatal que gere as participações públicas nas empresas da Defesa - para a gestão do programa de aquisição..Ainda no início de 2024, a Marinha vai iniciar "o projeto de patrulhas de média dimensão" que vão substituir patrulhas mais envelhecidos e têm "um desenho muito próprio" concebido pela Armada..Gouveia e Melo defendeu que estes patrulhas "podem certamente ser vendidos no Golfo da Guiné e noutras regiões que precisam daquele tipo de navios para começar a construir uma Marinha", constituindo-se também como um "produto de exportação"..Questionado sobre a atual crise política e que consequências pode ter nos investimentos da Armada, o almirante respondeu que "a instabilidade afeta sempre de alguma forma, mas afeta de forma temporalmente curta" e que "o que é importante é a conceção de um país que é marítimo".."Estou convencido que todos os governos, mais à esquerda ou mais à direita, com pequenas nuances, percebem esta necessidade, portanto, estou muito convencido que a longo prazo a estratégia não será afetada", disse.