Cascais, Mafra e Sintra. A "área desconhecida" onde se estudou o mar em 12 dias

Expedição Oceano Azul juntou 50 investigadores e esteve ao largo de Cascais, Sintra e Mafra. O objetivo? Estudar e perceber melhor a vida marinha local.

Ainda o sol não nasceu e já o Santa Maria Manuela está acordado, com todos os tripulantes e passageiros a prepararem-se para mais um dia de expedição, que junta cerca de 50 investigadores a bordo do veleiro. Desta feita, no mar a norte da Ericeira.

Mas a viagem começa antes, às 4.45 horas, na marina de Cascais. A travessia até à Ericeira será feita numa traineira chamada Deus Me Acompanhe, tripulada pelo mestre, Rodrigo, e pelo pescador, Rui. O destino final é o antigo bacalhoeiro Santa Maria Manuela, onde se chega por volta das 6.00 horas, já depois de muitos enjoos provocados pela agitação marítima na travessia. A essa hora, começam a sair as equipas que vão utilizar os BRUVs (Baited Remoted Underwater Veichles) para estudarem a variedade e abundância de espécies marinhas na zona escolhida, neste caso a Montanha de Camões, uma formação rochosa subaquática com uma dimensão equivalente ao Pico, localizada a 22 quilómetros a oeste do Cabo da Roca. Do local onde as equipas embarcam no Deus Me Acompanhe e noutra traineira chamada Praia da Ribeira, que as vão levar até ao destino, são ainda duas horas de distância, mas o frio da noite, as fracas condições de visibilidade e um mar agitado não as demovem da viagem.

No quartel-general da expedição, o Santa Maria Manuela, prepararam-se depois os mergulhadores, que sairão já de dia para analisarem e fazerem uma observação mais direta da vida marinha ao largo da costa portuguesa, neste caso, um pouco a norte da Ericeira, mais afastados da linha costeira, a uma profundidade máxima de 20/25 metros. Para ir mais longe há depois um ROV (Remotely Operated Vehicle, um veículo subaquático operado de forma remota), com uma câmara que fará a recolha de imagens, também em ação neste caso, permitindo "cartografar valores naturais" nas áreas de interesse.

David Jacinto, investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Universidade de Évora, é um dos coordenadores da equipa de mergulho. Se o primeiro dia, mais a norte, foi duro, com pouca visibilidade, as incursões subaquáticas do segundo dia - mais a sul, entre o Cabo Raso e a Marina de Cascais - correram melhor.

Uma das áreas em estudo na expedição é a Montanha de Camões, uma formação rochosa subaquática com uma dimensão equivalente à Ilha do Pico, localizada a 22 quilómetros a oeste do Cabo da Roca.

"Fizemos mais mergulhos junto à marina, sobretudo porque o mar junto ao Cabo Raso não dava grande segurança. Já tínhamos estado aqui no início da expedição e decidimos fazer mergulhos mais profundos, fazendo sobretudo censos visuais de peixes, algas e invertebrados, sem grande amostragem destrutiva", explica ao DN. E, apesar do sítio não ser novo, houve possibilidade de novas descobertas: "Fomos a um recife de profundidade de sabellaria [um verme marinho], não deu para ver a potencialidade completa do local, mas está identificado até por ser um sítio onde pode haver presença até de pequenos tubarões, como patas-roxas ou outras espécies."

Se a equipa de David Jacinto faz maioritariamente um trabalho de observação e recolha de fotografias, a outra equipa de seis mergulhadores acaba por obter amostras de espécies com interesse, como algas, esponjas do mar ou pequenos corais. No final de cada dia, estas recolhas são depois separadas consoante as espécies e conservadas - umas em álcool, outras em sílica - para depois, no regresso a terra, terem o ADN sequenciado em laboratório, estudando assim a genética destes organismos.

Para não haver repetições de locais a explorar, há então que manter um mapeamento, com recurso a coordenadas GPS, de sítios onde os investigadores já estiveram [foto ao lado]. É esta a missão de Mariana Coxey, investigadora do ISPA - Instituto Universitário (outra das instituições envolvidas na expedição), que na messe dos oficiais, na parte de trás do veleiro, montou um data centre improvisado onde, em dois computadores, faz o registo de todos os locais visitados pelos investigadores que estão no terreno.

"Há sempre diferentes equipas na água, os BRUVs pelágicos [que funcionam a menor profundidade] e os bentónicos, que estão no fundo do mar, bem como os mergulhadores" e todas estas incursões são registadas. A meio da expedição, havia já um total de 91 amostragens recolhidas, segundo Mariana Coxey. Um número dentro das expectativas "e muito dentro do planeado" para essa fase.

"O que se pretende é poder fornecer depois um conjunto de indicadores e de pistas para um processo participativo, onde será recolhida informação adicional. O objetivo é proteger e valorizar."

"Já estava previsto que estes dias fossem de mau tempo", acrescenta, "então há um plano B e vai ser feito trabalho em pontos mais abrigados, como a costa da Guia [junto a Cascais] antes de haver oportunidade para as equipas irem diretamente a sítios já identificados, com cada um dos BRUVs a estar na Montanha de Camões mais uma vez para fechar uma malha com uma área razoável, de 150 quilómetros quadrados", explica a bióloga marinha.

Comunidade tem papel fundamental

Apesar da componente técnica da investigação, nada seria possível sem o auxílio da comunidade piscatória, que tem um papel fundamental em todo o processo. Além de levarem a bordo as equipas com as câmaras iscadas (e também membros da expedição focados na observação de aves), os pescadores levam ainda equipas para o Santa Maria Manuela e material que possa ser necessário para a realização das experiências.

E é também a comunidade a principal beneficiada com o resultado desta expedição: depois de analisados todos os parâmetros recolhidos, a ideia é fazer um relatório que compile informações sobre a vida vegetal e animal marinha junto aos municípios de Cascais, Sintra e Mafra (parceiros da expedição), podendo depois ser proposta a criação de uma Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário (AMPIC) - tidas pelo governo como "instrumentos fundamentais de conservação da biodiversidade marinha" - contígua a estes concelhos, estabelecendo assim um conjunto de boas práticas para preservar as condições de vida das espécies que ali vivem. Conforme explica Mariana Coxey, "todos os mergulhos são, inclusive, feitos na zona proposta para a criação da AMPIC". A ser criada, esta seria a segunda área do género em Portugal, depois de já ter sido proposta uma semelhante no Algarve, entre o Farol de Alfanzina (na praia do Carvoeiro) e a Marina de Albufeira, com 156 quilómetros quadrados de área.

Intenção é fazer mais estudos noutras áreas do país

Com o Santa Maria Manuela (e a expedição) fundeados ao largo de Cascais durante o fim de semana, os investigadores regressaram ao mar na segunda-feira, dois dias antes do final da expedição (que terminou na passada quarta-feira).

A comunidade piscatória teve um papel importante na expedição, ao transportar equipas, investigadores e material para o terreno, auxiliando com o embarque no Santa Maria Manuela.

No lançamento para a última semana, o coordenador científico da Fundação Oceano Azul, Emanuel Gonçalves assumia que, até então, "as principais componentes que se tinham pensado avaliar" estavam a corresponder às expectativas, até porque "esta área, aqui tão próxima da capital, ainda é relativamente desconhecida, com poucos estudos que mostrem toda a área, toda a riqueza que estas águas têm."

Por isso, "as diferentes tecnologias que foram trazidas para a expedição permitem ver como é que as diferentes espécies nestes territórios se distribuem. Este primeiro retrato vai permitir dar continuidade para estudos futuros" e acrescenta: "O que se pretende com uma expedição deste tipo é poder fornecer depois um conjunto de indicadores e de pistas para um processo participativo, onde será recolhida informação adicional. O objetivo é proteger e valorizar." E há intenções de alargar o raio de ação: "Esta é a segunda área deste género, que têm particular importância nos territórios junto à costa e acreditamos que este é um modelo muito interessante para ser replicado e transportado de forma estruturada e organizada para chegar a uma solução de consenso para melhor gerir e valorizar estas comunidades locais e naturais."

E, além disso, há ainda áreas nesta zona que podem vir a ser revisitadas pelos mergulhadores, como o caso da Montanha de Camões, assume David Jacinto. "Já é um local conhecido no sentido de se saber o que lá existe, com uma grande floresta de [algas] laminárias, é uma zona onde podemos regressar mas exige um certo tipo de exigência e de mergulho mais técnico, com outro tipo de gases, porque o tempo é mais limitado", conclui o investigador.

O DN viajou a convite da Fundação Oceano Azul.

rui.godinho@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG