O cancro continua a ser a principal causa de morte dos cidadãos da União Europeia (UE) com menos de 75 anos, e a segunda causa de morte quando considerados todos os cidadãos da UE . Quanto a isto, parece não haver dúvidas. Os dados confirmam-no, mas passo a passo, e no caso de Portugal, começam a existir “pontos fortes”, ou melhor pontos positivos - como revela o último relatório da Direção-Geral da Saúde (DGS) no âmbito do 'Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, Desafios Estratégias' que integra a análise dos dados referentes a 2023, e que é divulgado nesta quarta-feira, dia 4, para assinalar o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro.Aliás, é a nova coordenadora do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (PNDO), Isabel Fernandes, que assinala ao DN o que considera serem os “pontos fortes”. Por exemplo, “a mortalidade padronizada por tumores malignos, que continua a diminuir, embora se tenha verificado um ligeiro aumento do número absoluto de óbitos, que consideramos estar associado ao envelhecimento da população”. Mas não só. Há ainda a destacar o facto de Portugal ter conseguido aumentar a sobrevivência a cinco anos após o diagnóstico de doença oncológica. “Um resultado que está acima da média europeia, nomeadamente no cancro da próstata (96%) e no cancro da mama (90%), os quais correspondem aos cancros mais incidentes nos homens e nas mulheres, respetivamente, o que é muito bom”, sublinha a médica - segundo o relatório, 240 óbitos por 100.000 habitantes, face a aproximadamente 250 óbitos por 100.000 habitantes na UE. Por outro lado, e como destaca também Isabel Fernandes, “houve um aumento no número de cirurgias oncológicas a doentes com neoplasias malignas, com mais cerca de 10.000 doentes operados em 2024 face a 2023. A percentagem de doentes operados acima do tempo máximo de resposta garantido também reduziu de 26,4% em 2023 para 25,8% em 2024”. E, em relação a tratamentos, também “tivemos um aumento de cerca de 10% no número de doentes tratados com radioterapia, quimioterapia/imunoterapia e um aumento dos que estão a ter acesso a tratamentos inovadores, como o de células CAR-T”.Ao DN, a médica concorda que os resultados alcançados “espelham o que tem sido feito na área da oncologia”, mas reconhece que os resultados referentes a 2023 analisados, "ainda podem ter algum efeito da pandemia de covid-19”, explicando: “Em termos de diagnóstico não quer dizer que não tenha havido algum impacto, mas em termos de mortalidade, o que verificámos é que parece não ter havido impacto, mas há dados que têm de ser estudados para verificarmos se são uma tendência que se irá manter ou não.”Depois dos “pontos fortes”, que Isabel Fernandes diz estarem “a conduzir o país para os objetivos definidos na estratégia da União Europeia até 2030”, não esquece as preocupações sentidas no terreno e identificadas neste documento no que toca ao acesso aos cuidados, desigualdades geográficas, ou no que toca a um caso muito particular: “O aumento na incidência e na mortalidade no cancro do colo do útero”. Segundo explica, “é um aumento ligeiro e temos de esperar, pelo menos, mais um ano para percebermos quais as causas, mas não nos podemos esquecer de que temos agora muitas mulheres migrantes, oriundas de países não-vacinados e que este aumento pode ter a ver com isso, porque, por outro lado, temos bons indicadores de sobrevivência”.. Mortalidade abaixo dos 75 anos também diminuiO relatório divulgado pela DGS nesta quarta-feira demonstra uma tendência decrescente da taxa de mortalidade por cancro em Portugal nos últimos cinco anos (até 2023). “A taxa padronizada manteve a tendência de descida, com uma diminuição acentuada entre 2020 e 2023. No mesmo período temporal, verifica-se uma diminuição da mortalidade prematura, abaixo dos 75 anos, sendo mais acentuada no sexo masculino do que no sexo feminino”, lê-se no documento. Uma tendência de descida que, no fundo, se “enquadra na tendência observada internacionalmente que é consistente com a combinação de vários determinantes estruturais e assistenciais”. A saber: “Ganhos na prevenção primária, com destaque para a redução do consumo de tabaco e para políticas de controlo de fatores de risco; expansão de programas organizados de rastreio (nomeadamente cancro da mama, colorretal e do colo do útero), associados a diagnóstico em estádios mais precoces; progressos sustentados nos tratamentos oncológicos, incluindo melhorias na cirurgia, radioterapia, terapêuticas sistémicas e na organização multidisciplinar dos cuidados; e o impacto crescente de intervenções de saúde pública dirigidas a infeções oncogénicas, como a vacinação contra o HPV.” Ou seja, em jeito de conclusão e como é referido no relatório, todos “estes fatores têm contribuído para reduzir o risco de morte por cancro em vários grupos etários”, apesar de ainda persistirem “desigualdades no acesso, na cobertura de rastreios e na exposição a fatores de risco que condicionam a magnitude e a velocidade desta redução”.Os tumores mais frequentes são: mama, próstata e cólonEm relação à incidência de doenças oncológicas, o documento agora publicado indica que, no período de 2017 a 2019, houve um aumento da taxa de incidência e que, em 2022, também: 0,4% no número de novos casos registados. Mas que a nível da taxa de incidência padronizada, houve uma redução em relação a 2021, tanto nos homens como nas mulheres. . Em relação ao tipo de tumor, os dados relativos a 2023 revelam que o cancro da próstata continua a ser “o mais frequente nos homens, com 7345 diagnósticos, seguido do cancro do pulmão, com 3777, e o cancro do cólon e reto, com 3195 novos casos”. Nas mulheres, 33,3% dos tumores foram de cancro da mama (9017 novos casos), seguindo-se o cancro do cólon, com 2395, e da pele, com 2067 novos casos. No geral, o documento identifica os tumores da mama, próstata e cólon como os mais frequentes na população portuguesa, sublinhando que os homens registaram mais novos casos “um rácio de 1,18 (118 novos casos nos homens por cada 100 novos casos em mulheres)”. Em relação às faixas etárias, “a maior parte dos novos casos (40,7%) são diagnosticados entre os 60 e os 74 anos”.No que respeita à sobrevivência, Portugal regista dados positivos nalgumas patologias, como no cancro da mama e da próstata, e de uma forma geral na área da oncologia, mas ainda há diferenças entre homens e mulheres e regionais. Os indicadores recolhidos e analisados no documento revelam “ganhos aparentes” na sobrevivência de doentes após cinco anos de diagnóstico, o que pode ser reflexo de “diagnóstico mais precoce ou sobrediagnóstico”. Porém, “a sobrevivência para todos os cancros, nos homens é significativamente inferior à das mulheres”.. Cuidados hospitalares e medicamentos Como é referido no relatório, e destacado por Isabel Fernandes, os cuidados hospitalares aos doentes também aumentaram, já que foram realizadas mais cirurgias a doentes com neoplasias malignas face aos anos anteriores e, em relação aos internamentos, os dados de 2023 também revelam que na globalidade das unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS) houve quase um milhão de doentes internados - 822.255 episódios de internamento, dos quais 70.347 (8,6%) correspondem a utentes com diagnóstico principal de neoplasia maligna, uma tendência que se tem mantido nos últimos cinco anos.Na área dos medicamentos, o relatório também regista “pontos fortes”, salienta Isabel Fernandes, não só porque houve mais doentes a serem tratados com radioterapia, quimioterapia/imunoterapia, como também houve um aumento dos doentes a serem tratados com medicamentos inovadores, como as células CAR-T. Mas isto também faz com que, ano a ano, se registe “um aumento do consumo total de medicamentos oncológicos nos hospitais do SNS, transversal aos três principais subgrupos: citotóxicos, hormonas e anti-hormonase imunomoduladores”. Segundo o relatório, nos últimos cinco anos, nos hospitais do SNS, houve um aumento de 25% na quantidade de medicamentos utilizados e 74% dos custos (+6,2 milhões de embalagens e +317 milhões de euros).Rastreios: cancro da mama cumpre metas, os outros não Portugal dispõe de três rastreios oncológicos de base populacional para o cancro da mama, do colo do útero e do cólon e reto. De acordo com outro relatório sobre esta matéria, divulgado também neste dia, o rastreio do cancro da mama já tem “uma cobertura geográfica de 100% das Unidades Funcionais de Portugal”, mantendo, em 2024, “o cumprimento da meta prevista pelo European Beating Cancer Plan (90% da população elegível anual convidada), com 91% da população convidada, mas a taxa de adesão foi de 50%, com um total de mulheres rastreadas de 440.190 (412.546 rastreadas no Continente, 12.161 na RA Açores e 15.483 na RA Madeira).Em relação ao Rastreio do Cancro do Colo do Útero (RCCU), que também está implementado “em 100% nas unidades de cuidados de saúde primários”, a taxa de cobertura populacional ainda é de 61%, embora a de adesão seja de 94%, com um total de 344.405 mulheres rastreadas. Destas, 43.968 tiveram teste de HPV positivo e 20.373 (5,9%) foram referenciadas para cuidados hospitalares.O Rastreio do Cancro do Cólon e Reto (RCCR) está implementado em todas as regiões de saúde, mas só em 89% no território nacional. O relatório revela que no ano de 2024, 32,5% da população elegível foi convidada a realizá-lo, mas a adesão ficou nos 49,5% - ao todo foram rastreados 268.710 utentes (247.292 no continente, 10.166 RAA e 11. 252 na RAM). Dos utentes rastreados: 14.004 tiveram teste PSOF Positivo; 4094 efetuaram colonoscopia; 2230 com lesões positivas identificadas por colonoscopia; 0,8% foram referenciados para o hospital para diagnóstico/tratamento/seguimento.A coordenadora do PNDO assume que, ano a ano, há sempre uma preocupação que permanece, “a das determinantes do cancro - ou seja, a da prevenção, porque se apostarmos nesta também conseguiremos reduzir a incidência e os custos na oncologia”. Mas há outras, assume: “Como o acompanhamento dos sobreviventes do cancro, que, às vezes, ficam com sequelas - e estamos a lutar para que possam ser mais apoiados” -, “o cancro pediátrico” e “o cancro hereditário”.A boa notícia é que, como diz, “estamos a trabalhar para implementar medidas que melhorem a qualidade de vida e o acesso aos doentes oncológicos”, tendo em vista a “diminuição das desigualdades regionais, que penso que está a ser possível com o trabalho das Unidades Locais de Saúde para colmatar algumas falhas localmente”. .Rastreio do cancro da mama atingiu meta europeia até 2030, 90% da população-alvo