Sanção da nação. Há um fosso que separa de vez maioria e oposição

Mais de quatro horas revelaram que é cada vez mais é impossível o entendimento entre a direita e a esquerda. Nos partidos da maioria, é a forma de estar na UE que mais os divide

No autocarro havia miúdos que iam de toalha para a praia a falar do salto de Cristiano Ronaldo, tuk-tuks que passavam com a bandeira nacional, cachecóis da seleção que desafiavam o calor de trópicos nos pescoços. Sem ponta de sobressalto era este o estado da nação perto da hora em que Bruxelas abria a porta a castigar Portugal por ter ultrapassado o défice em 2015 e do estado da sanção que se traduziu em mais de quatro horas de trabalhos parlamentares no primeiro debate do Estado da Nação da nova maioria parlamentar.

Na Assembleia da República só o calor da temperatura e de momentos de debate pareceu ter correspondência ao que lá se fora se vivia. É também o estado das coisas na atualidade política: há um fosso imenso que se abre, a cada dia que passa, entre a maioria parlamentar que sustenta o governo socialista e a direita, aquela que esteve no poder até novembro de 2015. "O PS saltou o muro para o lado de lá", concordou o social-democrata Luís Montenegro. "Este debate permitiu o separar de águas", alimentou o socialista Pedro Delgado Alves. São dois países separados: um que só vê "desgraças" desde que o XXI Governo Constitucional tomou posse; outro que diz que anda a reverter as desgraças anteriores de quatro anos.

Afinal, como se mede quem melhor defende o país lá fora? Já no fecho do debate, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, deu a resposta, ao sublinhar que não há ganhos a retirar de quem procure capitalizar politicamente com sanções que vierem a ser aplicadas a Portugal. "A liderança do PSD está enganada se julga que vai ganhar com isso um grão a mais de credibilidade" com a estratégia. As eventuais sanções são sobre o exercício orçamental de 2015, constatou António Costa. À direita, insistiu-se em bater na tecla que a "falta de credibilidade" das políticas de reversão que a esquerda "impôs" é que deitou tudo a perder. Pedro Delgado Alves concordou que "malogradamente" a maioria atual fez tudo de que PSD e CDS os acusavam: repondo rendimentos, pensões, feriados. "Em sete meses, fizeram-se reversões sim, é verdade", porque "eram más políticas as políticas anteriores".

Passos Coelho não desarmou: pegou nos números do défice e quis justificar a quota que lhe cabe, para também puxar o governo de Costa à responsabilidade no mês de 2015 que lhe coube governar. Não sem a farpa de que o governo fez tudo mal.

Costa cortou-lhe o caminho - não apenas com a maioria de esquerda que encontrou no Parlamento, retirando poder ao PSD e CDS, como também na análise às eventuais sanções. E com uma surpresa ensaiada pelo primeiro-ministro. "Depois de durante os últimos dias ter ouvido tantos dirigentes do PSD tão apoquentados em saber se o que estava em causa era a execução de 2016 ou a execução de 2015, vejo que não foi preciso mais do que o comunicado para perceber que a única coisa que estava em causa era a execução do seu orçamento em 2015."

Também a presidente do CDS, Assunção Cristas, alinhou no discurso de que o governo aceitou "acriticamente" o défice de 2015 em 3,2%, como revelou a carta dirigida pelo primeiro-ministro ao presidente da Comissão Europeia, para notar que Costa "não mexeu uma palha" para alterar esse valor. "Dava muito trabalho ter sentido de Estado e entender que mais valia defender do que querer criar um ónus para o anterior governo", apontou a líder centrista.

O tom foi crispado, houve pateadas, sobretudo quando Carlos César acusou o PSD de estar no "ponto zero do orgulho de ser português". Antes acusou a bancada laranja de, "para tramar o governo, não se importar de atrapalhar o próprio país". Catarina Martins constataria, perante nova dose de pateadas, que "a ideia que fica é que neste campeonato a direita está a torcer pela Alemanha desde o primeiro dia".

A abertura do processo de sanções foi anunciado à hora a que se iniciava o debate em São Bento. A bloquista notou-o na pergunta que dirigiu ao primeiro-ministro, afirmando que era uma forma de "humilhação que querem infligir ao país". Mais tarde, a porta-voz do BE não deixou cair a proposta que isolou os bloquistas: a do referendo. Catarina Martins quer uma consulta popular para "impedir o Tratado Orçamental, o tratado das sanções", e "construir uma Europa que saiba que a solidariedade não rima com humilhação".

Jerónimo de Sousa também pediu uma luta contra as sanções, mas com outras armas. O PCP quer uma cimeira intergovernamental "visando a consagração institucional da reversibilidade dos tratados" da União Europeia e a "suspensão imediata e revogação do Tratado Orçamental".

É por aqui, já se sabe, pela forma como se está na União Europeia, que os partidos da maioria parlamentar mais se dividem. Jerónimo disse que as "ameaças de sanções" visam "criar dificuldades adicionais à recuperação do país, reverter as medidas positivas tomadas, impedir qualquer solução política que não tenha sido por si avalizada". Os próximos meses serão de calor. E de Orçamento do Estado para a geringonça desmentir ou não os arautos das desgraças da anterior maioria.

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