O político "de bom conselho" que sabe rir de si próprio e nunca deixou de ir ao supermercado

Inscreveu-se no PS aos 17 e saiu aos 18, em pleno Verão Quente, para a esquerda. Havia de voltar e não mais sair, mesmo se desde 1997 diz não a todos os apelos do partido para se candidatar a PM ou PR. Para ele, doravante, só a advocacia dos negócios - "ganhar dinheiro não é pecado", diz - e os altos voos internacionais. Foi comissário europeu e terá sonhado suceder a Prodi, mas Durão atravessou-se. Foi agora, aos 61 anos, eleito diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações. Mas quem é?

É interessante googlar António Vitorino. Há muita coisa, é verdade - é normal, anda na vida pública pelo menos desde os 23, quando entra na Assembleia da República como deputado - mas muita coisa sobre, precisamente, atividade pública, política, negócios, advocacia, cargos internacionais, opiniões. Sobre António Manuel de Carvalho Ferreira Vitorino, nascido a 12 de janeiro de 1957 em Lisboa, quem é - no sentido um pouco mais íntimo, mais profundo, mais, digamos, emocional e interessante, pouco. Guarda-se bem, ou a internet esqueceu o que disse de si, se alguma vez.

"Eu sou aquilo que fiz", respondeu ao Negócios numa entrevista de 2011 em que lhe fazem a mesma observação, sobre a ausência de informação pessoal, de biografia. Mesmo assim, concede gostar de Woody Allen, ser fiel a Philip Roth - dois americanos, dois judeus, dois universos de uma sofisticada amargura - e hipocondríaco. E nunca ter deixado de ir ao supermercado, "mesmo quando era ministro e comissário em Bruxelas". Falou da sua paixão pela linguagem e a língua, de ser "um linguista frustrado", e da mãe, professora de francês, e de como ela costumava contar às refeições os filmes que via com o pai, bancário. De ter desde os 10 anos passado férias com os pais e o irmão no estrangeiro - Espanha, Sul de França, Norte de Itália - sempre acampando: "Fazíamos 600 km por dia e era eu que montava a tenda." Contou que viviam numa "casa social" no bairro de Alvalade e só tiveram TV quando fez 10 anos. Que é casado com uma ginecologista de primeiro nome Beatriz (é a sua segunda mulher) e que de Macau, em cujo governo foi secretário de Estado em 1986/87, veio com um filho de ano e meio (do primeiro casamento) que só falava cantonês. Ri disso. Ficamos também a saber que ri muito, porque muitas das perguntas têm riso algures, piadas, remoques, ironias. E que sabe manter a distância, uma distância atenta, amável, mas cuidadosa, medida, às vezes subtilmente zombeteira. Há aliás no sorriso que tantas vezes lhe divisamos em fotos e na TV, um sorriso que parece quase uma distração num homem que deve saber fazer poker face, uma espécie de inconsciente insolência - a insolência de quem sabe da sua inteligência, como existe a insolência de quem sabe ser muito bonito. Alguém de quem Guterres terá dito "é o melhor da nossa geração", e de quem outros camaradas do PS diziam "é o mais inteligente de todos nós". Um homem que podia ser muitas coisas, e foi, e será ainda, e outras que não foi e provavelmente jamais será. Como primeiro-ministro ou presidente da República, mesmo se tantas vezes desafiado, rogado, para ser candidato a.

O desejado

No início do século XXI, se António Vitorino tivesse um cognome, seria o desejado - o que nunca veio, como o jovem rei perdido em Alcácer Quibir. Em 2001/2002, quando Guterres abandonou o governo após a derrota nas autárquicas e falou do "pântano"; em 2004, quando Ferro Rodrigues, desgastado pelo processo Casa Pia, no qual o seu ex secretário de Estado e braço direito Paulo Pedroso fora envolvido, e agastado com o facto de Jorge Sampaio ter permitido que Santana Lopes sucedesse a Barroso, não convocando eleições quando este saiu para a Comissão Europeia, se demitiu de secretário-geral. Em 2005/2006 quando era preciso um candidato para fazer frente a Cavaco (e previsivelmente perder) nas presidenciais. Talvez tenha hesitado, talvez se tenha tentado. Talvez tivesse receio de medir forças no voto, de tentar ser amado, de ter de encontrar uma linguagem eficaz para as massas. Certo é que nunca avançou.

Porquê? O amigo Jorge Dias, nove anos mais velho, que o conhece desde que ele tinha 18 (e o recorda "magrinho e com cabelo"), acha que uma das razões é não gostar de perder. Mas quem gosta? Outro amigo desde a mesma época, que foi seu professor na faculdade e viria a ser seu colega de governo como secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Jorge Lamego, usa uma frase de Almeida Santos para quem, diz, Vitorino foi uma espécie de protegé: "Ele não caça coelhos que estejam dentro da moita." E prossegue: "Nunca o vi gostar de confrontação. Vi-o sempre com mais apetência para o alto funcionarismo internacional que para cargos nacionais. Ele gostou muito da experiência de Bruxelas [quando foi deputado europeu, em 1994/95, e Comissário Europeu da Justiça e Assuntos Internos, entre 1999 e 2004], acho que foi a época dele mais feliz do ponto de vista político. Além de que ele sabia que não tinha muita força no partido, e isso para um PM é muito complicado. Via-o mais candidatar-se a presidente."

Lamego, que esteve no governo com ele e recorda que não havia um Conselho de Ministros em que o amigo não dissesse uma piada, sairia na mesma mini remodelação, em 1997 (a demissão de Vitorino da pasta da presidência e da defesa deveu-se, recorde-se, à suspeita de que não tinha pagado sisa na compra de um imóvel) e acha que o prospetivo presidente da OIM saiu muito cedo da vida política interna, mesmo se ainda viria a ser deputado até 2006. A mesma opinião tem Ana Gomes, de quem Vitorino também foi aluno na faculdade, na cadeira de direito internacional e económico, em 1979/1980. "Ele era um dos melhores, senão o melhor aluno. É uma pessoa muito inteligente, capaz e trabalhadora. Tenho pena que alguém com tantas qualificações para a política tenha preferido ganhar dinheiro, ido para a advocacia de negócios, e ser lobbyista." Mas a deputada europeia, não conhecida por ser meiga nas suas apreciações e torcer o nariz às ligações entre política e negócios - Vitorino foi notícia em 2015, a propósito de mais uma hipótese de ser candidato a PR, por ter "cargos em 12 empresas", entre as quais Brisa e CTT, e em 2018 por acumular a presidência da Assembleia Geral da EDP com consultoria ao banco que ajudava os chineses na OPA à elétrica -- frisa que não põe em causa a "probidade" do camarada de partido. "Naquele caso em que foi acusado de não ter pagado a sisa teve aquele que para o nosso país é um ato exemplar, o de se demitir. Talvez combinado com vontade de se ir embora." E prossegue nos elogios: "Acho que tem a competência, a experiência - como Comissário Europeu tinha a área das migrações - e a visão para presidir à OIM. E era muito importante ter alguém no contexto europeu a falar grosso e a fazer frente a esta retórica tipo Salvini [ministro da Administração Interna italiano, que se tem notabilizado pela xenofobia, pelo racismo e pelo discurso anti-imigrantes]. Creio que alguém como ele, com a autoridade moral dele, faz muita falta nesta área."

O lobbyista de passado esquerdista

Voltemos um pouco atrás. Na citada entrevista ao Negócios, conta que fez o liceu no Camões. Estava lá no 25 de Abril. Nesse dia, conta, teve uma aula de latim com Vergílio Ferreira, interrompida pela presença das tropas na rua. Em maio, inscreveu-se no PS; conta que já sabia que queria "ir para a política" e que só não foi ao primeiro congresso como delegado porque não tinha ainda 18 anos e que Mário Soares, achando-o demasiado esquerdista, pediu a Guterres para o "controlar". Sem grande sucesso, já que o controlado sairia do partido pouco depois, no Verão Quente, para só regressar, de vez, no início dos anos 80. Foi assim, em todo o caso, que conheceu o atual secretário-geral das Nações Unidas, que diz dele que é "um homem de bom conselho" e viria a convidá-lo para deputado europeu e depois para ministro. "Vice-primeiro-ministro", diz a sua bio em espanhol no site da Cuatrecasas, uma das grandes sociedade de advogados ibéricas, onde está desde 2006 e da qual é sócio e onde se menciona a sua outra passagem pelo governo, em 1983-1985, como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares de Mário Soares no único executivo de bloco central. E também a comissão no Tribunal Constitucional, de 1989 a 1994.

Jorge Dias, o amigo mais velho para casa de quem se mudou aos 18 - "Com a bênção dos pais", esclarece - e que se descreve como "um discreto militante do PS que pensa pela sua cabeça", chegou a ser seu chefe de gabinete no ministério. Foi contra a demissão, como o atual PM. "Era um lapso na declaração que tinha uma expressão pecuniária mínima, de uns 300 contos [1500 euros]. Mas ele disse que não estava para passar por esse tipo de situações e saiu. Pressionei-o para ser candidato em 2004 mas não tive sorte nenhuma, à última hora decidiu que não. Foi nessa altura que percebi que não valia a pena insistir porque nunca mais teria um cargo importante na área nacional. Acho que ele ficou muito marcado por aquela saída, talvez por ser muito novo [tinha 40 anos]." Suspira. "Sabe, há pessoas que não gostam de se ver nas páginas dos jornais e nos noticiários do Correio da Manhã. E ele teve uma segunda desilusão na política: estava convencido de que tinha hipótese de ser nomeado presidente da Comissão Europeia. Agora fiquei surpreendido por ver que está a competir por este lugar na OIM, porque o mundo está tão estranho. Mas suponho que é porque acha que pode fazer um bom trabalho."

E ser feliz - na entrevista ao Negócios, cita Bill Clinton: "Nunca aceites um cargo onde desconfies que não serás feliz." E fora do trabalho? Jorge Dias, cujo filho tem um restaurante, o Faz Figura, sabe de uma coisa de que ele gosta muito: comer. "Não é muito de beber, mas é muito guloso. As últimas vezes que comemos juntos percebi que estava a tentar não ser tanto." Desporto? "Nunca me lembro de o ver fazer." Mas aprecia: é benfiquista, como o pai, que era "ferrenho". E tem, é sabido, "um sentido de humor muito apurado e acutilante. Mas não é daquelas pessoas que só o usam com os outros. Usa-o nele próprio, e também tem poder de encaixe." Defeitos? "Isso fica para os amigos. Mas posso dizer um: é teimoso." Pormenor curioso: "Tomava nota de tudo nas reuniões políticas, em caderninhos. E disse-me há pouco tempo que ainda os tinha." Quantas memórias para as memórias que um dia, disse ao Negócios, há de escrever.

Mais nada? Antes de encerrar a demanda, o DN tenta o próprio. Manda-lhe uma mensagem a explicar que está a fazer um perfil seu. Responde horas depois, já tarde: "Lamento mas só agora terminei um jantar de campanha aqui em Genebra." A campanha para a presidência da OIM, precisamente; o cargo internacional mais importante a que se candidatou alguma vez, e que saberá sexta se ganhou ou não.

Paciência, então. Ou, como nos aconselhou em 2005, no dia em que o PS ganhou a maioria absoluta nas legislativas, habituemo-nos. A não ter resposta a tudo, por exemplo. É um bom conselho.

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