Manda quem pode

As Nações Unidas são compostas por 193 membros, todos iguais na sua dignidade de países soberanos. Mas cinco desses 193 são mais iguais do que os outros. EUA, Reino Unido, Rússia, China e França são os membros permanentes do Conselho de Segurança, têm direito de veto e o seu apoio é indispensável para fazer eleger, por dois terços dos membros da Assembleia Geral, o secretário-geral, cargo a que é candidato o português António Guterres. Ao longo do mês de agosto, numa série de artigos que terminam hoje, o DN contou-lhe como foram as seis décadas da participação portuguesa na ONU

Com a aproximação da votação final para a escolha do próximo secretário-geral, a questão põe-se de forma cada vez mais incisiva: para ser eleito, António Guterres precisa de ver o seu nome indicado pelo Conselho de Segurança, no qual nada se passa sem a luz verde dos cinco membros permanentes. Com quem pode ali contar o antigo primeiro-ministro?

Em princípio, deverá contar com o Reino Unido, ligado a Portugal pela mais velha aliança do mundo, em vigor há 600 anos. No século XX, essa aliança foi invocada pela Inglaterra nas duas guerras mundiais e em ambas as ocasiões obteve a ajuda pedida. A última vez foi durante a guerra das Falklands/Malvinas, em 1982, quando o embaixador britânico em Lisboa citou explicitamente o Tratado de Windsor, de 1386, para solicitar a utilização da base dos Açores.

Mas a Velha Aliada pode transformar-se de um momento para o outro na "pérfida Albion", capaz de gestos odiosos como o Ultimato de 1890, ou de considerar "ininvocável" a aliança, como fez perante a invasão de Goa, Damão e Diu pelas forças armadas da Índia, em 1961. Afinal, já dizia o primeiro-ministro Benjamin Disraeli, no tempo da rainha Vitória: "O governo de Sua Majestade não tem amigos permanentes nem inimigos permanentes. Só tem interesses permanentes."

Outro potencial apoio de Guterres, segundo os observadores, é a China, país com o qual Portugal mantém boas relações desde o século XVI, quando os nossos navegadores ajudaram a dar caça aos piratas que infestavam o delta do rio das Pérolas. Os portugueses estabeleceram-se em Macau com a anuência das autoridades chinesas e ali se mantiveram durante quase cinco séculos. O clima de boa convivência apenas foi ensombrado pelo assassínio do governador Ferreira do Amaral e da subsequente batalha do Passaleão, em 1849, quando a vitória sorriu às armas portuguesas no primeiro e último combate entre os dois países.

Depois da tomada do poder pelos comunistas, em 1949, a República Popular da China continuou a tolerar a presença portuguesa em Macau, um dos dois únicos pontos de entrada de divisas e bens de consumo no país (o outro era Hong Kong). Em dezembro de 1966 e janeiro de 1967, no auge da Revolução Cultural maoista, os acontecimentos que ficaram conhecidos como "incidente 1, 2, 3" desautorizaram o governo colonial e deixaram claro que a presença portuguesa só se mantinha porque era do interesse de Pequim.

Em 1971, Portugal votou a favor da Resolução 2758 da Assembleia Geral - apresentada pela Albânia de Enver Hoxha - que abriu caminho à entrada da China Popular de Mao Tsé-Tung para a ONU (incluindo o assento permanente, com o direito de veto, no Conselho de Segurança), em substituição da República da China (Taiwan/Formosa), do nacionalista Chiang Kai-sheck.

Depois de 25 de abril de 1974 começaram as negociações para a entrega de Macau à administração chinesa. Os dirigentes de Pequim - conhecidos pela sua proverbial memória - têm boas recordações de António Guterres: foi ele quem, enquanto primeiro-ministro, conduziu a fase final do processo, concluído a 19 de dezembro de 1999. Tudo correu do agrado dos chineses. Até a estátua de Ferreira do Amaral foi apeada e embarcada para Lisboa semanas antes da abertura das Portas do Cerco.

A Rússia também é dada como um dos pesos-pesados que veem com bons olhos a candidatura de Guterres. Ao longo da história, as relações de Portugal com o país dos czares foi quase sempre amistosa. Ribeiro Sanches, um dos mais famosos "estrangeirados" da cultura portuguesa, foi médico da imperatriz Catarina, a Grande, no século XVIII.

Passado o interregno do Estado Novo - que recusou a admissão da URSS na Sociedade das Nações e viu em troca vetada por aquela a adesão de Portugal à ONU, em 1946 -, o relacionamento entre os dois países voltou à normal cordialidade, com um pequeno percalço já na fase final da Guerra Fria, quando Portugal expulsou quatro funcionários da embaixada soviética, apanhados a "exorbitar" as suas funções diplomáticas.

Apesar de Lisboa alinhar com as sanções da UE à Rússia por causa da situação na Crimeia, as relações entre os dois países mantêm-se boas, tendo sido muito apreciada a recente ajuda russa, com o envio de aviões para combater os incêndios que neste mês assolaram Portugal.

Do ponto de vista russo, Guterres parece preferível a algum candidato - ou candidata - do antigo bloco de Leste, hipersensível à proximidade do poderoso vizinho.

Quem tem mantido reserva sobre a sua preferência é a França. Segundo a imprensa parisiense, parece que a diplomacia gaulesa faz questão de que o próximo secretário-geral da ONU fale francês, o que é o caso de Guterres - mas também de outros candidatos. Quanto às relações históricas entre Portugal e a França, basta dizer que o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, era filho de um francês e o último, D. Manuel II, era filho de uma francesa. Pelo meio houve muitos casamentos reais, tratados e até um "pacto de família". Se o rei de França tinha obtido do Papa o título de Cristianíssimo, o de Portugal não se ficou atrás e mandou uma luzida embaixada a Roma que lhe valeu o de Fidelíssimo. O pior foram as invasões napoleónicas mas nem por isso a França deixou de ser a grande referência cultural das elites portuguesas, assim se mantendo durante o resto do século XIX e quase todo o século XX.

Até à década de 1980, o francês ocupava o lugar que desde então passou a pertencer ao inglês nas escolas e universidades portuguesas. O mesmo se passava na política e na diplomacia. De Gaulle, o escritor André Malraux, ministro da Cultura, e o ministro dos Negócios Estrangeiros Couve de Murville tiveram uma palavra a dizer na criação da Fundação Gulbenkian. Hoje a França pesa menos no mundo... mas continua a ter direito de veto no Conselho de Segurança da ONU.

Por falar em peso, uma coisa é certa: nenhum candidato será escolhido sem o beneplácito americano.

À luz da história, as relações entre Portugal e os EUA têm sido exemplares. Desde o reconhecimento da independência da jovem república ainda antes do Tratado de Paris, que consagrou a entrada dos Estados Unidos no concerto das nações, passando pela influência do abade Correia da Serra, embaixador e amigo íntimo do presidente Jefferson, até à base das Lajes e à NATO, Portugal foi sempre um aliado leal dos EUA - e, em geral, vice--versa.

Na verdade, Guterres tem uma folha de serviços impecável... mas há meses que um grupo de senadoras, em Washington, vem fazendo lóbi para pressionar Obama a usar toda a influência dos EUA de modo a garantir que o próximo secretário-geral da ONU seja uma mulher. Primeiro falava-se da búlgara da UNESCO; nas últimas semanas, o palco tem sido ocupado pela argentina que até já trabalhou com o secretário-geral cessante, o qual não se coibiu de lhe dar, publicamente, uma mãozinha.

Resta saber se a declaração de Ban Ki-moon, que suscitou uma pronta reação do chefe da diplomacia portuguesa, é já resultado da tal pressão que as senadoras americanas querem ver exercida a favor de uma solução ditada pelo sexo (ou género), ao arrepio do mérito.

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