PSD a olhar para o lado: CDS está a pôr-se "em bicos dos pés"

Sociais-democratas dizem que ambição do CDS é irrealista e lembram que autárquicas não são legislativas.

"Irrealista", "em bicos de pés", um "enorme disparate". É assim que o PSD reage à ambição expressa pelo CDS, no congresso deste fim de semana em Lamego, de se afirmar como o primeiro partido no espaço do centro-direita. Entre as hostes sociais-democratas lembra-se a Assunção Cristas - que em entrevista ao Expresso disse ver-se como primeira-ministra e disse ser "melhor do que Rui Rio" - que os resultados nas autárquicas não são transponíveis para o plano nacional.

António Bragança Fernandes, presidente da distrital do Porto do PSD, considera que Assunção Cristas está a "pôr-se em bicos de pés", confundindo os votos autárquicos que obteve em Lisboa, em outubro passado, com legislativas. "São duas coisas diferentes as autárquicas não têm nada a ver com as eleições legislativas", diz ao DN, sublinhando que a líder centrista "está a elevar muito a fasquia". Até porque, defende Bragança Fernandes, no escrutínio em Lisboa "estiveram em causa nomes" quando "agora é o partido em si" que vai a jogo. Ao CDS "pode sair o tiro pela culatra", diz o presidente da maior distrital social-democrata - apoiante de Pedro Santana Lopes nas eleições internas - que rejeita que a estratégia de Rui Rio esteja a abrir espaço ao CDS entre o eleitorado de centro-direita. "Rui Rio está a fazer o que é do melhor interesse para o país a longo prazo, está a apostar no futuro", argumenta Bragança Fernandes. Já Carlos Peixoto, vice-presidente da bancada e líder da distrital da Guarda diz que as ambições do CDS "são legítimas", na medida em que é "legítimo sonhar". Mas são igualmente "irrealistas". "Não têm nenhum tipo de adesão à realidade do comportamento eleitoral dos portugueses", destaca o parlamentar laranja. E se Cristas bateu o PSD em Lisboa, relegando os sociais-democratas para o lugar de terceira força política na capital, o vice-presidente do grupo parlamentar diz que "o Dr. Rui Rio não é a Dra. Teresa Leal Coelho" e que não se podem fazer comparações entre eleições autárquicas e legislativas.

Outro deputado da bancada, que não apoiou publicamente Rui Rio nem Santana Lopes, diz que "quando o CDS quer alargar o eleitorado infligindo golpes no PSD é um enorme disparate". Para este social-democrata "cada partido deve fazer o seu caminho, elegendo sempre o PS como alvo. O alargamento do eleitorado tem de ser feito para fora e não para dentro do centro direita". O deputado entende que Assunção Cristas "ainda não percebeu qual o papel dela e do CDS. Ao longo dos tantos anos em que Paulo Portas presidiu ao CDS, nunca se viu entrar num congresso a ser anunciado como o próximo primeiro-ministro de Portugal. No discurso de Assunção está implícito que, como agora o PSD anda um pouco atrapalhado, vamos filá-los. É ridículo e na política o ridículo mata".

Críticos "culpam" direção

Mas entre os sociais-democratas também há quem admita que os democratas-cristãos possam vir a ganhar terreno, face ao posicionamento do PSD delineado pelo novo líder. "Quando o PSD desaparece e não se afirma como alternativa, o CDS naturalmente cresce", defende um destacado crítico da atual liderança social-democrata. Uma tese corroborada por outra voz crítica, na bancada parlamentar: "O CDS só pode fazer este discurso porque o PSD permitiu que isto acontecesse, por falta de comparência. Alguém ouviu o CDS dizer isto quando Passos Coelho era líder?".

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.