Os gémeos que cumprem a promessa de alimentar os peregrinos de Fátima

Há 25 anos que os irmãos José e António Ferreira estacionam um camião perto de Pombal, à beira do IC2,
e distribuem comida, bebida e música aos peregrinos que chegam do norte. Mobilizam mais de 40 voluntários

Uma chuva miudinha, daquela que se entranha até aos ossos, tomou conta da maior parte do caminho dos peregrinos. Por volta das 11 horas, ontem, a berma do IC2 - no troço entre Condeixa e Pombal - era estreita demais para grupos de várias centenas, como aquele que vinha de Amarante, ou como o da Obra do Bem Fazer, de Paredes. Cada um deles mobiliza mais de 500 pessoas, numa peregrinação organizada ao milímetro, com paragens planeadas e toda a logística pensada.

Os primeiros nunca param junto ao camião dos gémeos Ferreira, um dos pontos que já fazem parte da trajetória até Fátima, para quem vem do norte do país. Desde há 25 anos que é assim: a 9 e 10 de maio, os irmãos José e António Ferreira deixam o negócio dos hipermercados no Marco de Canavezes e rumam até ao lugar de Relvão, na freguesia da Redinha, concelho de Pombal. É ali que instalam um camião carregado de toda a espécie de comida, que oferecem aos peregrinos. Há de tudo: presuntos, chouriços, batatas fritas, bolos e bolachas, frutos secos, chocolate e muitos refrigerantes.

Quem faz este percurso habitualmente já sabe que ali há sempre uma abundância para reconfortar o corpo e a alma. A acompanhar os géneros alimentares à disposição dos peregrinos, há a música. Neste primeiro dia estão dois jovens acordeonistas. É quase hora de almoço e parou agora ali um grupo que vem da Póvoa de Varzim, e há de esperar pelo porco que assa no espeto, junto ao camião. Há gente de todas as idades, mas a mais velha do grupo, uma mulher de 80 anos, salta para uma clareira, ergue os braços e toca de dançar o vira. Num instante, o grupo segue-lhe o exemplo.

Uma história com 25 anos

Os irmãos Ferreira gostam de ver "a casa" nesta roda-viva, são os primeiros a incentivar a animação. De resto, em cima do camião está a caixa do pai, um instrumento musical que os acompanha sempre nesta cruzada. "O nosso pai tem 90 anos mas faz sempre questão de vir", conta ao DN José Ferreira, mais desenvolto a comunicar com quem passa. Aos 55 anos, os gémeos Ferreira têm um negócio considerável na área do comércio, com lojas no Marco de Canavezes (a terra natal), Lousada, Amarante e Paredes. O pai era feirante, de modo que cresceram no comércio e acabaram por singrar nessa área. Mas, aos 25 anos, José sentiu que a vida lhe escapava, à conta de uma doença pulmonar. "Naquele ano prometi à Nossa Senhora que, se ficasse bom, ia a Fátima a pé." E foi. Nesse e nos quatro anos seguintes. "Aquilo eram condições muito más. Dormíamos onde calhava. Nem imagina", conta ao DN, ao mesmo tempo que recorda o momento em que decidiu "fazer alguma coisa pelas pessoas que fazem este caminho".

Foi nessa viagem a pé que pediu forças para continuar até Fátima que se apercebeu "da exploração que havia dos peregrinos, pelo caminho". "Se lá chegasse, haveria de fazer isto todos os anos." No regresso, falou com o irmão, que anuiu. Hoje mobilizam mais de 40 pessoas a trabalhar voluntariamente nestes dois dias, e gastam cerca de 10 mil euros com a benfeitoria.

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