"No cancro do reto as novas terapias podem evitar operação"

A necessidade de operar todos os doentes com cancro do reto depois de serem submetidos a radio e quimioterapia é um dos dogmas que persiste entre a comunidade médica e científica.

Quem defende esta tese é Nuno Figueiredo, diretor do centro cirúrgico Champalimaud, que participa no congresso Anjos e Demónios, um evento sobre tratamento do cancro do reto, que decorre hoje e amanhã na Fundação. Segundo o médico, nem sempre a operação é a melhor opção.

Qual é o tratamento considerado mais indicado para o cancro do reto?

Se não houver doença muito avançada, é a cirurgia. Se houver doença avançada, nomeadamente invasão das estruturas adjacentes ou a probabilidade de não ter uma cirurgia completamente curativa, tem de se fazer quimio e radioterapia e depois cirurgia.

Mas defende que nem todos precisam de cirurgia...

Sim, no grupo dos doentes em que se faz quimio e radioterapia antes de propor para cirurgia, quase um terço pode vir a ter uma resposta completa. Ou seja, com as novas terapias de radioterapia e os novos fármacos para quimioterapia, esses doentes podem evitar uma cirurgia mutilante, a colocação de saco definitivo.

Como chegaram a essa conclusão?

Há cerca de 20 anos, todos os doentes submetidos a quimio e radioterapia eram posteriormente submetidos a cirurgia. Mas, há 10 ou 12, começou-se a perceber que, quando se analisava a peça operatória - o que era retirado do doente - não existia qualquer evidência de células cancerígenas. Estávamos a fazer cirurgia a mais. O grande problema era perceber qual era o grupo que ia ter resposta completa com os tratamentos. Precisávamos de tempo para avaliar isso. Mas havia receio na comunidade científica que, nesses doentes em que se esperava mais de oito semanas após o tratamento, os resultados da cirurgia pudessem ser comprometidos. Uma das coisas que concluímos foi que não há acréscimo de risco para quem espera mais tempo para que se perceba se precisa realmente de uma operação ou se ela pode ser diferida ou mesmo dispensada.

Que ganhos é que isto representa?

Poupamos a mutilação, ou seja, não retiramos o ânus nem colocamos um saco - a colostomia definitiva. Evitamos complicações cirúrgicas, sequelas infeciosas e problemas a nível sexual e urinário, porque o reto está muito próximo das estruturas nervosas de controlo da parte urinária e sexual. Verificámos que, bem acompanhados em centros de referência, que fazem o programa Watch and Wait [como a Fundação Champalimaud], muitos dos doentes com cancro do reto podem evitar cirurgia, ou seja, sobretratamento.

Esses resultados vão ser apresentados no encontro Anjos e demónios?

Exatamente. Este encontro congrega 34 centros em todo o mundo que têm tentado reunir informações clínicas dos [1200] doentes que estão em programas de vigilância para divulgar os resultados promissores que temos encontrado. Dentro do grupo que não é operado imediatamente, cerca de 20% têm um reaparecimento do tumor no local original, mas, quando são bem seguidos, a cirurgia que fazemos passados dois ou três anos é exatamente igual à que faríamos no início. Ganham-se anos livres de colostomia, qualidade de vida.

O que são os Anjos e os Demónios?

Os anjos são todas as novas abordagens e tecnologias que permitem que os doentes sofram menos quando são tratados ao cancro do reto. Falamos de cirurgia minimamente invasiva, radioterapia com muito boa taxa de eficácia e baixa toxicidade, novos fármacos para quimioterapia. Este programa - o Watch and Wait - entra também nesta classe. Os demónios são todos os dogmas difíceis de quebrar instituídos na classe médica e científica, como a necessidade de operar todos os doentes depois da radioterapia.

Esta nova abordagem é comum?

Não. É algo que ainda não é muito usado e ainda está ao abrigo de uma investigação. No país, nós fomos pioneiros, mas neste momento outros centros estão a querer aderir ao programa.

Isto significa uma redução de custos?

Sim. Por um lado, obriga a que o doente tenha um seguimento mais apertado e com exames adicionais, mas, por outro lado, poupamos muito mais com um conjunto enorme de cirurgias desnecessárias e complicações associadas.

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