Marcelo rejeita agitação política e regressa aos afetos

Marcelo tinha à sua espera um cordão de professores que queriam alertar para a sua situação. Acabou a cumprimentar um a um

Chegou ontem e vai estar nas ilhas até sábado. Disse que a moção de censura foi suficiente para clarificar o governo e regressou aos afetos, mas sem uma tragédia como pano de fundo

O primeiro dia do Presidente neste regresso aos Açores ficou marcado por um pequeno e silencioso protesto. Frente ao Centro de Formação Aeronáutica dos Açores, em Santa Maria, estavam perfilados 51 professores fardados com sacos de lixo de plástico preto e segurando uma longa faixa negra: "Há mais de 3700 professores prejudicados na Região Autónoma dos Açores com três anos perdidos na transição entre carreiras."

Nada que não se resolva com uma demorada sessão de afeto presidencial. Marcelo saiu do automóvel, deixou à espera quem o aguardava lá dentro, atravessou a estrada para uma breve conversa com os líderes do protesto - havia uma petição para assinar, mas o Presidente explicou que só recebe petições, não as assina - e caminhou ao longo da faixa negra, cumprimentando todos e cada um dos manifestantes. Entre beijos e abraços, sempre o mesmo pretexto para meia dúzia de palavras com os professores - a idade. "30 anos?! Mas é novíssima!" ou "Este já é mais clássico. Tem quantos? 50? Menos? Não parece...", até que já mais para o fim da longa faixa de protesto, com cerca de 70 metros, surge uma conversa improvável. Marcelo abranda para dar um beijo a mais uma professora e dispara: "Aqui é que temos uma mais próxima da minha idade", mas não, não tinha tantos, "55? Só? Também podia dar um toque nesse cabelo." O Presidente tinha conversado sobre as razões do protesto a meio da faixa e varreu depois todo o lado esquerdo. Chegado ao fim da faixa, deu meia volta e deixou cair um aparte já clássico: "Eu com isto sinto-me injusto para o outro lado. Vou atrasar-me aqui mais uns dois minutos e agora tenho de cumprimentar o outro lado, para não ser acusado de cumprimentar apenas a esquerda." A cena durou uns cinco minutos. Com sorrisos e afeto, Marcelo deixou os professores sem grande vontade de exagerar no protesto e cada um foi à sua vida. Os professores para as escolas e o Presidente para o resto da tarde de visita.

O dia começou por volta das três da tarde no aeroporto de Santa Maria, que ainda guarda marcas - como a velha torre de controlo - da construção inicial nos primeiros anos do pós-II Guerra Mundial. Foi aqui a primeira base americana nos Açores, muito antes das Lajes. Marcelo chegou com uma frase na ponta da língua: "Já estava com saudades da terra." Era uma referência à série de seis livros publicados pelo padre Gaspar Frutuoso no final do século XVI, naquela que foi a primeira grande descrição da Macaronésia - Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores.

Com o presidente do governo regional, Vasco Cordeiro, ao seu lado, logo à chegada, Marcelo deixou um conforto. "Os Açores não estão no meu pensamento apenas quando aterro aqui, estão quer quando aqui estou quer quando estou aparentemente longe." O Presidente regressava às ilhas para "poder presenciar o desenvolvimento económico, social, cultural e a afirmação cívica dos Açores e dos açorianos" e sem remorsos por deixar o continente em desassossego político. Na véspera, o Parlamento tinha chumbado uma moção de censura ao governo apresentada pelo CDS/PP e, para o Presidente, isso é "mais do que suficiente" para que haja confiança no executivo e para que se passe a uma nova fase. "Isto não tem nada de agitação política. A vida política portuguesa continua e aqui terei oportunidade de reencontrar um percurso que fiz há cinco meses, porque não podemos esquecer, por muito importantes que sejam algumas prioridades políticas, de que há várias realidades de Portugal e uma delas tem um nome: Açores e açorianos. E o Presidente aqui está para ir ao encontro dessa realidade."

E assim fez numa tarde dividida entre as novas apostas do arquipélago, com a visita ao Centro de Formação Aeronáutica e à Estação Geodésica e Espacial de Santa Maria, e o quarto setor, com uma visita ao lar e à creche da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Porto. Antes de nova vaga de afetos, selfies, beijos e abraços no centro de Vila do Porto, a comitiva passou pelas instalações da Estação Geodésica. Trata-se de um equipamento único em Portugal e faz parte da RAEGE - Rede Atlântica de Estações Geodinâmicas e Espaciais. Na prática, a grande antena de radiotelescópio e outros instrumentos, instalados numa colina a poucos quilómetros de Vila do Porto, permitem fazer medições muito precisas. Um trabalho com utilidade para o estudo sísmico, para a navegação por satélite ou para a avaliação de riscos naturais, recolhendo dados com interesse para a indústria aeroespacial e para a proteção civil. Foi aí, na estação geodésica, que aconteceu um diálogo caricato entre o Presidente e o responsável pela estação. Sob a enorme antena parabólica do radiotelescópio, Marcelo aproximou-se da placa que assinala a inauguração das instalações. A placa conta o habitual neste tipo de placas, mas o Presidente deu pela falta de um pormenor: "O curioso é não terem colocado aqui o ano. Não era boa ideia terem colocado o ano?" Começa toda a comitiva a rir. Vendo bem, a placa diz qualquer coisa como "...inaugurada a 20 de maio por Sua Excelência o Presidente do Governo Regional". Uns passos atrás, o diretor da estação sorri e diz: "Nunca ninguém tinha dado por isso." Marcelo já vai na gargalhada. "Então qualquer ano serve. Isto é uma tática que eu nunca tinha imaginado, pode ser o ano 1, 2, 3, 4... muito bem."

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