Freitas do Amaral: "Marcelo está a exercer o mandato através das televisões"

Diogo Freitas do Amaral em Guimarães, após o lançamento do seu novo livro Da Lusitânia a Portugal

O político e jurista deu prioridade à faceta de historiador e acaba de publicar 'Da Lusitânia a Portugal - Dois mil anos de história'

Não é a primeira vez que Diogo Freitas do Amaral se dedica à investigação da História de Portugal, tendo publicado um dos maiores sucessos de não-ficão em Portugal com a sua biografia sobre D. Afonso Henriques, que vendeu mais de 80 mil exemplares, e uma outra biografia de D. Afonso III - O Bolonhês, outro caso sério de vendas no género. Desta vez, vai mais longe e são 500 as páginas que abrangem, como diz o título, Da Lusitânia a Portugal - Dois Mil Anos de História. Não será por acaso que meteu mãos à obra, pois confessa que este é tanto um livro sobre a nossa História como um manual para se gostar de Portugal: "É feito por alguém que gosta muito de Portugal e que aprecia a sua História." Explica mais detalhadamente: "Temos uma História que é uma das poucas que contribuíram para a da Humanidade, basta ver o que fizemos na época dos Descobrimentos, quando demos a conhecer à Europa o resto do mundo, onde fomos os primeiros a chegar e depois a publicar livros que relatavam esse mundo." Acrescenta: "Além de tudo aquilo em que fomos pioneiros, como ser os primeiros a derrotar Napoleão. Só Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda marcaram a História desta forma."

Quanto a este novo volume a somar a uma já extensa bibliografia, Freitas do Amaral fez mais do que uma versão antes da definitiva: "Na primeira tinha escrito mais 20 páginas sobre a Guerra Colonial e a Descolonização, mas aconselharam-me a não dizer tanto sobre este período por ainda estar mal estudado e existir muita documentação por revelar." Também se confrontou com o novo mundo digital do investigador de História: "Para alguns capítulos deste livro quis recorrer a documentação da Biblioteca Nacional e fui lá, mas responderam-me que já não estava disponível em papel e em vez disso deram-me a referência digital."

Escolhe como limite para esta História 1982. Porque não ir até ao presente?

Tinha três hipóteses. Contar tudo até ontem; acabar com o fim do Estado Novo ou, a que escolhi, terminar com a revisão constitucional de 1982. Se fosse a opção do Estado Novo pareceria inadequado porque havia mais 44 anos de História, na qual participei, e não podia deixar de falar do 25 de Abril. Achei que a partir da estabilização democrática de 1982 não me sentiria bem na pele de historiador a comentar se o primeiro-ministro Cavaco foi bom ou mau, se António Guterres foi melhor ou pior... Deixo isso para o terceiro volume das minhas memórias.

Ao referir essa revisão constitucional, pode dizer-se que está na hora doutra?

Sou da opinião que sim, mas por enquanto não estão reunidas as condições políticas para se poder obter uma maioria de dois terços na Assembleia da República, pois tanto o PS como o PSD estão muito afastados um do outro. Admito que nos próximos tempos haja uma evolução, aliás ambos os candidatos à liderança do PSD admitem alianças pontuais com o PS para pactos de regime. Portanto, depois das legislativas, será necessário equacionar o tema. Em todo o caso temos de ter prudência porque o mundo está em profunda mudança - alterações climáticas, revolução das tecnologias, alterações demográficas, dificuldades na manutenção da União Europeia, populismos nacionalistas, a emergência da China e a presidência Trump - e são situações que geram uma grande incerteza sobre a nova ordem mundial. Deve ser uma revisão constitucional bem estudada e negociada entre, se possível, todos os partidos.

Acha que devem esquecer-se as querelas políticas nacionais?

As querelas fazem parte da política e não é possível proibi-las. Uma revisão exigirá que nos concentremos no interesse nacional para os próximos 30 anos. Quando chegar esse momento, vai haver consciência da inevitabilidade.

Não receia que o atual Presidente da República antecipe essa data?

Creio que não. Há de continuar a ser um Presidente ativo - como anunciou na campanha eleitoral - mas, tirando um ou outro ponto discutível, não tem entrado na esfera do Executivo. Nem está a dar instruções sobre como orientar a política externa, por exemplo. Agora que é uma pessoa muito presente é verdade, e que, pela sua inteligência e conhecimentos, cada palavra sua pesa. No entanto se houver uma revisão constitucional, sabe que é da competência exclusiva da Assembleia da República e não deixará cair uma palavra aqui ou acolá para influenciar.

E quanto a mais poderes presidenciais?

Já disse na campanha que os acha bem.

Manterá essa opinião?

Acho que sim, porque já percebeu que o maior poder do Presidente não está na Constituição mas quando fala ao povo e na perceção das suas necessidades, aquilo que os líderes partidários só fazem nas campanhas eleitorais, sem nunca se intrometer na esfera do Executivo, do parlamento ou dos tribunais. Irá continuar assim pois duvido que se reclamar mais poderes presidenciais os dois maiores partidos os dessem. Houve uma situação semelhante com o general Eanes no tempo da Aliança Democrática e eu vi bem o como foi a reação do PSD, PS e CDS: nem pensar, pelo contrário, reduzi-los. O professor Marcelo viveu isso e sabe que os partidos não aceitam bem que reduzam os poderes dos seus governos. E ele tem o maior poder: falar com o povo e fazer-se entender. Não precisa de mais.

Não crê, então, que o faça?

Se o quiser, sim. De duas maneiras: num discurso ou através de uma mensagem à Assembleia da República. Meio que tem ao seu dispor e que até hoje não usou. Porquê não usar a mensagem escrita à Assembleia? Porque está todos os dias a falar com o país inteiro através da televisão. Ele foi o primeiro Presidente eleito pela televisão, numa campanha que durou mais de uma década através de intervenções semanais. Além de que neste momento, o professor Marcelo Rebelo de Sousa está a exercer o seu mandato presidencial através das televisões. Esse é o maior poder que se pode ter.

Neste seu livro refere como absolutamente inevitável a Descolonização, o assunto mais complexo daquele tempo. É uma questão resolvida?

Desejaria que esse dossier não se apagasse com o tempo porque falta debatê-lo. A integração dos "retornados" foi notável, bem diferente do que aconteceu com a Argélia, e deram um contributo grande ao desenvolvimento do país. O tema da Descolonização ainda está muito por estudar e tem dificuldades políticas óbvias. É preciso publicarem-se mais documentos dessa época e novas investigações de historiadores com conhecimentos militares e de África que pudessem a fazer a síntese do que se passou com os militares, os movimentos de libertação, a posição do Governo de Salazar e de Caetano e as relações diplomáticas que até certa altura apoiaram Portugal e depois começaram a pressionar para um sinal de evolução. O próprio general De Gaulle o fez a certa altura, mas o Governo nada fez a não ser reafirmar que seria assim durante décadas.

A sua intervenção política dificultou-lhe o distanciamento nesta História?

Quis contar da maneira mais objetiva possível e ser imparcial, mas tenho noção de que tendo vivido esses tempos por dentro é evidente que esse capítulo será mais subjetivo que os outros.

O atual poder das redes sociais vão alterar o entendimento da História?

É possível que sim, mesmo que não se saiba qual será o efeito principal. Não duvido que já está a mudar muita coisa, seja a maneira de se fazer política ou publicidade, seja a forma dos jovens se relacionarem com a comunicação.

O historiador terá uma nova aproximação às fontes e aos factos?

Terá um maior e mais fácil acesso às fontes e as próprias entidades que têm documentação para publicar vão torná-la acessível de uma maneira mais fácil. A partir daí, haverá os que trabalham melhor ou pior as fontes. Essa é a única situação que não desaparecerá.

Na bibliografia deste livro tem historiadores para todos os gostos. As últimas Histórias de Portugal, de Rui Ramos e António Borges Coelho, são melhores que as anteriores?

As imediatamente anteriores, as de Veríssimo Serrão, José Mattoso e João Medina, são já muito bem documentadas. Aqueles que refere têm mais documentos, mais opinião e atualização, mas são pessoas com uma visão ideológica muito marcada e não abdicam dela. Isso permitirá surpreender em determinadas facetas da realidade de um modo melhor do que sem essa preocupação, mas leva-os a forçar certos entendimentos que na minha opinião não correspondem à realidade. É como a preocupação de reduzir tudo à economia, o que leva a cometer erros, ou a dos não-marxistas com a vontade de ignorar sempre a economia, o que também leva a cometer erros. Quem quiser ser objetivo na História deve saber fazer essa distinção.

No caso de Rui Ramos é uma visão de direita e no de Borges Coelho de esquerda. O leitor não é manipulado?

Só quem quer é que se deixar manipular. Os compradores de livros de História já sabem ao que vão e quem comprou a primeira já sabia que ia encontrar coisas de que gostavam e gostaram; os do segundo também sabiam ao que iam e gostaram. Percebe-se sempre se há ou não um pressuposto ideológico, mas todos temos a ganhar em haver histórias de todos os quadrantes possíveis.

Quando os leitores chegam à página 17 veem os mapas que mostram a existência de uma geografia que dá origem ao retângulo português...

Essa é uma convicção forte da minha parte e que não tinha antes. Por curiosidade científica tive oportunidade de falar com professores de Geografia que me deram fotografias de satélite que me mostraram que mais de 60% da fronteira terrestre luso-espanhola é constituída por rios ou cumes de montanha. Portanto, as linhas convencionadas por diplomatas não chegam a representar um terço, o que diz haver um retângulo natural desde o princípio.

Quem ler esta parte das fronteiras e de como as manter vai pensar na situação atual na Catalunha e da sua luta pela independência?

Não há dúvida que a Catalunha tem imensas razões históricas para querer ser independente e até terá uma certa inveja por Portugal o ter conseguido. Como passaram 500 anos sobre a unificação feita pelos reis católicos, mexer nas fronteiras que existem há tanto tempo é sempre um problema complexo. A Catalunha não deverá conseguir através desta forma ataviada tornar-se independente; pode continuar a lutar por uma maior autonomia até que a solução passe por uma revisão constitucional e de um modelo federal para a Espanha. A independência levará muitos mais anos e só será consentida pelo resto de Espanha se houver grandes transformações no país.

Nota-se que existe neste livro um sentimento pró-Portugal muito presente. É propositado?

É verdade, porque Castela foi sempre o nosso grande inimigo. Antes, já o rei de Leão nos fez guerra várias vezes e só Afonso Henriques teve uma dúzia de operações militares contra esse reino. Depois, o fortalecimento de Castela fez com que estivesse constantemente a tentar invadir-nos em quase todos os reinados da primeira dinastia, até 1383/85. Na segunda dinastia, é menos constante porque D. João I levou perto de 30 anos a negociar um acordo de paz duradouro com Castela, bem como por resolverem competir connosco em matéria de Descobrimentos. Quis o destino que fossem para o lado das Américas enquanto o nosso plano eram as índias. No entanto, o desejo de vingar a perda de Portugal era tão forte que estiveram cá 60 anos e não era evidente que nos livrássemos deles se Filipe I de Portugal tivesse vivido todo esse tempo. Provavelmente, não nos daria razões de queixa porque teve uma forma inteligente de relação com Portugal.

De Lusitânia a Portugal

Diogo Freitas do Amaral

Bertrand Editora

496 páginas

PVP: 22,20 euros

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