"Era a namorada" com que os soldados dormiam ou tinham sempre junto a si

Estudos para substituir a G-3 começaram nos anos 1970 mas só os paraquedistas adotaram o novo calibre 5.56 e nos anos 1980

Imagem da guerra colonial e do 25 de Abril, a G-3 "era a namorada" dos militares em campanha, por ser "aquela com quem se dormia ou, nas casernas, estava pendurada pela bandoleira aos pés da cama ou na cabeceira", recorda o coronel comando Carlos Matos Gomes.

O início da guerra em Angola e o embargo de armas imposto pelos EUA levaram o regime a escolher a espingarda automática G-3, com autorização para a produzir na Fábrica de Braço de Prata - e com uma encomenda inicial de 50 mil armas para o país de origem, Alemanha.

"A G-3 é uma arma imposta a partir de 1961 e, a partir daí, Comandos e o resto da tropa adaptou-se a ela", lembra o militar de Abril ao DN, garantindo que ela "provou muito bem [apesar das] debilidades, pois era muito pesada, os carregadores tinham metade das munições" das Kalashnikov usadas pelos inimigos.

A verdade é que "ser pesada e grande dava um certo conforto" aos soldados, "para além da sua eficácia" por acertar mais e a maiores distâncias que a arma russa. Também "era muito robusta, muito fiável... mesmo quando havia ambientes difíceis, com poeira, chuva ou lama, funcionava", sendo ainda "relativamente fácil de limpar, montar e desmontar", lembra Matos Gomes.

Às vezes havia azares, como ao adaptar "um dilagrama na boca do cano para lançar uma granada de mão a longa distância", relembra. "Era uma preocupação constante" que o soldado pusesse "uma bala especial na câmara [porque] se, na tensão do combate, o militar se esquecia e punha uma munição normal, esta fazia a granada explodir logo à saída do cano... aconteceu a vários ", lamenta o capitão de Abril.

Finda a guerra, os paraquedistas - que usavam G-3 com coronha retrátil (e Armalite AR-10) - iniciaram logo nos anos 1980 "um processo de modernização", comprando a espingarda israelita Galil cujo calibre 5.56 mm já era comum em muitos Exércitos, conta o tenente-coronel paraquedista Miguel Machado.

Em Portugal, os primeiros estudos para substituir a G-3 começaram nos anos 1970 - marcados pelo debate entre manter armas 7.62 ou adquirir 5.56, ao nível dos países da NATO. Foram anos de testes para escolher a nova arma ligeira, num processo que se atrasou ainda porque, a dada altura, o Exército quis que a Marinha e a Força Aérea também partilhassem os custos. Mas isso não era prioritário para estes ramos (queriam fragatas e caças) - pelo que o programa de substituição da arma continuou adiado, recordam oficiais envolvidos no processo.

Se o fim da Guerra Fria retirou pressão à mudança, a presença das Forças Armadas em missões de paz a partir de 1996 recolocou o problema, à luz do atraso face aos Exércitos com quem estavam nos teatros de operações. O certo é que, nessa época, "os paraquedistas voltaram a introduzir algumas G-3 de 7,62mm para poderem usar o lança-granadas HK 79 de 40mm", adianta Miguel Machado. Em 2004, o ex-ministro da Defesa Paulo Portas abriu concurso para mudar a arma da guerra colonial: "A instituição militar continuou sempre o seu dever [fazendo estudos], a parte política é que não." Problemas jurídicos suscitados por concorrentes levaram à anulação judicial do processo em 2007, quando foi lançado o novo concurso - cancelado em 2012, dada a crise financeira e por já não haver lugar a contrapartidas, disse o governo PSD/CDS.

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