Fosso de oportunidades entre o concelho mais jovem e o mais envelhecido

O DN foi perceber o que separa os municípios de Lousada, o mais jovem de Portugal continental segundo a Pordata, e de Penamacor, com a maior taxa de idosos

Lousada: nascem 4 mil por ano no concelho mais jovem

Taxa de desemprego muito baixa, apoios da autarquia, suporte familiar e oferta escolar de proximidade. Estes são alguns dos segredos que fazem de Lousada o concelho mais jovem de Portugal continental, apenas atrás, a nível nacional, de dois concelhos açorianos (Ribeira Grande e Lagoa) e outros dois madeirenses (Santa Cruz e Câmara de Lobos).

Lousada, vila do distrito do Porto, tem 47 mil habitantes e teve quase quatro mil nascimentos (3995) no ano passado, o que se traduz num dos melhores índices de envelhecimento do país. Em declarações ao DN, Nélson Oliveira, chefe de gabinete do presidente da Câmara de Lousada (Pedro Machado) avança com algumas das razões que podem explicar este fenómeno demográfico. "Desemprego quase inexistente, suporte familiar e proximidade dos jardins-de-infância à casa da família são algumas das explicações", enumera. O responsável acrescenta ainda a esta lista apoios da autarquia no que se refere a impostos como o IMI ou a Derrama (confere isenções fiscais a empresas). "Temos vários apoios que acabam também por fixar novas empresas no concelho que, por sua vez, oferecem postos de trabalho", adianta. A "grande rede escolar" - prossegue - "é um fator importante para explicar os números da população jovem". "Em todas as freguesias existe uma escola. Só em Alvarenga é que não, porque havia apenas quatro crianças. Mas trata-se de uma exceção à regra", afirma.

Existem em Lousada 830 crianças no pré-escolar, 1900 no 1.º ciclo e 3700 nos 2.º e 3.º ciclos e no secundário. "Aqui temos mesmo muitas escolas e muitas soluções para colocar os nossos filhos. As famílias também têm quase sempre o apoio dos avós, uma ajuda preciosa para os pais", conta Elisabete Ribeiro, mãe de três filhos. A lousadense deixou de trabalhar aquando do nascimento do terceiro filho "por opção". "Até ao terceiro, trabalhei. Tinha a minha sogra que os ia buscar à escola, mas acabei por decidir ficar em casa quando nasceu o mais novo." Elisabete Ribeiro, de 43 anos, aponta ainda as "variadas atividades oferecidas aos jovens" como um dos grandes atrativos do concelho. "Sou presidente do clube de hóquei em campo, mas para além desta modalidade existem muitas outras. Os jovens têm muito por onde escolher."

Cláudia Motta fala também "com orgulho" do concelho. Apesar de viver na cidade vizinha de Paredes, um dos seus filhos frequenta uma escola em Lousada, em detrimento da zona de residência da família. "É com orgulho que vejo Lousada como 1.° concelho com iluminação 100% LED, ofertas educativas, culturais e desportivas gratuitas e impostos baixos, como o IMI mínimo, saneamento básico quase a 100%, reduzida taxa de desemprego, bem como dívida pública. São questões que me preocupam em Paredes, onde não existe agenda cultural, com centros escolares onde impera só a estética", explica esta mãe de dois meninos de 11 anos e de 20 meses. Cláudia Motta diagnostica que "são estes os fatores que levaram ao aumento de jovens em Lousada".

Lousada é o concelho mais jovem de Portugal continental, um dos municípios com a taxa de natalidade mais elevada. Quem passeia por Lousada não fica indiferente à quantidade de jovens e de crianças que se veem nas ruas da vila, onde quase todos os locais foram pensados para esta realidade. Há parques infantis, jardins, bares e serviços um pouco por todo o lado. Apesar de estar a ressentir-se um pouco fruto da crise, o ano passado apresentou uma taxa de natalidade superior a 11% em relação à média do país. Apenas menos três pontos percentuais do que Montijo, que liderou a tabela. Lousada conta com 47 mil pessoas e nascem 8,5 bebés por cada mil habitantes. "O normal aqui é ter pelo menos dois filhos, mas há muitas famílias com três ou mais", afirma Nélson Oliveira, chefe de gabinete da presidência da câmara. O exemplo parece vir "de cima". Pedro Machado, de 44 anos, presidente da autarquia, é o mais novo de dez irmãos.

Penamacor: "A culpa é da falta de empregos"

Com a última agregação de freguesias em 2013, fechou a última escola primária nas aldeias de Penamacor, distrito de Castelo Branco. Na altura, o presidente da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Aldeia do Bispo, Águas e Aldeia de João Pires, Aníbal Birra, opôs-se com uma providência cautelar para evitar o fecho da escola com 40 crianças. Não conseguiu. Atualmente Penamacor é um dos casos raros no país em que a única escola funciona na sede de concelho por não existirem alunos suficientes para estender o 1.º ciclo a qualquer uma das outras freguesias.

Com 5160 cidadãos, segundo a última atualização dos cadernos eleitorais, e a fazer fronteira com Espanha e com o distrito da Guarda, Penamacor regista o mais elevado índice de envelhecimento do país. Essa percentagem situa-se nos 178,2, segundo a Pordata, o que significa que o número de pessoas com 65 e mais anos por cada 100 pessoas ultrapassa o número de menores de 15 anos.

O índice de envelhecimento deste município cresceu 597,8 por cento entre 1960 e 2011, segundo a mesma fonte. A seguir a Penamacor no grupo dos cinco municípios com mais idosos do país encontramos mais dois concelhos do distrito de Castelo Branco: Vila Velha de Ródão e Oleiros. A estes juntam-se Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, e Alcoutim, em Faro.

Os idosos têm um sítio certo para conversar em Penamacor. Encontramo-los no Jardim da República, bem no centro da vila, sentados nos bancos de pedra, a queixarem-se entre si sobre as maleitas da idade ou dos tempos que já lá vão. Abordados pela questão do envelhecimento populacional, dizem que a culpa é da falta de empregos. Curiosamente é o apoio à terceira idade o setor que emprega mais pessoas. No Lar D. Bárbara da Silva trabalha uma centena de pessoas.

José Lopes Nunes mantém a sua retrosaria em Penamacor há 43 anos, mais por ocupação do que pelos clientes que até por ali passam mas apenas para dois dedos de conversa. "Só com empregos é que se pode atrair pessoas. Atualmente é um risco investir aqui porque não existem trabalhadores", observa. Os jovens distanciaram-se da terra natal. "Antes ainda existiam atividades que os atraía aos fins de semana, agora nem isso. O preço das portagens afasta ainda mais as famílias dos idosos do interior", complementa.

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