"Com Trump a relação dos Estados Unidos com a Europa vai mudar significativamente"

"Parece-me hoje claro que do ponto de vista da política comercial, nós vamos assistir a um momento de pausa", afirma Augosto Santos Silva

Chegou também a altura de começar a perceber o que é que a eleição de Trump implica nas relações com a União Europeia. Acha que necessariamente vai mudar alguma coisa de significativo nas relações entre a Europa e os Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump?

Sim.

E em que sentido.

Parece-me hoje claro que do ponto de vista da política comercial, nós vamos assistir a um momento de pausa. Porque a União Europeia e os Estados Unidos tinham, já numa fase relativamente avançada, a negociação de um acordo de comércio e investimento muito poderoso, muito ambicioso entre os dois blocos e não creio que a atual administração seja muito favorável ao desenvolvimento dessas negociações. E eu digo não creio porque, de facto, quer o candidato Trump, quer o Presidente Trump, não foram muito explícitos relativamente a esse acordo, ao chamado TTIP [sigla para Transatlantic Trade and Investment Partnership], ao tratado transatlântico de investimento e de comércio. Mas creio que devemos contar com uma pausa. Estou a citar a comissária europeia...

Um maior protecionismo da economia norte-americana que implicará com a globalização...

...porque há aqui uma divergência que não vale a pena esconder: a União Europeia é típica e convictamente a favor do comércio internacional e do comércio regulado - isto é, de um comércio que seja equilibrado por padrões de exigência muito elevados em matéria de segurança alimentar, de saúde pública, de cuidado ambiental, de proteção dos trabalhadores - e não me parece que a filosofia da atual administração norte-americana vá nesse sentido. E há ainda outras duas divergências. Uma, é relativamente às agendas que a União Europeia tem liderado na cena internacional, até agora com o apoio dos Estados Unidos - estou a falar da agenda do desenvolvimento sustentável e da agenda do clima, das alterações climáticas -; aí, também se nota um diferente empenhamento. E, finalmente, uma questão que diz muito aos portugueses que é um menor investimento dos Estados Unidos na ordem multilateral e no sistema das Nações Unidas, o que, do meu ponto de vista, faz acrescer as responsabilidades da União Europeia na promoção do multilateralismo e no apoio às Nações Unidas.

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