A sociedade civil também vigia os Paços do Concelho

Não são políticos, mas por razões profissionais ou de gosto acompanham de perto o que se passa na cidade e as decisões que são tomadas em áreas como os transportes, o urbanismo, o património. O DN foi ouvir três casos

São nomes da sociedade civil que muitas vezes se fazem ouvir acima da oposição política. Sobre o trânsito, o urbanismo, o património, o turismo, por razões profissionais ou gosto pessoal, são vozes vigilantes, muitas vezes críticas do que se passa na capital e das decisões tomadas nos Paços do Concelho pelo executivo camarário liderado por Fernando Medina. Três olhares diferentes sobre Lisboa, por quem nela vive. A começar num dos temas que saltam à vista por toda a capital e gasta muitas horas aos lisboetas (literalmente) - as obras na cidade.

"Esta vereação é contra a mobilidade"

Cada vez que a Câmara de Lisboa anuncia uma nova obra Carlos Barbosa puxa de uma mão-cheia de adjetivos. Nenhum deles simpático. Obras no Eixo Central, da Fontes Pereira de Melo a Entrecampos?

"É uma estupidez completa." Obras na Segunda Circular? Menos mal, "voltaram com tudo atrás, agora vão só repavimentar e pôr umas árvores no meio". Há várias obras ao mesmo tempo na cidade? "É da total incompetência da câmara."

É fácil de ver que Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de Portugal (ACP), não gosta deste executivo camarário. "A minha guerra contra esta vereação é porque eles são contra a mobilidade", diz ao DN. Há quem o acuse de ser uma voz - ou melhor, a voz - em defesa dos automóveis, mas Carlos Barbosa rejeita o epíteto: "Não estou a defender os carros, estou a defender a mobilidade das pessoas, que as pessoas possam mover-se na cidade. Como quiserem. De carro, de bicicleta, de transportes, a pé." O próprio reconhece que há muitos que não acham o mesmo. "Há quem diga que eu sou contra as bicicletas. Não sou nada, quero é que as pessoas possam mover-se como entenderem. Quem me dera a mim que os carros ficassem todos à entrada da cidade." E não é impossível, garante, o que falta é vontade política. "Desde o Estádio da Luz até ao aeroporto há capacidade para se fazerem 13 mil lugares de estacionamento."

Carlos Barbosa sustenta que "nenhuma das obras" que está em curso em Lisboa vai resolver os problemas da cidade, muito pelo contrário. Do que a cidade precisava era de outra coisa: "O que era normal era que se construísse parques dissuasores à entrada da cidade" e se criasse um "passe intermodal que dê para deixar o carro e usar os transportes públicos". E se isso não acontece, critica o líder do ACP, é porque a "receita da EMEL é, com o IMI, uma das principais receitas da Câmara de Lisboa. Hoje em dia não há um cantinho de Lisboa que não tenha EMEL".

"Loucura das obras explica-se por uma lógica eleitoralista"

Fernando Nunes da Silva é engenheiro civil, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, especialista em mobilidade e transportes. A visão que tem da cidade não é totalmente exterior ao poder camarário: foi vereador da Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa, função que acabou por deixar, em desacordo com o executivo camarário. Passou para a bancada dos Cidadãos por Lisboa, na Assembleia Municipal, já então com uma voz muito crítica. E que desde então só tem subido de tom.
"A câmara está a funcionar numa lógica fundamentalmente eleitoral, é isso que explica esta loucura de obras. Decidiu concentrar-se no que terá mais impacto, em termos de imagem mediática, e avançou com o carro à frente dos bois", diz ao DN. São as obras na Fontes Pereira de Melo, também as que estão para começar na 2.ª Circular. "A câmara abdicou de uma estratégia coerente para uma mobilidade responsável", critica o antigo vereador. Fernando Nunes da Silva ressalva que não é contra as obras na 2.ª Circular (que defendeu, noutros moldes), mas sustenta que, sem alterações em eixos transversais da cidade as obras terão como único efeito lançar a confusão.

O engenheiro civil não esconde a mágoa por o executivo camarário não ter avançado com a criação das zonas 30, um projeto que devia estender-se a 31 bairros de Lisboa, e que previa uma velocidade máxima de 30 km/hora nas zonas residenciais da cidade. "Foi sendo completamente esvaziado do ponto de vista orçamental e, na prática, boicotado" dentro da própria câmara, sublinha, entre a acusação e o lamento.

Defesa do património "continua na mesma ou pior"

Paulo Ferrero, do Fórum Cidadania Lisboa, tem uma opinião substancialmente diferente sobre o tema das obras em Lisboa. "O Eixo Central deve ser a zona de Lisboa mais bem servida de transportes. Mas quem é que vai de carro, para estacionar na Fontes Pereira de Melo? É a mesma coisa que dizer "vou ali de carro, estaciono nos Campos Elísios ou nas Ramblas". Mas alguém faz isso?" A mobilidade pedonal, defende, é um dos aspetos que estão bastante melhor em Lisboa. Como a ligação da cidade à frente ribeirinha. O mesmo não se pode dizer daquele que tem sido o grande cavalo de batalha deste funcionário público, com formação em Economia, que por "gosto" há muitos anos dedica muito do seu tempo à cidade de Lisboa.

A primeira vez que se meteu "nestas coisas das contestações" foi em 2001, em nome de uma causa que ainda dura - o cinema Odéon. Dois anos depois, era preciso salvar outro edifício lisboeta, a casa onde viveu Almeida Garrett. Amigo traz amigo, dessa vez essa "coisa da contestação" transformou-se num blogue coletivo. A casa onde viveu e morreu Garrett não se salvou, foi demolida em 2006, mas o movimento Fórum Cidadania Lisboa, que teve origem no blogue, ficou até hoje -13 anos depois continua a vigiar o destino do património da cidade e a zurzir nos executivos municipais. Se há aspetos em que a cidade melhorou, este não é um deles: "Continua na mesma ou pior. Nas épocas construtivas que nos dizem mais, do final do século XIX, princípio do século XX, vai desaparecendo tudo, ano após ano. E há zonas da cidade que estavam praticamente intactas e que agora vão vendo desaparecer esse património. É o caso de Campo de Ourique."

E como reage a câmara da capital ao trabalho continuado de vigilância sobre o urbanismo e o património que é feito pelo Fórum Cidadania? "No início do blogue o lado de lá não sabia como reagir, esses [vereação de Carmona Rodrigues]tenho a impressão que ficaram em pânico." E atualmente? "Ainda hoje há dificuldade em reagir."

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