Amensagem de Natal de António Costa, na qual o primeiro-ministro fez um balanço muito positivo dos seus oito anos de governação, gerou consenso entre os partidos de oposição, que da esquerda à direita criticaram a fuga à realidade dos principais problemas do país. Sobretudo no que toca aos problemas com os serviços públicos, nomeadamente na escola pública e no Serviço Nacional de Saúde..As dificuldades que os utentes encontram nos hospitais e centros de saúde foi recordada pelo PSD, que anunciou na semana passada a constituição da Aliança Democrática, coligação pré-eleitoral que inclui o CDS e figuras independentes. O vice-presidente social-democrata Paulo Rangel disse que as contas certas defendidas por António Costa na mensagem "foram feitas com base na destruição, abandono e desistência sistemática dos serviços públicos" e lamentou que o primeiro-ministro não tenha dedicado "nem uma palavra" aos profissionais de Saúde..O eurodeputado também apontou o dedo à forma como os socialistas "desbarataram a credibilidade do Governo e das instituições" no último ano, e pôs em causa a defesa do reforço da qualificação dos portugueses feita por António Costa. "Como é possível fazer o elogio dos progressos que houve nas qualificações quando vemos a situação em que está o sistema educativo, a situação em que estão os nossos alunos sem professores, em que estão os professores sem qualquer incentivo, a situação de impasse em que entrou a educação", inquiriu..A falta de referências à crise das instituições e à degradação da saúde também foram criticadas pelo presidente do Chega, André Ventura, para quem Costa "é um primeiro-ministro que consegue na sua última mensagem falhar os dois tópicos principais que era importante tratar". Em sua opinião, tal esquecimento mostra que o primeiro-ministro e o PS vivem "numa realidade paralela completamente diferente da maioria dos portugueses", cabendo-lhes dar resposta nas legislativas "a quem não quer resolver os dramas de Portugal".."Ouvindo o primeiro-ministro parece que não vivemos uma crise profunda na saúde, parece que a justiça não precisa de salvaguardar a sua independência e ter meios para poder agir, parece que não aumenta todos os dias o número de sem-abrigo e o risco de pobreza, parece que Portugal não fica para trás no conjunto da União Europeia", defendeu o líder do Chega. Também o presidente da Iniciativa Liberal, Rui Rocha, criticou António Costa por não dedicar "uma única palavra" a questões "fundamentais" para os portugueses, como a crise na habitação, os "rendimentos baixos e impostos altos" que deixam a classe média "absolutamente asfixiada", tal como a degradação das instituições e dos serviços públicos na saúde, educação, transportes e justiça..Rui Rocha contrapõe a isto uma saúde baseada na escolha entre público e privado, e políticas que permitam aos jovens ficar no país e o regresso dos que já emigraram..A única reação positiva às palavras de António Costa veio do PS, com elogios do secretário-geral-adjunto João Torres à "mensagem de grande lucidez, mas também de grande esperança no futuro". Garantindo que o primeiro-ministro "entregará um país inquestionavelmente melhor do que aquele que encontrou", acusou a oposição de estar "especializada na maledicência" e elogiou pontos da mensagem de Natal, como o aumento da qualificação dos portugueses, a diminuição da dívida pública e o combate às alterações climáticas..As críticas à esquerda não se fizeram esperar, com a eurodeputada bloquista Marisa Matias, que será cabeça de lista do partido pelo Porto nas próximas legislativas, a realçar que Costa "não fez nenhuma referência aos problemas que as pessoas enfrentam em Portugal"..Entre os problemas, "agravados com a maioria absoluta, apesar de ter tido todas as condições políticas e recursos extraordinários", não esqueceu o "sobressalto permanente" causado pela crise da habitação e pelos problemas no Serviço Nacional de Saúde, "que precisa de investimento concreto para que aquela que é uma das principais conquistas da democracia em Portugal não colapse". Acusando Costa de, em vez de apresentar soluções para os problemas, "fugir a eles, ignorá-los e omiti-los", Marisa Matias voltou a salientar que a mensagem de Natal foi uma ocasião perdida para o primeiro-ministro se mostrar "mais próximo da realidade que as pessoas estão a enfrentar em Portugal". E também no Médio Oriente, pois a eurodeputada questionou a falta de menção ao "genocídio que está a acontecer em Gaza", apesar de o primeiro-ministro ter feito uma referência à guerra na Ucrânia na mensagem do ano passado. Para o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, a maioria absoluta do PS "desperdiçou dois anos das nossas vidas, não abriu nenhum caminho novo e só agravou caminhos velhos", recordando que as últimas legislativas antecipadas, após o chumbo do Orçamento do Estado para 2022, sucederam por o Governo socialista considerar que a saúde, a habitação e os aumentos dos salários eram "três áreas que não precisavam de investimento". O dirigente comunista Jaime Toga dissera antes que a mensagem "não bate certo com a vida das pessoas", pois não falou no "desacerto das contas da vida das pessoas, do salário e da pensão que não chega para enfrentar o custo de vida, que aumentou significativamente nos últimos tempos". Acusou ainda Costa de não falar da escola pública, com "dezenas de milhares de alunos que não têm professores a todas as disciplinas", do Serviço Nacional de Saúde e da "agonia de não saber como será o dia de amanhã e como se conseguirá fazer face ao aumento dos custos da habitação", devido ao aumento das rendas ou da prestação do crédito à habitação. O "esquecimento do país real" também foi diagnosticado pela porta-voz do PAN, Inês de Sousa Real, para quem as "contas certas" esquecem milhares de sem-abrigo e milhões que estariam em situação de pobreza se não recebessem apoios sociais, indicando que Costa "não tem conseguido promover o desenvolvimento social"..Já o deputado único do Livre, Rui Tavares, centrou-se na confiança nos portugueses referida por Costa para perguntar "onde esteve essa confiança durante estes oito anos". E deu o exemplo de Sines, dizendo que se a população tivesse sido auscultada "provavelmente não teríamos tido decisões divididas entre governantes e facilitadores, e o Governo não teria caído", numa alusão à Operação Influencer..Também sem contemplações para com a mensagem de "um primeiro-ministro que pertence ao passado, que se demitiu por causa de investigações criminais graves e que liderou um dos mais incompetentes e instáveis governos da história da democracia portuguesa", o vice-presidente do CDS, Paulo Núncio, acusou os socialistas de deixarem "o país mais empobrecido em termos europeus"..Para o centrista, "Portugal precisa de um novo começo, de uma nova maioria, de um novo Governo, mais sério, mais competente e mais estável". Algo que disse passar por um executivo de centro-direita "que abra um novo horizonte de esperança aos portugueses, com mais prosperidade, menos impostos e mais apoio aos mais desfavorecidos"..leonardo.ralha@dn.pt