Inflação dói a famílias e empresas, mas ajuda contas de Medina

Governo tem trunfo com a receita fiscal extra a ajudar na redução do défice. Mas a atividade económica está em sofrimento e há ameaça real de crise social.

Potenciada pelo escalar dos preços da energia, devido ao conflito entre Rússia e Ucrânia, a inflação é o grande motor do furacão que se abateu sobre uma economia que apenas começava a recuperar de dois anos de pandemia e consecutivos confinamentos, que arrasaram alguns dos setores mais relevantes para o crescimento do país, a começar pelo Turismo e Serviços. Mas tem um efeito virtuoso: à boleia da receita fiscal extra, as Finanças ganham margem de manobra.

Costa tem dito, e Fernando Medina repetido, que contas certas são a prioridade e a tendência inflacionista ajudará a alcançar um défice inferior a 1,9% do PIB (previsão do OE), uma vez que a coleta de impostos cresceu quase ao dobro do ritmo da economia. Tendo na base dois anos de perdas, em covid, o crescimento será outro argumento para o governo, tal como o nível de desemprego historicamente baixo (6%) - ainda que entre os jovens esteja nuns impressionantes 21%.

Mas a inflação dá mais temas à oposição. Abalada por crises simultâneas - interrupção de cadeias logísticas, escassez de matérias-primas, incapacidade de reter pessoas -, a que se soma a inflação, que se fixou nos 8,7% em junho (8,6% na Zona Euro/9,6% na UE), a economia está em sofrimento.

A começar pelas famílias, a braços com uma perda brutal de poder de compra (mais de um salário perdido), num ano em que os aumentos nas remunerações (pensões/função pública) não chegaram a 1%. E a almofada acumulada em pandemia já se foi, em resposta à subida generalizada de preços - o supermercado ficou 30% mais caro desde que rebentou a guerra, o depósito de gasolina custa mais 25 euros. Os apoios previstos pelo governo são parcos (compensação nos combustíveis+subsídio para os mais pobres de 60 euros para dois meses) e aumentos extraordinários nos salários e pensões estão fora de causa, para não somar à pressão inflacionista, pelo que o embate nos orçamentos é real e brutal. E a esperada subida da taxa de juros do BCE vai adicionar preocupação: poderão as famílias continuar a pagar os empréstimos num contexto de normalização dos juros? A resposta mede-se em malparado e poderá ser geradora de mais adversidades ainda neste ano.

As empresas não estão em melhores lençóis, entre os efeitos da covid e o trabalho condicionado ou interrompido e as consequências dos custos da energia a disparar, à boleia da guerra e da transformação energética, que ganhou ainda mais urgência. Pressionado pelos objetivos de descarbonização e a braços com matérias-primas e custos de produção supercaros, que os tímidos apoios do governo não aplacam, o tecido empresarial poderá ter impulso nos fundos europeus PRR e PT2030. Mas a sua chegada tem sido lenta: só se desbloqueou 9 milhões dos 5 mil milhões previstos para o setor privado.

Depois, há as questões de sempre - burocracia excessiva, instabilidade regulatória, imprevisibilidade fiscal - que pesam na capacidade das empresas de gerar valor. E não se vê políticas capazes de atrair investimento, o que dificulta as contas num país que continua a perder competitividade (caiu seis lugares, para 42.º no ranking) e não consegue melhorar a produtividade (6.º pior da Europa), com o salário médio a rondar 1200 euros, que o prejudica na atração de talento.

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