Exército está a "apurar as circunstâncias" dos "acontecimentos" de domingo

No dia 24 de outubro centenas de militares vaiaram o ministro da Defesa e o Chefe de Estado-Maior do Exército, por os paraquedistas no desfile terem sido impedidos de entoar o cântico "Pátria Mãe", que o Ramo alega ter sido por razões sanitárias devido à covid-19

O Exército está a "apurar as circunstâncias" em que ocorreram os protestos do passado domingo, dia 24, durante a cerimónia em que se celebrava o dia do Ramo.

Centenas de militares vaiaram o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, e o Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), General Nunes da Fonseca, por causa dos paraquedistas terem sido impedidos de entoar um dos seus emblemáticos cânticos, o "Pátria Mãe", durante o desfile.

A decisão indignou muitos militares e mobilizou para a cerimónia de Aveiro antigos paraquedistas, a que se juntaram militares de outras forças especiais, como os Comandos, que desafiaram o CEME e no momento em que o pelotão de paraquedistas se apresentou, o "Pátria Mãe" foi cantado alto, inclusivamente por alguns dos soldados que desfilavam.

Questionado pelo DN se iriam ser instaurados processos de natureza disciplinar contra estes militares que desobedeceram à ordem da hierarquia - uma informação que é dada como certa por várias fontes que contactaram o DN - o gabinete de Nunes da Fonseca não confirma.

"No que diz respeito aos acontecimentos ocorridos no passado dia 24 de outubro, informa-se que o Exército está a apurar as circunstâncias em que os mesmos ocorreram", limita-se a dizer a porta-voz.

Conforme o DN noticiou, o Exército alegou que excluiu os cânticos do desfile por entender que devido às restrições da pandemia e ao baixo número de militares envolvidos as "ações de voz" teriam "baixo efeito".

"Baixo efeito de ações de voz"

"Em 2021, os vários eventos realizados no âmbito do programa de comemorações do Dia do Exército, tiveram em consideração as restrições em vigor decorrentes da pandemia, e a Cerimónia Militar do passado dia 24 de outubro, não foi exceção. Ou seja, considerando o contexto e a reduzida dimensão das forças militares envolvidas no desfile, concluiu-se pelo baixo efeito de ações de voz em pequenos efetivos da mesma natureza, portadores de máscaras de proteção e enquadrados por música de banda militar, pelo que aquelas, seja de que natureza, não foram, desde logo, previstas na fase de planeamento e, consequentemente, na fase do desfile", justificou o gabinete do CEME.

Contudo, a justificação pecou por tardia e não impediu que, como uma bola de neve, se avolumasse a indignação dos militares, principalmente os das forças especiais, que acusam Nunes da Fonseca de os querer desvalorizar.

Nos dias que antecederam a cerimónia incendiaram as redes sociais em revolta contra a proibição - sem que o Exército tenha clarificado atempadamente o motivo da sua decisão e arrastando o ministro da Defesa para a posição de alvo daqueles protestos.

"É um exemplo desastroso de condução das tropas", frisou ao DN o general Avelar de Sousa, da União Portuguesa dos Paraquedistas, que congrega várias associações e comandou a antiga Brigada Aerotransportada.

"Somos uma tropa com provas dadas, temos a nossa tradição e orgulho, uma preparação especial e somos capazes de muitos sacrifícios para conseguirmos levar a cabo a nossa missão arriscada", defende Avelar de Sousa.

"Se nos retiram os símbolos, as práticas e as tradições que alimentam a nossa coesão estão a enfraquecer uma das melhores tropas especiais do país. (...) É esta prática que alimenta o espírito que permite pedir a qualquer um destes militares que cumpra uma missão sabendo que pode morrer", sublinha.

Identidade e espírito de corpo

Explica que "o espírito de corpo e a coragem conseguem-se pelo cultivo de símbolos como os cânticos. Para uma tropa de combate a maior importância que o militar atribui é o conceito em que ele é tido pelos camaradas. A pátria está a olhar para ele, mas é um conceito abstrato, é ao camarada que está ali ao lado que tem de responder. Esse estado de espírito consegue-se pelo cultivo de determinados pequenas coisas que os distinguem. Dizer-lhes que não podem deixar a boina verde ficar mal é levado muito a sério e dão a vida por ela".

O impacto e o simbolismo desta proibição foi de tal forma, que o presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, brigadeiro-general Duarte Costa, antigo comandante de paraquedistas e comandos, usou a página de Facebook, onde deixou implícito a sua crítica.

Usando uma metáfora, num texto que intitulou "Gosto mais de painéis de azulejos do que de "melting pots"", explica porque é importante a diferença e identidades próprias para benefício do todo.

"Da mesma forma, uma identidade nacional é uma alma, uma família espiritual e resulta de um passado, de recordações, de sacrifícios, de glórias, com frequência de batalhas comuns. É um princípio espiritual constituído por um passado e um presente, pelo possuir de um conjunto rico de tradições gerais e particulares que se agregam pelo respeito dos grupos sociais que coabitam na expectativa de que juntos valemos mais do que separados. É o consentimento atual e geral de vivermos juntos com essas mesmas tradições. É ter glórias passadas comuns, ter feito grandes obras no passado e continuar a querer a fazê-las no presente e no futuro. E daí ser tão importante respeitar as tradições, pois mais do que separarem, cimentam a riqueza de uma heterogeneidade cultural de quem continua a querer viver em conjunto", escreve.

"Tal como o sal, o azeite e o vinagre, que isolados são apenas mais um condimento, em conjunto, transformam-se num tempero essencial. (...) Tal como num painel de azulejos, onde individualizando cada azulejo com o seu valor, integramos todos na mesma obra de arte, a beleza e o valor do conjunto resultam da essencial diferença de cada entidade em particular", conclui.

As boinas e os cânticos

No blogue "Operacional", o coronel Miguel Machado, antigo porta-voz do Exército na Bósnia, explicou porque desconfiam os paraquedistas das intenções do CEME.

"Há antecedentes longínquos, intermédios, recentes e os últimos que foram a luz verde para estes protestos espontâneos", sublinha coronel.

Recorda que as coisas começaram a correr mal desde a transferência das tropas paraquedistas da Força Aérea para o Exército, em 1994, "sem ter em conta as razões do seu sucesso como organização militar"; depois a "desarticulação", em 2006, da organização do comando da Brigada Aerotransportada, "destruindo a já limitada autonomia e retirando um comando de oficial-general, fundamental no Exército para se ser ouvido; em 2019 foi a polémica das boinas, com os paraquedistas da Brigada de Reação Rápida a terem de usar boina preta (comum a todo o Exército) em vez da tradicional boina verde das unidades.

"Foi-se criando a perceção nos antigos paraquedistas militares que havia a intenção de destruir a sua identidade, a sua história comum. Quem está no ativo não se pode expressar publicamente, os que estão "fora" sentem que devem assumir essa indignação. Cresceu muito esse sentimento a partir das medidas de 2019/2020 que atingiram o seu símbolo maior e mais querido, a boina verde".

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