Vila Nova de Gaia é o novo foco das discórdias provocadas pelas escolhas do PSD para as listas de candidatos a deputados da Aliança Democrática (AD), com os sociais-democratas gaienses a atacarem os líderes da Distrital do Porto, e da sua própria concelhia, pela exclusão do antigo deputado Cancela Moura e pela colocação de Carla Costa num lugar manifestamente não-elegível..A contestação às escolhas da Distrital do PSD para a lista da AD no Círculo do Porto - encabeçada pelo independente Miguel Guimarães e com o líder centrista Nuno Melo em segundo lugar - levou a Comissão Política Concelhia de Vila Nova de Gaia a divulgar na sexta-feira, 2 de fevereiro, uma declaração política que evidencia o clima de guerra interna entre sociais-democratas..Num documento de duas páginas, a que o DN teve acesso, os subscritores, que se identificam como “pelo menos a expressiva maioria” dos dirigentes sociais-democratas gaienses, não poupam “críticas à conduta da Distrital do PSD Porto” e mostram-se “indignados com o colaboracionismo e a falta de lealdade” do presidente e do primeiro vice-presidente da Concelhia do PSD de Gaia, respetivamente Rui Rocha e Abraão Silva..Acerca do líder distrital social-democrata, Sérgio Humberto, e da estrutura a que preside, os autores da declaração política dizem que “esbanjaram o seu próprio capital político, por não terem estado à altura da confiança que lhes foi depositada pelos militantes de base”. Isto porque, defendem, terão tido “a clara intenção de castigar e humilhar os gaienses” ao excluírem a primeira indicação da concelhia para a lista da AD, impedindo o regresso de Cancela Moura à Assembleia da República - foi excluído por Rui Rio nas legislativas de 2022, após ser o quinto eleito do PSD no distrito três anos antes -, e ao relegarem a segunda indicação, Carla Costa , para um 25.º lugar, que fica muito para lá das hipóteses da coligação, pois há dois anos os sociais-democratas só elegeram 14 dos 40 deputados do círculo eleitoral. E os parceiros do CDS-PP e do PPM não elegeram nenhum..“Esta afronta ainda se torna mais grave quando o presidente da Distrital do PSD Porto, depois de ter afirmado expressamente que excluía Cancela Moura apenas e só por não o querer na lista, permitiu que o senhor Pedro Sousa, que não foi indicado por qualquer concelhia, integrasse a lista de deputados, numa inqualificável manobra, que privile- giou o amiguismo em detrimento do mérito que deveria nortear estas escolhas”, defendem os sociais-democratas gaienses, entre os quais se encontra o segundo vice-presidente da concelhia, Paulo Martins..A inclusão de Pedro Sousa no 13.º lugar da lista da AD pelo Porto é qualificada na declaração política como “a proeza e o feito inédito de beneficiar o infrator, escolhendo alguém que não tem expressão, nem representatividade no partido e na sociedade civil, a quem não se reconhece qualquer participação cívica e política, sendo público e notório que está a léguas de corresponder aos critérios de competência e lealdade com os gaienses e com a Concelhia do PSD Gaia”..Acusado pelos subscritores do documento de ter sido “desertor de funções” enquanto líder do grupo parlamentar social-democrata na Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, Pedro Sousa vê ainda apontada a “agravante” de ter sido “um dos principais protagonistas da conspiração montada pela candidatura falhada de António Oliveira à Câmara de Gaia”. O antigo selecionador nacional de futebol dividiu o PSD local nas autárquicas de 2021, mas acabou por não avançar na tentativa de retirar o terceiro concelho português mais populoso ao PS - que o governa desde 2013, após três maiorias absolutas do social-democrata Luís Filipe Menezes -, o que os dirigentes concelhios realçam ter acontecido “à revelia dos órgãos do partido legitimamente eleitos”. E contribuído “decisivamente para que o PSD se apresentasse a sufrágio muito fragilizado”..Ataques dentro da concelhia.Dirigidos para o interior da concelhia estão ataques a Rui Rocha e Abraão Silva, presidente e vice-presidente do PSD Gaia, acusados de “terem sido colaboracionistas ativos neste golpe de teatro, o que apenas se compreende por motivações de ordem pessoal de ambos”. Segundo os subscritores da declaração política, ambos “manifestaram a vontade de quererem ser deputados” e terão agido “sempre à margem e nas costas do próprio órgão colegial”..A guerra interna terá chegado ao ponto de esses dois dirigentes concelhios terem declarado a ilegalidade da convocatória da reunião da passada sexta-feira, requerendo procedimento disciplinar contra os próprios companheiros que estiveram presentes..“Não obstante a traição e irresponsabilidade destes dois companheiros, a Concelhia do PSD Gaia ou, pelo menos, a expressiva maioria dos membros que a integram, assumirá, por ora, a plenitude do mandato que lhe foi confiado, com resiliência e convicção, ao serviço e na defesa de todos os gaienses, através dos seus autarcas e garantindo a dignidade institucional que aqueles não souberam assegurar”, escrevem os dirigentes na declaração política. E realçam que a Concelhia de Vila Nova de Gaia “está, livre e incondicionalmente, ao lado de Luís Montenegro, porque convictamente acredita que este é o melhor de nós para servir como primeiro-ministro e resgatar o país da desgovernação socialista dos últimos oito anos”..O DN contactou o presidente da Concelhia de Gaia do PSD, Rui Rocha, que disse não ter nenhum comentário a fazer sobre o assunto, e também o presidente da Distrital do Porto, Sérgio Humberto, sem resposta até à hora de fecho da edição..Cancela Moura troca Câmara por TurismoO ex-deputado social-democrata Cancela Moura, que foi o candidato do PSD à Câmara de Vila Nova de Gaia nas autárquicas de 2021, repetindo a derrota que sofrera quatro anos antes frente ao socialista Eduardo Vítor Rodrigues, renunciou ao lugar de vereador sem pelouros, comunicando essa decisão na reunião do Executivo camarário desta segunda-feira. A decisão de Cancela Moura, que se demitira em 2021 da presidência da Comissão Política Concelhia gaiense dos sociais-democratas, está relacionada com a sua integração na direção da Entidade Regional do Turismo do Porto e Norte. Luís Pedro Martins foi reeleito presidente dessa entidade na semana passada, iniciando-se um mandato de cinco anos.