O inimaginável aconteceu: António Costa escolheu para o encerramento do debate parlamentar na generalidade do OE2024, esta terça-feira, o ministro que o Presidente da República acha desde maio passado que está a mais no Governo: João Galamba, ministro das Infraestruturas, um dos governantes que tutela a TAP (e que por isso é coautor do decreto de reprivatização da empresa que Marcelo há dias vetou, devolvendo-o ao Governo, com a acusação, insistente, de falta de transparência no processo)..Citaçãocitacao"Senhoras e senhores deputados, permitam-me citar sua excelência, o Presidente da República: Este orçamento segue a única estratégia possível.".E não só esta inimaginável escolha foi feita como depois o próprio João Galamba a adornou com requintes de malvadez citando o próprio Presidente da República em defesa da proposta orçamental do Governo: "Senhoras e senhores deputados, permitam-me citar sua excelência, o Presidente da República: Este orçamento segue a única estratégia possível", afirmou. Acrescentando depois, "com a permissão do senhor Presidente", que "é mesmo um bom orçamento" - uma frase que apenas conseguiria completar à terceira tentativa, depois de várias interrupções causadas por protestos de deputados, sobretudo do Chega..De acordo com o sucessor de Pedro Nuno Santos nas Infraestruturas, "ao contrário da oposição, que dispara para todos os lados" e "promete tudo a todos", este é "um orçamento responsável, mas ambicioso, que vem ao encontro das necessidades das famílias, das empresas, das necessidades presentes e futuras do país". Ou seja, "um orçamento de melhoria de rendimentos e redução de impostos, um orçamento de obra, investimentos e planeamento", um OE "de que o país precisa" porque "aumenta os rendimentos, promove o investimento e garante o futuro"..Antes de Galamba, já o líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, tinha interpretado o OE2024 como sinal de um novo ciclo: "Se num primeiro momento a nossa preocupação foi: emprego, emprego, emprego, nesta fase a nossa preocupação deve ser: rendimento, rendimento, rendimento"..O deputado, de resto, também dispararia uma farpa que se pode entender como dirigida a Marcelo - mas também ao PSD. Depois de recordar que este OE foi, "mais uma vez", construído "num quadro de enorme incerteza" ("os conflitos no Médio-Oriente e na Ucrânia, mas também das elevadas taxas de juro na Zona Euro e do abrandamento económico que já se verifica na Europa"), concluiu: "Perante estas tensões geopolíticas não podem, ou pelo menos não devem, ser os agentes políticos a acrescentar incerteza à incerteza.".O debate na generalidade do OE2024 terminou esta terça-feira no Parlamento pelas 19h20 com o resultado mais do que esperado: a maioria PS votou-o a favor, aprovando-o. Os restantes partidos votaram contra, à exceção (costumeira) dos deputados únicos do PAN (Inês Sousa Real) e do Livre (Rui Tavares), que se abstiveram, em nome da disponibilidade dos socialistas para negociações na especialidade..Citaçãocitacao"É miserável que um partido assim se diga de esquerda porque, na verdade, está a abraçar todas as bandeiras da direita.".Para a história do debate ficou também aquele que foi porventura o ataque mais duro do Bloco de Esquerda ao Governo pronunciado desde o fim da "geringonça"..Pedro Filipe Soares, líder da bancada bloquista, considerou "miserável" o facto de a maioria socialista "estar a abraçar todas as bandeiras da direita". Dizendo que Costa prefere, para "poupar os grandes grupos económicos, a banca e os seus lucros milionários", pôr os jovens a pagar para estudar, o deputado bloquista dificilmente poderia ter sido mais agressivo: "É miserável que um partido assim se diga de esquerda porque, na verdade, está a abraçar todas as bandeiras da direita.".Pelo meio, atacou diretamente a legitimidade do Governo para proceder agora à reprivatização da TAP dado que isso não foi anunciado no programa de Governo. Está "sem legitimidade" e "não tem mandato", insistiu, dizendo que Costa quer agora "privatizar a maioria do capital contra o António Costa de 2014"..À direita, Miranda Sarmento, chefe da bancada do PSD, fechou as intervenções do seu partido dizendo que uma "consolidação orçamental conjuntural e não estrutural não pode ser chamada de contas certas". Antes, a abrir, tinha qualificado a intervenção do orador anterior, André Ventura, do Chega, como "um simpático intervalo de stand up comedy"..joao.p.henriques@dn.pt