Ana Gomes vs. Ventura: o diabo, o MRPP e uma marca na cara

André Ventura, que já disse que se demitirá de líder do Chega se perder para Ana Gomes nas presidenciais, resgatou várias memórias do passado da adversária, desde Sócrates ao MRPP, e atacou-lhe o diretor de campanha, Paulo Pedroso. A antiga eurodeputada lembrou uma marca na cara por ter lutado contra a ditadura e disse que o Chega foi "legalizado com assinaturas falsas"

Num dos debates aguardados com mais expetativa, o duelo de polos opostos entre Ana Gomes e André Ventura começou em registos distintos. Se o líder do Chega não hesitou em apontar diretamente à antiga eurodeputada socialista como a sua "principal adversária" nestas eleições presidenciais, por "representar tudo aquilo" que vê de negativo na esquerda portuguesa, Ana Gomes tentou marcar distâncias: "O meu principal adversário é Marcelo Rebelo de Sousa."

Uma introdução para um debate que rapidamente se encaminhou para o registo que se esperava: o de um duro confronto com ataques de parte a parte e várias frases fortes para memória futura.

"Todos vimos o que se passou há dois dias no Capitólio [nos EUA ]. É exatamente isso que não quero para o nosso país. E é isso que é representado pelas forças que suportam o senhor deputado", disparou Ana Gomes, que já tinha iniciado o debate a lembrar que já lidou "com muitos diabos" enquanto diplomata, na Indonésia, em Timor ou até em Bruxelas". "E sempre soube como lidar com eles".

André Ventura ripostou contra "a candidata que se diz muito democrata, mas que já disse que quer ilegalizar o Chega". E atirou para a mesa do debate o passado de Ana Gomes no MRPP, "que defendia a morte aos traidores". "Um belo exemplo de democracia", atacou, merecendo uma reação pronta da antiga eurodeputada.

"Sabe, eu tenho uma marca na cara por ter lutado contra a ditadura [no MRPP], onde fui um soldado raso e saí pelo meu pé aos 21 anos", referiu Ana Gomes, lembrando também o passado no MRPP de Durão Barroso, uma figura "do antigo partido" de André Ventura (PSD).

O candidato da direita populista não travou nessas recordações sobre o passado de Ana Gomes e insistiu nas ligações ao MRPP: "Não se consegue demarcar desse passado. Hoje apresenta-se aqui como se não tivesse nada que ver com aquilo."

Confrontado por Ana Gomes com o facto de ter dito que defendia uma "ditadura de pessoas bem", Ventura aproveitou para atacar outra referência do passado socialista. "Quer dizer que não vou ser o Presidente de José Sócrates, dos pedófilos, dos traficantes de droga. Vão para a prisão". "Só estes candidatos do século passado é que não querem prisão perpétua", insistiu André Ventura, que mostrou ainda uma foto de Ana Gomes com Sócrates numa campanha passada: "Gosto da moralidade desta senhora quando há uns anos estava aos beijinhos a José Sócrates."

Depois, apontou ao diretor de campanha da adversária. "Tem um diretor de campanha que é Paulo Pedroso. É uma vergonha apresentar-se numa campanha com um nome que representa as influências que o PS moveu para condicionar a Justiça."

Ana Gomes devolveu o tema Sócrates: "André Ventura ajudou o patrão de Sócrates a escapar ao fisco". E endureceu o tom quanto aos ataques a Pedroso: "Não admito que ofenda as pessoas que comigo trabalham com falsidades." "Este senhor tem "truques" para arrastar os outros para a lama, mas não lhe darei esse gosto."

A ilegalização do Chega

André Ventura voltou à carga com um tema recorrente: a defesa de Ana Gomes em relação à ilegalização do Chega. "Ilegalizava um partido que representa os portugueses normais. O que é que faria? Faria eleições até ter o resultado que gosta?"

Na resposta, Ana Gomes referiu que o partido de André Ventura foi "legalizado com assinaturas falsas, incluindo de pessoas já falecidas", e acusou o rival de "querer destruir a democracia", criticando ainda o presidencialismo defendido pelo líder do Chega. "Foi utilizado quer por fascistas, quer nazis, quer totalitários estalinistas".

Ana Gomes aproveitou para lembrar a presença de Marine Le Pen, esta sexta-feira, ao lado de André Ventura, referindo que o seu adversário se reuniu "com uma fascista, que quer destruir a Europa". "O que seria dos emigrantes portugueses se esta senhora tivesse esse discurso quando os portugueses foram por essa Europa fora?"

Adiamento de eleições? Ventura disponível, Ana Gomes nem por isso

Sobre a hipótese de adiamento das eleições, devido ao agravamento do cenário da pandemia de covid-19, Ana Gomes sublinhou que "a democracia não pode ser suspensa" e pediu ao Presidente e ao primeiro-ministro para refletirem bem.

Ventura, esse, mostrou-se disponível para esse debate, ainda que possa obrigar a uma revisão constitucional: "Quanto mais tempo tiver de campanha mais eu vou ganhar. Mas percebo que Ana Gomes não queira, poque acho que passa para quinto ou sexto".

Marcelo chamado à discussão

No final do debate, perante a oportunidade de os candidatos fazerem uma pergunta um ao outro, Ana Gomes socorreu-se de Marcelo Rebelo de Sousa: "Marcelo revelou que aquele senhor [Ventura] tem um registo de coelhinho em Belém e de aqui de gatarrão. O que lhe pergunto é que qual destas posturas utilizou quando esteve hoje com Marine Le Pen?"

O que levou Ventura a criticar o presidente e recandidato: "Ficou mal a Marcelo Rebelo de Sousa revelar conversas privadas no Palácio de Belém".

Na sua vez de questionar Ana Gomes, o candidato e líder do Chega voltou ao tema Paulo Pedroso, perguntando à adversária de ia manter a confiança no seu diretor de campanha.

"Este senhor insiste em ser vil. Mas eu não vou descer ao nível dele. É uma pessoa que não sabe o que quer, diz tudo o seu contrário. Este senhor não me ofende, nem ofende Paulo Pedroso".

E assim desceu o pano sobre aquele que era um dos mais aguardados debates desta série.

O duelo pelo segundo lugar, que pode valer demissão

Ana Gomes e André Ventura protagonizaram alguns ataques mútuos na antecâmara desta série de debates, centrando nesta espécie de duelo particular muitas das atenções da corrida presidencial. Desde logo porque ambos assumiram o objetivo de ficar à frente um do outro no resultado nas urnas.

A antiga eurodeputada socialista já deixou claro que o partido Chega não deveria ter sido legalizado, acrescentando ser obrigação do chefe de Estado "não normalizar" uma força política que "claramente põe em causa a Constituição".

Já André Ventura não escondeu desde cedo que Ana Gomes é o seu "alvo" de estimação nesta campanha. O líder do Chega declarou abertamente que tem como objetivo ficar à frente da antiga eurodeputada socialista e prometeu mesmo demitir-se da liderança dos populistas caso não o consiga.

"Os políticos vivem de resultados, é como os treinadores de futebol. Se perder [face a Ana Gomes], demito-me e assumirei esse resultado", reafirmou já nesta série de debates.

Segundo as sondagens, Ana Gomes e André Ventura são os grandes candidatos ao segundo lugar nas eleições de dia 24 de janeiro e, eventualmente (embora não seja um cenário muito provável, de acordo com as sondagens), a disputar uma segunda volta frente ao atual presidente e recandidato Marcelo Rebelo de Sousa.

Este foi o 16.º debate televisivo entre candidatos às eleições presidenciais de dia 24 de janeiro.

Antes do frente-a-frente com André Ventura, a antiga eurodeputada Ana Gomes - que não obteve o apoio do PS à sua candidatura, mas sim o do PAN e do Livre - , já debateu com Marisa Matias, João Ferreira, Vitorino Silva e Tiago Mayan, faltando-lhe ainda o "confronto" com Marcelo rebelo de Sousa, no sábado.

Quanto a André Ventura, este é o último frente-a-frente desta série, tendo já esgrimido argumentos diretamente com todos os outros candidatos: João Ferreira, Vitorino Silva, Tiago Mayan, Marcelo Rebelo de Sousa e Marisa Matias. Sobra-lhe a participação no debate conjunto de dia 12 (terça-feira).

Os debates que restam

Sexta-feira, 8 de janeiro
Marisa Matias - João Ferreira | RTP, 21:30
Vitorino Silva - Tiago Mayan | RTP3, 22:45

Sábado, 9 de janeiro
Marcelo Rebelo de Sousa - Ana Gomes | RTP1, 21:00
Marisa Matias - Tiago Mayan | SIC Notícias, 22:00
Vitorino Silva - João Ferreira | RTP3, 22:45

Terça-feira, 12 de janeiro
Debate com todos os candidatos | RTP, 22:00


Na última semana da campanha eleitoral volta a haver uma série de debates realizados no Porto Canal, nos quais Vitorino Silva - que tinha ficado inicialmente fora dos frente-a-frente televisivos (sendo posteriormente incluído apenas pela RTP) - enfrenta os restantes candidatos. As horas ainda estão por anunciar.

Domingo, 17 de janeiro
Vitorino Silva - Marisa Matias | Porto Canal

Segunda-feira, 18 de janeiro
Vitorino Silva - André Ventura | Porto Canal

Quarta-feira, 20 de janeiro
Vitorino Silva - Marcelo Rebelo de Sousa | Porto Canal

Quarta-feira, 21 de janeiro
Vitorino Silva - Ana Gomes | Porto Canal

Quinta-feira, 22 de janeiro
Vitorino Silva - Tiago Mayan | Porto Canal

Para dia 18 está ainda previsto o debate conjunto das rádios - TSF, Rádio Renascença e Antena 1.

em atualização

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG