O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, e o ministro da Defesa da Turquia, Yaşar Güler (esq.), com uma maqueta do futuro NRP Luís de Camões.
O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, e o ministro da Defesa da Turquia, Yaşar Güler (esq.), com uma maqueta do futuro NRP Luís de Camões.NUNO VEIGA / Lusa

Da moeda de Camões aos ‘drones’ e caças não-tripulados: o balanço da visita de Nuno Melo à Turquia

Entre estaleiros navais, drones de combate e diplomacia industrial, visita de Nuno Melo à Turquia revelou uma estratégia de Defesa centrada na tecnologia, na produção e na afirmação internacional.
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A deslocação ao estrangeiro de Nuno Melo à Turquia terminou mais cedo do que o previsto, com o cancelamento da visita à Polónia, mas deixou um rasto político, simbólico e estratégico. Entre a cerimónia naval em Tuzla, as visitas a empresas de tecnologia militar e os sinais de reforço de cooperação trocados com Ancara, a viagem desvendou um pouco o retrato de uma Defesa portuguesa em transformação: mais industrial, mais tecnológica e mais atenta ao lugar do país numa Europa em rearmamento.

O momento mais emblemático aconteceu nos estaleiros onde começa a ganhar forma o NRP Luís de Camões, o primeiro de dois navios reabastecedores destinados à Marinha Portuguesa. Na quilha, foi cunhada uma moeda com a efígie do poeta, num ritual associado ao nascimento de uma embarcação e à ideia de proteção, memória e identidade. O gesto ligou simbolicamente o futuro da esquadra portuguesa ao oceano, à língua e à herança marítima - uma imagem forte para um projeto que, como assinalou o chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA), almirante Jorge Nobre de Sousa, pretende devolver à Armada a capacidade de operar “como Marinha oceânica, com autonomia logística e projeção sustentada no mar alto”.

Do ponto de vista operacional, os novos navios representam o regresso de uma capacidade crítica perdida com o abate do NRP Bérrio, em 2020: a possibilidade de reabastecer unidades no mar, prolongar missões, apoiar operações aliadas e responder a crises humanitárias. Mais do que plataformas de apoio, são vistos pelo Governo como multiplicadores de força, integrados num esforço mais amplo de modernização naval que inclui novas patrulhas oceânicas, fragatas e outras unidades nos próximos anos.

Para a Turquia, o contrato tem um valor histórico: é a primeira vez que constrói um navio militar para um país da NATO, um marco na ambição de afirmação internacional da sua indústria de Defesa. O ministro turco, Yaşar Güler, apresentou a cooperação como exemplo de parceria entre aliados num contexto global “marcado por instabilidade, ameaças híbridas e riscos crescentes no domínio marítimo”, sublinhando a importância do reabastecimento e do apoio logístico para a eficácia das Marinhas modernas.

Mas a visita não se esgotou nos navios. Nuno Melo passou também por empresas que simbolizam o salto tecnológico turco, como a Baykar, produtora de drones utilizados pela Ucrânia no conflito com a Rússia, incluindo o programa Kızılelma, um caça não-tripulado de nova geração, e a Nurol Makina, especializada em veículos blindados táticos. O contacto com estas plataformas serviu menos para anunciar aquisições imediatas e mais para observar modelos de crescimento industrial acelerado, baseados em inovação, exportação e captação de talento jovem.

Ao longo da viagem, o ministro reiterou uma ideia orientadora: Portugal não quer limitar-se a comprar equipamento militar. Quer participar na conceção, produção, manutenção e exportação, transformando o investimento em Defesa num motor económico e tecnológico. A aposta passa por ciclos de vida completos, por envolvimento das indústrias nacionais e por programas com retorno financeiro direto - como o KC-390, aeronave de transporte militar na qual Portugal participa ao nível da engenharia, certificação NATO e produção industrial.

A Turquia surge, neste contexto, como parceiro funcional e tecnológico, ainda que fora da União Europeia, mas dentro da NATO. A visita sinalizou uma diplomacia de Defesa pragmática, menos ideológica e mais orientada para resultados, sem romper com o alinhamento europeu e atlântico de Portugal. Uma tentativa de diversificar fornecedores, reduzir dependências e ganhar margem de manobra num mercado internacional cada vez mais competitivo.

O regresso antecipado a Lisboa, motivado pela intempérie e pela situação de calamidade em Portugal, interrompeu a etapa prevista na Polónia, mas ficou o essencial desta “Defense Tour”, acompanhada por jornalistas: a afirmação de uma estratégia que cruza soberania, indústria, tecnologia e projeção externa. Entre o casco ainda inacabado de um navio com o nome de Camões e os drones que desenham o futuro do combate aéreo, a visita à Turquia deixou uma imagem clara do caminho que o Governo pretende seguir. Portugal procura ganhar escala num mundo em rearmamento, reforçando as suas Forças Armadas, apostando na indústria de Defesa e tentando transformar despesa militar em investimento estratégico com retorno económico, político e simbólico. Fazer da Defesa não apenas um instrumento de segurança, mas também um pilar de relevância nacional no século XXI.

O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, e o ministro da Defesa da Turquia, Yaşar Güler (esq.), com uma maqueta do futuro NRP Luís de Camões.
Defesa. Camões já está gravado no novo navio reabastecedor da Marinha (c/Vídeo)

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