Uma Thurman quebra finalmente o silêncio e acusa Harvey Weinstein

A atriz de "Pulp Fiction" e "Kill Bill" conta como foi atacada pelo produtor e acusa também Quentin Tarantino de prepotência.

"Uma Thurman está zangada. Ela foi violada. Ela foi sexualmente agredida." Quem o diz é a jornalista do The New York Times Maureen Dowd que passou dois serões a conversar com a atriz Uma Thurman em frente da lareira, em casa dela, e ficou a saber o porquê do seu ódio ao produtor Harvey Weinstein e também porque azedou a sua relação com o realizador Quentin Tarantino.

Esta foi a primeira vez que a atriz de Kill Bill falou abertamente sobre o assunto. Quando, em outubro do ano passado, foi questionada na passadeira vermelha da Broadway, Uma limitou-se a dizer que estava à espera de se sentir "menos zangada" para falar. Depois disso, num post na sua conta de Instagram, no Dia de Ação de Graças, a atriz desejava felicidades a todas as pessoas - "Exceto a ti, Harvey, e a todos os teus perversos conspiradores. Estou contente por isto acontecer lentamente. Não mereces uma bala".

Sentia-se a raiva naquelas palavras. Mas só agora ela explica exatamente porque é que está zangada. Uma Thurman foi a atriz sensação de Pulp Fiction, o filme que tornou Quentin Tarantino famoso em 1994 e também o filme que fez da Miramax, de Harvey Weinstein, uma produtora respeitada - a maior das (então) independentes. Ela era uma das "atrizes queridas" de Weinstein e costumava passar muito tempo a falar com ele. Por isso, quando uma vez se encontraram num quarto de hotel em Paris e o produtor despiu o roupão, ela achou a situação estranha mas não pensou que ele fizesse mais avanços.

Pouco depois, aconteceu o "primeiro ataque", num quarto do Hotel Savoy, em Londres. "Ele prendeu-me. Tentou deitar-se em cima de mim. Tentou mostrar-me o seu corpo. Fez todo o tipo de coisas desagradáveis", conta. Mas não chegou a forçar o ato sexual. No dia seguinte, ele enviou-lhe um enorme ramo de rosas. Uma Thurman aceitou voltar a encontrar-se com Weinstein para o confrontar, mas marcou o encontro no bar do hotel e levou consigo a amiga Ilona Herman. Só que, como sempre, e com a ajuda da assistente de Harvey Weinstein, o encontro foi transferido para o quarto.

Ao The New York Times, Ilona Thurman contou que fico à espera no bar e quando, finalmente, Uma saiu do elevador, "estava completamente descontrolada e a tremer." Só quando chegaram a casa foi capaz de contar que Weinstein tinha ameaçado acabar com a sua carreira.

A partir desse momento, e apesar de continuar a trabalhar com a Miramax, Uma Thurman diz que passou a encarar Weinstein como um inimigo. E que só devido à insistência de Quentin Tarantino aceitou participar nos filmes Kill Bill. No entanto, apesar de, devido à intervenção do realizador, Harvey Weinstein ter acabado por pedir desculpas a Uma Thurman, a verdade é que a relação dela com Tarantino acabou por ser afetada.

Na última semana de rodagem da saga Kill Bill, o realizador insistiu para que a atriz filmasse uma cena em que conduzia um carro. Uma achou que a cena era perigosa e que o carro não oferecia condições de segurança e pediu para ser substituída por um duplo. Mas o realizador foi intransigente. Uma Thurman acabou por ter um acidente e ficar ferida e com lesões nas costas e nas pernas para o resto da vida. Este incidente, diz a atriz, revela até que ponto a "desumanização" no meio cinematográfico podia pôr vidas em perigo. Depois disso, apesar de aparecer sorridente ao lado de Tarantino na promoção dos filmes, a verdade é que não voltaram a ser amigos. Uma sentiu que tinha sido agredida, violentada não de forma sexual mas de outra forma. Sentiu-se vulnerável. "Harvey atacou-me, mas isso não me matou. O que me afetou mesmo foi o acidente."

Agora, com 47 anos, Uma Thurman sente-se culpada porque o seu silêncio permitiu que, depois dela, outras mulheres passassem pelo mesmo. "Eu era uma das razões porque uma jovem rapariga iria aceitar entrar no quarto dele sozinha, tal como eu fiz. (...) Todos aqueles cordeiros entraram no matadouro porque estavam convencidas de que ninguém naquela posição faria alguma coisa ilegal com elas. Mas eles fazem-no."

Ler mais

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.