Vale a pena fazer eleições?

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Na Moldávia organizaram-se, a 20 de outubro, duas eleições no mesmo dia. Um escrutínio de primeira volta de Presidenciais, ganha por Maia Sandu, candidata pró-União Europeia, que viria também a vencer a segunda volta de 4 de novembro. Outro escrutínio, de referendo, para inscrever na Constituição o objetivo de o país aderir à UE e “fugir” à influência da Rússia - aqui o “Sim” ganhou, mas com margem demasiado curta para garantir politicamente, sem sobressaltos, essa intenção.

“Fraude sem precedentes”, clamaram Maia Sandu e os dirigentes da União Europeia, que acusaram “grupos criminosos, juntamente com forças estrangeiras” (leia-se a Rússia) de terem gastado “dezenas de milhões de euros” em “propaganda e mentiras” a um nível “sem precedentes”. 

Curiosamente esta argumentação ignorou, pelo menos, um facto: 10 dias antes destas eleições, a presidente da Comissão Europeia fez uma visita à Moldávia para apelar ao voto na adesão à União Europeia e prometer, descaradamente, que se o “Sim” ganhasse a UE investiria 1800 milhões de euros na economia do país, nos próximos três anos, em coisas como a construção de dois novos hospitais ou o desenvolvimento de infraestruturas de internet...

Num país com apenas 2 milhões e 700 mil habitantes esta promessa de “dar” 1800 milhões de euros é certamente impressionantemente sedutora... mas isto não é, também, tentar “influenciar” o resultado com “interferência estrangeira” a um nível “sem precedentes”?...

Na Geórgia decorreram Eleições Legislativas a 26 de outubro. A presidente do país (pró-União Europeia) e uma coligação de partidos europeístas declararam-se vencedores após a divulgação de uma sondagem feita à boca das urnas por uma empresa contratada pela coligação de partidos europeístas.

Porém, após o escrutínio concluído, a vitória foi atribuída, com 54% dos votos, ao partido que já estava no governo e que é considerado pró-russo.

“Fraude”, clamaram os derrotados. “Eleições roubadas”, declaram o presidente georgiano, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken e a senhora Von der Leyen da Comissão Europeia, que exigem uma investigação ao processo eleitoral georgiano e que não se importam, ao fazerem essas declarações, de serem uma “força estrangeira” a interferir num país soberano, aquilo que acusam a Rússia de Putin de estar a fazer.

Na Roménia, país da UE e da NATO, decorreram Eleições Presidenciais surpreendentemente ganhas, na primeira volta, por um candidato de extrema-direita, simpático para a Rússia.

“Fraude”, clamaram os derrotados e vários dirigentes da União Europeia, alegando mais uma vez ingerência da Rússia. Parece, dizem as notícias e os comentadores esclarecidos, que os serviços secretos da Roménia afirmam que foi por manipulação da difusão de propaganda através da rede social TikTok... não, não é piada. E foi a sério que, antes que houvesse a segunda volta, o Supremo Tribunal do país tratou de anular o escrutínio, certamente com sólida argumentação jurídica.

Este padrão, que repete constantes alegações semelhantes de fraudes eleitorais em múltiplos países (dos Estados Unidos da América à Venezuela), pode, no curto prazo, dar vantagens políticas a quem faz tais denúncias, mas tem um efeito de longo prazo que é bem mais perigoso para as democracias do que tudo o resto: a de, em breve, ninguém acreditar ser possível haver eleições limpas, um caminho tremendamente facilitador para novas ditaduras, como a história nos ensina.

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