Uma nova corrida para África

Publicado a
Atualizado a

Conheço Faustin-Archange Touadéra há muitos anos. A nossa relação data de 2008, quando ele foi nomeado primeiro-ministro da República Centro-Africana (RCA). Nessa altura, eu representava politicamente o Secretário-geral da ONU na região. Nessa qualidade, tínhamos reuniões frequentes e desde logo estabelecemos um elo de respeito recíproco. Anteriormente, ele fora professor de matemática na Universidade de Bangui e eu fizera parte da representação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), entre 1985 e 1989, mas nessa altura os nossos caminhos não se cruzaram.

Em 2016, Touadéra foi eleito presidente da República, num processo eleitoral confuso, que espelhava bem a fragilidade e a insegurança do país. As Nações Unidas tinham uma missão de paz na RCA, com cerca de 10 mil elementos, mas mal dirigida e incapaz de proteger as populações e o funcionamento do Estado. A França de François Hollande não queria acreditar nessa evidência e decidiu retirar os 2500 militares que mantinha no país e enviá-los para norte, para o Mali e o Sahel, que passou então a ser a prioridade do Eliseu. A saída das tropas francesas deixou Touadéra sem proteção. Foi isso que o levou a aceitar a oferta que Vladimir Putin lhe fez e que trouxe para a RCA o primeiro contingente do Grupo Wagner. Touadéra, que estudara em Lille e era um académico do mundo francófono e de cultura ocidental, que sabia conjugar com as tradições do seu país, abriu as portas de África aos mercenários russos. Putin soube aproveitar o vazio deixado por Hollande.

Touadéra e um pequeno número de líderes africanos estão em S. Petersburgo para a cimeira Rússia-África, que Putin inaugurou ontem e que continua hoje. Esta é a segunda cimeira do género: a anterior ocorrera em 2019. Desde então, os principais resultados não foram além da intensificação dos contactos diplomáticos, da expansão da Wagner em África, agora também no Mali, na Líbia, no Sudão e no Burkina Faso, e do crescimento das exportações de armas ligeiras: cerca de um terço das armas importadas pelos países africanos provém da Rússia, segundo o SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) e outras fontes.

O relatório mais recente das Nações Unidas (CNUCED) contabiliza 83 mil milhões de dólares de investimentos vindos do exterior de África em 2021. O maior investidor é a China, que representa cerca de 20% do total, seguida de longe pelos EUA e a França, com 8% cada. No caso da Rússia, o investimento mais significativo centra-se na construção de uma central nuclear na costa mediterrânica do Egito, em El-Dabaa. Fora isso, a iniciativa económica russa é escassa e vai apenas no sentido da exploração mineral, sobretudo diamantes, ouro, urânio e em associação com a presença do Grupo Wagner. Não há comparação com a China, que cada vez pesa mais em África: 254 mil milhões de dólares de trocas comerciais em 2021, um valor impressionante, mas que não representa senão 4% do comércio externo chinês.

A reunião de S. Petersburgo é acima de tudo um exercício diplomático. Putin precisa de aliados políticos, que pelo menos se abstenham quando se trata de condenar a sua guerra de agressão contra a Ucrânia. Vai certamente utilizar os cereais e os fertilizantes como argumentos. A promessa é disponibilizar esses produtos a preços de amigo. Mas não será fácil. A participação na cimeira é fraca: no máximo, 16 chefes de Estado, contra 43 há quatro anos. Muitos não querem ser vistos na fotografia, ao lado de Putin. Sem contar que a cimeira estava prevista para Addis Abeba, mas teve de ser transferida para um lugar seguro na Rússia, agora que temos a questão bem intrincada do mandado de detenção emitido pelo Tribunal Penal Internacional.

A região representa 55 votos nos fóruns internacionais, para além das oportunidades económicas que oferece. Todas as potências querem cativar esse universo político e económico, mesmo sabendo que a África do Sul, o Egito e a Nigéria representam cerca de 50% do PIB do continente. Não é apenas a China que está na corrida. O Presidente Biden acolheu os líderes africanos em Washington em dezembro de 2022. E tem enviado, com uma frequência inédita, uma série de altos responsáveis para contactos com os governos africanos. E há a UE, que realizou a sua cimeira com África em fevereiro do ano passado.

Estamos a assistir a um novo despertar em relação a África. Neste contexto, é bom lembrar que existe agora uma outra realidade: os povos africanos sabem cada vez mais o que querem. Algo que eu resumo assim: respeito, segurança e um desenvolvimento sustentável.

Conselheiro em segurança internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt