Uma aldeia perdida

A nossa primavera permite-nos usufruir das virtudes da natureza. É o património como dom natural que se associa à paisagem humana e ao sentir de uma cultura viva. O sol matutino espraia-se lisonjeiro, e descobrimos, deambulando numa terra de muitas cambiantes, diferenças que se enriquecem mutuamente. O conde de Ficalho, Francisco Manuel de Mello Breyner (1837-1903), par do Reino, historiador e professor de Botânica na Escola Politécnica, biógrafo de Pero da Covilhã e de Garcia de Orta, membro dos "Vencidos da Vida", demonstrou numa célebre carta a importância de ser patriota, que nada tem que ver com nacionalismos falsos e ilusórios, perigosamente destruidores da humanidade. Amar as raízes, compreender o que nos distingue e quem somos significa ter a capacidade de amar o que nos é próximo, sem tentação de ver nisso motivo de cegueira ou de indiferença relativamente aos outros.

Nessa missiva, publicada pelo Repórter (em 4 de setembro de 1888), jornal dirigido pelo seu amigo Oliveira Martins, Ficalho dizia escrever de uma aldeia "perdida no fundo das nossas províncias". Mas guardava segredo sobre onde estava. Podia ser "em um vale do Minho - um valezito assombrado e fresco não belo mas bonito, um pouco japonês no recorte das suas culturas pequenitas e nítidas". Num horizonte curto, pintado de verde e amarelo, desde os carvalhos escuros à cor quente das parras queimadas ou do milho em flor. Os bois que descem a estrada são doces e mansos, mas como os minhotos levantam-se bravios num toque a rebate, "sem às vezes saber porquê". "Se o Minho lhe não agrada, coloque-me em uma vilazita branca e bem caiada da planície ribatejana". A lezíria vai até à linha dos choupos, e os salgueiros marcam uma orla verde acinzentada na curva doce do Tejo. O som que se ouve desassossegado é o de um curro de bois e cabrestos que vem pela estrada. Há cornadas e rebuliços, mas o abegão e os campinos controlam a manada. "O ruído das picadeiras vai-se morrendo ao longe; a lezíria fica silenciosa e só, banhada pelo luar, que acorda espelhos de prata nos remansos das águas do Tejo." Mas poderia admitir-se que o refúgio seria uma aldeola do Alentejo - na hora da calma, na qual corre a charneca no horizonte, "escura e chata". A cor é o amarelo dos restolhos. Um pastor cisma com as ovelhas agrupadas à volta de uma azinheira, onde cantam as rolas, enquanto as moças voltam da faina, "com os lenços traçados a tapar-lhes a boca, como o véu negro dos tuaregues do deserto". Subitamente passamos da ambiência europeia para uma realidade que nos transporta ao Magrebe e a África. "O sol domina e abrasa tudo, como um Deus implacável e vingador."

Ficalho estava num desses lugares, ou ainda na Beira-Serra ou no mediterrânico Algarve. "Em todo o caso (dizia) vivo nas aldeias, longe do importuno contacto do meu semelhante civilizado, sem jornais e quase sem notícias, não recebo comunicações da Sociedade de Geografia nem da Sociedade Protetora dos Animais. Vivo um pouco só, um pouco como este povo, que nós conhecemos mal e nos conhece pior...". Cuidar do que é próprio, do nosso jardim, como diria Voltaire, significa entender o essencial de quem somos, na luz ou na sombra. "No fim de contas, isto de ser nacional, de ser português, ou sueco, ou árabe, ou o que quer que seja: significa simplesmente ser uma coisa à parte, sem imitação e sem cópia; significa ter uma língua própria e um traje especial, e um modo de pensar e de sentir particular, lentamente fixado pela tradição." Que é o patriotismo democrático, afinal, senão essa capacidade de entender a fragilidade e a força de quem somos realmente, para lá das ilusões e dos mitos?

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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