"Um certo Brasil amável morreu"

Por escassos 1,7%, Lula não foi eleito presidente da República do Brasil no domingo, 2 de outubro de 2022. Em princípio, o resultado pode ser considerado normal, pois, das duas vezes anteriores em que ele venceu as eleições presidenciais brasileiras, jamais o conseguiu no primeiro turno. Desta vez, ele teve, inclusive, mais votos do que nas duas disputas em que acabou eleito no segundo turno. Pode, portanto, acabar eleito no próximo dia 30, como todas as contas e todos os principais cenários apontam, embora se preveja uma campanha feroz, no mínimo, ao longo do mês.

Tudo bem, portanto. Tudo bem? Não. Os resultados de anteontem demonstram que o protofascismo, o neofascismo ou simplesmente o fascismo (deixemos o rigor dos conceitos para os politólogos) cresceu imenso no Brasil, o que é preocupante, literalmente, para todo o mundo.

Alguns atribuem isso à força de uma ideologia que já vem do tempo das capitanias hereditárias e que continua a manifestar-se, por exemplo, pelo racismo, por um elitismo bacoco e por um profundo desprezo pelos humildes; outros ao peso dos evangélicos, que já são a maioria dos votantes no Rio de Janeiro e, dentro de oito anos, sê-lo-ão em todo o país; e outros simplesmente ao anti-petismo. O mais certo é ser tudo isso e mais alguma coisa que ainda precisa de ser estudada, incluindo uma certa incapacidade das forças progressistas e democráticas não só de se unirem sem complexos, como também de lidar com os novos fenómenos sociais, como as redes sociais.

Impossível, igualmente, esquecer a corrupção do governo Bolsonaro. Os bolsonaristas fanáticos enchem a boca para falar da "corrupção" de Lula (absolvido em 26 processos de todas as acusações contra ele, o que deveria encerrar toda essa discussão em que boa gente ainda insiste em cair) ou dos governos do PT (idêntica à corrupção de todos os governos desde que há Brasil), mas, além das escandalosas suspeitas de corrupção dele e da sua família, o ainda presidente do país fez aprovar na véspera das eleições um orçamento secreto bilionário para distribuir verbas para os seus correligionários políticos. Os especialistas não têm dúvidas em considerar esse orçamento secreto "o maior escândalo de corrupção da história do Brasil". Ninguém tem dúvidas, em particular, que o mesmo influenciou os resultados das eleições de 2 de outubro de 2022.

Voltemos ao crescimento do "fascismo evangélico brasileiro". O facto não é demonstrado apenas pelo crescimento da votação de Bolsonaro no primeiro turno, ligeiramente superior à que obteve em 2018 e muito acima das previsões de todos os institutos de pesquisa: é confirmado, em especial, pelos resultados das eleições para os demais cargos em disputa nas eleições de domingo (governadores, senadores, deputados federais e estaduais). Aí, o bolsonarismo ganhou praticamente em toda a linha. Destaca-se o caso do Senado, que renovou um terço dos lugares, os quais, com a exceção de meia dúzia de vagas, foram preenchidos por candidatos ligados a Bolsonaro. Entre os novos senadores brasileiros, estão figuras que juram ter visto Cristo em cima de goiabeiras, ex-juízes considerados parciais pela justiça, negacionistas da ciência, criacionistas, milionários dados a fazer "turismo espacial" e que se chamam a si próprios "astronautas". Conhecida a truculência do bolsonarismo, a sua simpatia por ditaduras, a apologia da violência, o seu desprezo pelos pobres, o racismo, a misoginia e o oportunismo religioso que o caracteriza (de que é prova cabal a aliança do seu chefe, um católico de origem, com os evangélicos), um grande poeta brasileiro afirmou, tão logo os resultados do último domingo foram conhecidos: - "Um certo Brasil amável morreu!".

A chapa Lula-Alckmin nada tem de "esquerdista" no sentido pejorativo do termo (no limite, é uma chapa de "centro-esquerda", talvez, inclusive, mais para o centro do que para a esquerda), mas é a única chapa democrática na disputa. Da sua vitória depende a preservação mínima não só da democracia, mas da civilidade no Brasil. Os números do primeiro turno sinalizam que a vitória está perfeitamente ao seu alcance. Repetindo-se o que ocorreu há quatro anos, uma parte dos votos de Ciro Gomes deve migrar para Lula, sem esquecer os de Simone Tebet, o que será suficiente para derrotar Bolsonaro.

Lula pode, pois, derrotar Bolsonaro. Mais do que isso, precisa, a bem do Brasil e do mundo, onde o autoritarismo e a extrema-direita crescem assustadoramente. A luta continua.

Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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