Um ano muito insólito: para onde vamos?

As forças armadas russas estão neste momento a disparar milhares de obuses por dia contra a Ucrânia. O meu amigo Zulmiro, que é, e sempre foi, um militante comunista primário, não fica incomodado com esse volume de destruição diária. Para ele, cada ucraniano é um nazi. Embora não saiba explicar o conceito de nazismo no ano de 2022, a acusação, por muito imprecisa que seja, justifica tudo e arruma o assunto. É impossível discutir com ele, apesar de muitas décadas de amizade. Perante isso, e passando para um nível mais geral, pergunto como será possível lançar um processo de negociações entre a liderança ucraniana e os ídolos do Zulmiro no Santo dos Santos, o Kremlin? Essa é uma das grandes questões do momento. Fala-se de diplomacia, mas isso, o que significa?

Entretanto, a aposta russa continua a ser feita na força, no terror e na violação da ordem internacional. Vladimir Putin e os seus querem o aniquilamento do Estado ucraniano e a rendição dos seus dirigentes. Para o conseguir, vão continuar a metralhar e a arrasar a Ucrânia. Sistemática e intensamente, com total desumanidade e um grande sentido de urgência, para enfraquecer ao máximo a capacidade de resistência e de legítima defesa dos ucranianos, antes da chegada efetiva do armamento prometido pelos países ocidentais.

Muitos não querem olhar a sério para a questão da legítima defesa, preferindo, do nosso lado, a ambiguidade cómoda, própria das nações bem instaladas na vida. Por um lado, ajudamos a vítima e, por outro, procuramos não hostilizar o agressor para além dos limites que possam pôr em causa a nossa tranquilidade. Continuamos a repetir que não estamos em guerra contra o regime de Putin, uma meia-verdade que o deve fazer sorrir com ironia. Ele está em guerra contra nós e sabe que as guerras de agora podem ser travadas com mísseis e canhões, como é o caso da Ucrânia, ou com cortes de energia, sabotagens cibernéticas, desinformação, financiamento de grupos extremistas, e muito mais.

A legítima defesa levanta uma questão estratégica: ou nos aliamos ao agredido, ao mais fraco, ou amanhã será a nossa vez. Podemos estar à beira do momento decisivo: apoiar com um novo tipo de intensidade ou apenas com custos mínimos?

Olhando mais além, diria que há décadas que a situação internacional não atingia um ponto tão perigoso como agora. A acrescentar a uma pandemia que paralisou o mundo, temos agora uma combinação de conflitos e tensões muito graves. Na Ucrânia, no Iémen, à volta do Irão, no Burkina Faso e arredores, na Líbia, em Myanmar, para além das crises sem fim à vista na Palestina, na Síria, no Líbano, no Congo (RDC) e outras.

Nos países mais desenvolvidos, as pessoas saem do pico da crise sanitária com uma febre consumista muito aguda. A questão do aquecimento global, e da destruição acelerada da natureza, desapareceu do radar dos cidadãos e dos discursos dos políticos. Mesmo Greta Thunberg não se consegue fazer ouvir, ela que tinha mobilizado as atenções globais no período anterior à pandemia.

Depois surgiu a guerra, graças à loucura imperialista e ditatorial de Vladimir Putin. Lamento dizer aos analistas que falam dessas coisas que não se trata de uma questão geoestratégica. Putin quer ser o Czar Pedro o Grande dos nossos tempos, quando na realidade poderá acabar por ser visto como o pequeno Hitler de 2022.

Entretanto, a tensão entre os EUA e a China entrou numa fase bem mais perigosa. E o empobrecimento dos países mais vulneráveis, algo que desapareceu das letras gordas dos jornais, está em aceleração. No Sri Lanka, nos países do Sahel, na América Central, no Haiti e no Paquistão, para mencionar apenas alguns. E as economias das nações mais ricas estão cada vez mais a viver à custa do endividamento das gerações futuras, no meio de uma inflação que mostra os desajustamentos entre a produção, as importações e os padrões de consumo. Entretanto, as organizações multilaterais continuam a perder força e imagem.

Estamos em pleno numa encruzilhada de incertezas críticas e de graves riscos. Para onde vamos? E onde estão os líderes visionários, capazes de propor as vias do bom senso?


Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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