A Conferência de Davos voltou a destacar as principais forças que moldam a ordem internacional atual. Neste contexto, os Estados Unidos assumem, sem rodeios, o papel de arquitetos das novas regras económicas, comerciais e geopolíticas. Apesar dos discursos sobre cooperação e resiliência, fica claro que há uma estratégia de defesa dos interesses nacionais, impactando diretamente as cadeias globais, o comércio e o equilíbrio de poder. Ao mesmo tempo, no Leste, a assertividade estratégica da China e a pressão geopolítica da Rússia introduzem novos fatores de instabilidade, limitando as opções da Europa. Diante dessa rápida reconfiguração, a Europa encontra-se numa encruzilhada significativa, entre rivais da Ásia e da América: deve adaptar-se, resistir ou reinventar seu lugar no mundo?Numa primeira reflexão, dizer que é necessário reforçar a resiliência comercial e industrial. Com o risco crescente de tarifas e guerras comerciais, a Europa deve adotar uma estratégia ativa para proteger e modernizar setores estratégicos, como o automotivo, energético e tecnológico. É crucial ir além de apenas reagir a pressões externas, diversificando parceiros comerciais e cadeias de abastecimento. Isso reduziria dependências excessivas e aumentaria a capacidade de resposta da economia europeia em um cenário global cada vez mais fragmentado.Em segundo lugar, a autonomia estratégica e a segurança são fundamentais. A instabilidade internacional atual evidencia a dependência europeia dos Estados Unidos na defesa, tornando essencial aprofundar o debate sobre a constituição de maiores capacidades militares próprias. Sem romper com a aliança transatlântica, a Europa deve investir, de forma pragmática, na defesa conjunta e na indústria estratégica, superando as dificuldades de coordenação política entre os Estados-membros.Por fim, a fragilidade deste novo modelo multilateral é uma preocupação séria. Com o enfraquecimento das instituições globais, a União Europeia deve transformar a defesa das regras internacionais numa ação diplomática e económica mais assertiva, sustentada por maior coesão interna e alianças estratégicas. Caso contrário, o risco de fragmentação geopolítica e económica tenderá a aumentar.Ou seja, o cenário internacional que emerge da conferência de Davos confirma que a Europa não pode mais se limitar a reagir às decisões dos outros. Pressionada a ocidente por uma redefinição das regras do jogo liderada pelos Estados Unidos e a Leste por uma crescente instabilidade geopolítica, a União Europeia enfrenta uma encruzilhada que exige visão e ação. Neste novo contexto, Portugal não pode também ser apenas espectador alinhado, devendo afirmar uma estratégia própria — económica e geopolítica — baseada nas suas vantagens competitivas históricas, na diversificação de parcerias e numa diplomacia ativa no espaço europeu e atlântico. Num mundo mais competitivo, a ausência de estratégia equivale, cada vez mais, a uma opção clara pelo declínio.