Salva e guarda da Tapada das Necessidades para Lisboa

Em 1836 D. Fernando veio da Alemanha residir no Palácio das Necessidades com sua mulher D. Maria II e inicia um processo novo em Portugal, construindo e acompanhando a obra do primeiro jardim paisagista em Lisboa. Esta novidade toma forma na antiga Cerca das Necessidades, que havia sido deixada por D. João V aos padres oratorianos que a tratavam como mata, pomar e horta.

As novidades técnicas introduzidas por D. Fernando foram experimentadas neste terreno virado sobre o Tejo, com excelente exposição, com acentuados declives e água trazida pelo Aqueduto das Águas Livres. Os bons resultados das experiências nas Necessidades eram depois desmultiplicados no Parque da Pena onde o rei lançava o seu maior e mais belo projeto paisagista, reconhecido no século XX como Património da Humanidade.

Através de uma sábia modelação do terreno das Necessidades, de uma otimização da água disponível e de melhorias substanciais da qualidade dos solos, os dez hectares da Tapada das Necessidades passaram a terreno de aclimatação de espécies vindas de todas as partes do mundo e de experiências como a primeira máquina de corte de relva. O sucesso desta operação vem relatado nos diários de visitantes como Hans Christian Andersen: "O rei D. Fernando (...), gentil e acolhedor, falou das minhas obras (...). Ele próprio me conduziu aos seus magníficos jardins onde trepadeiras raras cobriam com grande profusão de folhas e flores os muros altos e onde esplêndidas palmeiras de grandes copas estendiam a sua sombra. Tudo era de uma grande beleza (...) com os cuidados e o bom gosto do rei." (1)

Uma imagem na sala particular da rainha, no Palácio das Necessidades, encontrada e descrita por João A. Carreiras, revela-nos o jardim do rei: "O aspeto original deste jardim está bem patente numa pintura na qual se vê o lago com a ilha, onde está um pequeno pavilhão. O lago está envolto por vegetação luxuriante (...). Ao fundo vislumbra-se a escadaria que conduz ao jardim de buxo e que permitiu identificar com segurança o local aqui representado." (2) O ambiente romântico da pintura e as formas ondulantes do lago constituem uma grande inovação na história de arte de jardins e uma nova forma de relação com a natureza que se opõe à geometria linear do jardim do século XVIII.

Foi tão inovador este traçado que muitos artigos sobre a Tapada das Necessidades surgiram nas revistas das sociedades hortícolas criadas também em simultâneo com todo este entusiasmo pelo mundo das plantas e pelos jardins e parque que se verificou no século XIX por toda a Europa e que está ainda (!) patente e possível de recuperar nas Necessidades.

O jardineiro-chefe que pôs em prática as ideias do príncipe consorte D. Fernando II, aclimatando milhares de espécies a esta encosta sul de Lisboa, chamava-se Jean-Baptiste Bonnard (3), o mesmo que em 1856 veio a traçar o projeto (oferecido pelo rei à cidade de Lisboa ) para o Jardim da Estrela segundo este novo estilo paisagista que nas Necessidades revolucionou o desenho dos jardins de Lisboa introduzindo o estilo do jardin paysager, e compondo o espaço com novas plantas, formas naturalizadas e objetivos de uso público à imagem do que se fazia na Europa e nos EUA.

É pois desconcertante assistir hoje à indiferença da Câmara de Lisboa em relação ao que foi o jardim seminal de todo este processo de entrega ao público do privilégio de ter um jardim na cidade. A importância histórica deste jardim é enorme e basta deslocarmo-nos à Exposição de Jardins Históricos promovida pela própria Câmara Municipal de Lisboa em celebração de Lisboa Capital Verde 2020 para percebermos a força que no século XIX o Jardim das Necessidades teve na capital e a repercussão que dele se sentiu por todo o país.

Para quem não possa ir à Biblioteca Nacional ver e aprender com esta extraordinária exposição promovida pela Associação de Jardins Históricos ( AJH) liderada pela arquiteta paisagista Teresa Andresen, pode mergulhar no site da AJH (https://jardinshistoricos.pt/project/view/19) e conhecer cerca de 800 jardins e sítios históricos de Portugal.

É tempo de proteger a sério a Tapada das Necessidades e de a valorizar com um restauro completo e com uma entrega à população de Lisboa que possa ser celebrada como uma marca de respeito pelo património da cidade. Os movimentos de defesa da Tapada, que espontaneamente se mobilizaram para defender este jardim contra a sua modernização e perda do encanto histórico, revelam bem o que os jardins urbanos e públicos passaram a significar para a população de Lisboa depois da experiência do confinamento. Eles foram o escape que deu lugar ao encontro com a viva realidade da natureza. A jardinagem foi um elo de ligação à vida, fazendo disparar a venda de ferramentas de jardinagem e de plantas. A proximidade de um jardim para passear em silêncio foi para muitos a salvação. Vamos agora "urbanizar", encher de ruído, luzes e desassossego aquilo que chegou ao século XXI intacto?

Que a câmara municipal, representante de nós todos na gestão da cidade, ponha em marcha um verdadeiro plano de salvaguarda que salve e guarde os dez hectares que na sua maior parte são património e podem ser orgulho de uma Lisboa verde do século XXI. Este parece ser o desejo de muitos e é certamente um anseio de quem percebeu com a pandemia de covid-19 a verdadeira função dos jardins nas cidades.

(1) Hans Christian Andersen, Uma Visita em Portugal em 1866, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984, p. 44.

(2) João A. Carreiras, A Evolução das Necessidades: do Barroco ao Paisagismo, in Jardins e Cerca das Necessidades, C. Castel-Branco, Sónia T. Azambuja, João A. Carreiras, Livros Horizonte, Lisboa, 2001, p. 101.

(3) Para a lista das 562 novas espécies introduzidas no jardim das Necessidades ver o livro Jardins e Cerca das Necessidades, p. 172-177. Este levantamento foi efetuado por Sónia T. Azambuja e João A. Carreiras a partir das encomendas de plantas para a Real Quinta das Necessidades entre os anos de 1841 e 1867.

Arquiteta paisagista, professora da Universidade de Lisboa

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