O medo é sempre um produto de enorme sucesso, sobretudo se baseado em armas poderosas. Mas foi logo no dia em que ameaçou com a força máxima - o nuclear - que percebemos o tremendo fracasso de Putin. Quem começa a guerra com a máxima cartada, qual joga depois?.Estas poucas semanas mostram já a exponencial tragédia para a Rússia dos mais de 20 anos de poder de Putin. Um espião, especializado em geoestratégia da Guerra Fria e assassinato sofisticado, não criou uma boa economia nem melhorou a tecnologia ou ciência, exceto a que lhe é instrumental - a de guerra e espionagem..Assistimos assim ao desmoronamento de uma superpotência, tão enfraquecida na sua capacidade de sobreviver à economia do século XXI quanto um colonato africano de séculos passados - um país limitado a viver de matérias-primas. A que junta armas e terrorismo cibernético do futuro. No topo, um homem que se dedicou à oligarquia comissionista. Ao seu redor, um conjunto de interesses que deixaram o seu povo inacreditavelmente mais pobre face à fortuna de combustíveis e metais preciosos que exporta todos os dias..A Rússia ocupa o 11.º lugar no PIB mundial (10 vezes menos que a China e três vezes menos que a Índia), uma dimensão económica comparada a Itália/Espanha (dependendo da alta dos combustíveis). Teve, segundo a The Economist, o dobro das mortes por covid-19 face aos Estados Unidos, ou o triplo comparando com a Europa. Uma criação de riqueza tão fraca que é 57.ª no PIB per capita (Portugal é 42.º), mas que esconde uma vertiginosa linha descendente quanto ao número de pobres. Um fracasso total, de cima abaixo, que o encadeamento malévolo da propaganda e repressão de Putin consegue abafar internamente..Na sequência desta estratégia, o Presidente russo entregou-se àquele que deveria ser o seu principal rival: Xi Jinping. A Rússia ruma agora a oriente, política e socialmente, quando o essencial da sua história mostra um país virado a ocidente e a cultivar os princípios políticos europeus - mesmo quando eram inexequíveis, como era o caso da construção de uma civilização tendo por base os escritos de Marx e Engels..Hoje, colocado sob cordão sanitário a ocidente, e tornando-se vassalo a oriente, Putin fará o que Xi Jinping deixar. É a suprema derrota de um homem vazio, que deixa o mundo a arder na violência da carestia de vida, na fome, e nos atentados aos sistemas eleitorais democráticos (via manipulação das redes sociais e financiamento de campanhas sujas). Não desmerece Nero e inspira Trump..Por isso é tão inquietante continuar-se a sonhar com a paz de Putin. O que é paz para Putin senão a anexação dos países e interesses económicos, seja a que custo for? Resta-lhe pôr-se ao serviço da China, forçando os custos da energia a subirem de tal forma a ocidente que os produtos chineses e indianos ganham um novo fôlego competitivo por contarem com tarifas para amigos. É às democracias que ele quer aniquilar pela violência da inflação nas ruas..De facto, esta guerra parte o mundo em dois e não há como escapar-lhe. O consórcio China&Rússia (&Índia) procura, além do mais, o objetivo errado: maximização económica quando estamos a precisar de equilíbrio social e ambiental. Por isso Zelensky diz, e bem, estar em causa o futuro do mundo se o medo vencer. Não só na Ucrânia, mas no dia a dia de todos nós - na capacidade de suportar os embates económicos deste sequestro energético. Daqui para a frente, resistir é poupar. Jornalista