Revista 'Camões'. Para continuar a falar de língua e de cultura…

Em 1998, o (então) Instituto Camões editava o primeiro número de uma revista que, colocando a língua e a cultura no seu cerne, se pretendia inovadora, rigorosa e, sem deixar de convocar um pendor académico, mas também sem a ele de todo se cingir, acessível a diversos públicos.

Ao longo de 24 números, foi-se cumprindo esse propósito, inscrito na matriz da revista, de promover a divulgação organizada de uma temática, remetendo para "grandes momentos, obras e homens" de um património (não apenas português, mas do espaço multicultural de língua portuguesa) que o editorial inicial da revista Camões registava.

Pela sua qualidade e por via da ampla rede que o Camões - Instituto da Cooperação e da Língua (Camões I.P.), como hoje se designa a instituição, detém e apoia em cerca de oito dezenas de países em quatro continentes, a revista tornou-se conhecida (dentro e fora de Portugal), foi formando os seus públicos e, sobretudo, estimulando nessa ampla rede externa um maior conhecimento do pensamento, da criação, de movimentos, de obras e de criadores de Portugal e dos espaços de língua portuguesa.

Após um interregno de seis anos (o último número data de 2015), é com grande satisfação que o Camões I.P. retoma este importante e simbólico projeto editorial, com a publicação, muito em breve, de um novo número, decisão que atende a diversas ordens de razões.

Desde logo porque a promoção internacional da nossa cultura (e da língua que a sustém) constitui um desígnio central da política externa portuguesa, o qual animou a criação de uma estrutura de colaboração e de articulação interministerial - a ACE (Ação Cultural Externa) - que o Camões I.P. integra.

A publicação da revista Camões, não deixando de atender a um público interno, coloca, como compete fazer a este instituto, à disposição da ampla rede que participa nesta estrutura e, de modo particular, da rede do Camões I.P. no mundo - de universidades a escolas; de cátedras a consórcios de ciência; de leitorados a centros de língua portuguesa; de centros culturais a clusters EUNIC nos quais toma parte; de associações a instituições de variada ordem - mais um conteúdo e mais um contributo para essa promoção.

De modo particular, as cátedras que o Camões I.P. tem vindo a criar em instituições de ensino superior estrangeiras desempenham - nessa rede e nesta revista - uma posição e um papel de grande relevância e alcance.

Na medida em que associam investigação, ensino, formação e divulgação da língua e da cultura portuguesas (bem como das culturas que também se expressam em língua portuguesa), as cátedras (e, por extensão, as universidades que as acolhem) assumem-se como polos crescentemente mais importantes no propósito de internacionalização de ambas.

Considerando que se atingiu, no corrente ano, a importante marca das 60 cátedras em funcionamento, nos quatro continentes, rapidamente se percebe o potencial que esta rede representa e o capital de influência positiva para a nossa língua e cultura que ela detém.

E foram precisamente essas as razões que nos levaram a fazer incidir nas cátedras, nesse potencial e capital, o número com o qual retomamos a publicação da revista Camões.

Atendendo ao alinhamento editorial definido, foram contactadas cátedras que têm como seu patrono um escritor português (escolhido pela cátedra, em função dos seus interesses académicos e de investigação, e articulado com o Camões I.P.), tendo-lhes sido lançado o desafio de, tomando por referência essa figura, o campo de estudos que a partir dela se desenvolve e os públicos a que se dirigem, explicitar como a literatura (em língua portuguesa) e os universos que ela cria são, nesses contextos (geográficos, académicos, culturais), partilhados, estudados, ensinados.

No fundo, tendo em conta a diversidade e a abrangência (literária e cronológica) dos escritores-patronos de cátedras do Camões I.P., construir um pequeno roteiro da literatura portuguesa tal como ela é pensada e promovida em contextos externos ao nosso país. Poderão assim os leitores encontrar 12 textos, que vão de Aquilino Ribeiro a António Lobo Antunes, passando por Eça de Queirós, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Virgílio Ferreira, José Saramago, Lídia Jorge ou Manuel Alegre.

Um número que encerra, assim, um exercício no domínio dos estudos portugueses em contexto externo, a promoção internacional da nossa cultura e, como se propunha ainda no número inicial, a "difusão de temáticas cujo interesse é partilhado por estudiosos e amadores das letras e da cultura".

Mais importante ainda, um número que, falando de língua e de cultura, se propõe prosseguir a construção de pontes, propósito que, dando aliás substância ao título do primeiro número, animava e continua a animar a revista.

Chegamos, pois, ao número 25.

E se o ano do primeiro número (1998) coincidiu com aquele em que José Saramago era distinguido com o Prémio Nobel, coincide este, em que retomamos o projeto, com aquele em que se assinala o centenário do escritor. Motivo para, a par das tantas iniciativas a que, nesse âmbito, o Camões I.P. e a sua rede estarão ligados, também a revista Camões poder vir a revisitar o escritor e a sua obra.

Presidente do conselho diretivo do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua

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