Despesa não rima com Centeno

Mário Centeno não é um homem de orçamentos suplementares, mas de cativações e superavit. Habituado a conter e muito a despesa do Estado, expandi-la - como vai ser necessário para vencer a pandemia - seria o equivalente a engolir um grande sapo.

Por aí não é surpreendente a sua saída do governo. Mário Centeno foi e é o rosto de um superavit, uma vitória da história democrática, que marcou o ano de 2019.

Fez de polícia mau no governo, enquanto dava ao primeiro ministro o papel de policia bom. António Costa deve-lhe esse esforço e papel difícil.

Em 2020, a pandemia trocou-lhe as voltas e o 'Cristiano Ronaldo" das Finanças nunca mais foi o mesmo. Centeno já não queria ser ministro nesta segunda legislatura. A desmotivação já era real e a crise que desabou sobre a economia apanhou-o de surpresa e, claramente, os traços de personalidade do ministro não encaixaram na nova conjuntura e o ministro não lidou bem com a pandemia, desde a primeira hora. Aliás, foi dado como "desaparecido" várias vezes e sentiu-se a sua ausência no palco político que, semana a semana, ia dando novidades aos portugueses acerca da saúde, da economia e das finanças.

Há muito que o mal-estar estar estava instalado no governo. A última polémica aconteceu com a injeção dos 850 milhões de euros sem informar o primeiro-ministro, António Costa. A transferência foi realizada antes da esperada auditoria à instituição financeira.

A alegada falha de comunicação caiu mal em todas as frentes.

O mal-estar nunca ficou curado e a pasta das Finanças estava ligada a uma espécie de ventilador. Na conferência de imprensa desta terça-feira, houve um abraço que não pode ser dado. Os elogios do primeiro-ministro pareceram contidos, medidos em cada palavra e foram estranhos no meio de um discurso sobre o fim ou não da calamidade e a reabertura dos centros comerciais de Lisboa.

Terá sido este o melhor dia para sair? No meio de tantos outros assuntos e em véspera do dia de Portugal, acredito que o momento de fama e os elogios tenham sabido a pouco a Mário Centeno. Depois de ter deixado de ser número dois neste último governo, toda esta legislatura ganhou um sabor agridoce.

No Eurogrupo começou em grande, mas não sairá pela porta grande. Nos últimos dois meses, algumas críticas foram ouvidas e escritas na imprensa internacional à prestação do português. Esse desgaste fez com que perdesse o brilho no olhar. Como se viu na conferência de imprensa, Centeno estava nervoso, o papel que segurava nas mãos tremia e agitava-se constantemente antes da despedida. Talvez por isso apressou-se a anunciar a não recandidatura ao Eurogrupo, minutos depois de António Costa dar conta da sua demissão.

A forma do primeiro-ministro reconhecer o seu papel como governante será dar-lhe o lugar de governador do Banco de Portugal. Curiosamente, esta saída de cena acontece quando a Assembleia da República se prepara para aprovar a legislação que aperta as portas giratórias na passagem de detentores de cargos políticos para outros organismos, o que deverá ser o caso do ainda ministro (até segunda feira, dia 15) e candidato ao lugar de governador da filial do BCE em Portugal, ou seja, o Banco de Portugal. Em política costuma dizer-se que o que parece é. Será o salário, o estatuto e a duração do cargo de governador assim tão tentador que justifique todo este teatro político?

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